(Des)confiança: a moeda que move as doações

Vivemos tempos em que a confiança se revela tão preciosa quanto o próprio dinheiro. A instabilidade econômica, a polarização política e a fragmentação social corroem as bases de mobilização coletiva e isso afeta profundamente desde o consumo até o ato de doar. Sem confiança, não há engajamento.

Dados recentes confirmam essa sensação. O Índice de Confiança do Consumidor, da Ipsos, segue oscilando, refletindo o nervosismo diante do cenário econômico. Em julho de 2025, as maiores preocupações entre os brasileiros foram crime e violência; pobreza e desigualdade; além de saúde, questões que atravessam a vida cotidiana e impactam diretamente o sentimento de segurança coletiva e dão lugar a atitudes mais individualistas. A percepção de injustiça estrutural também é marcante: 83% acreditam que a economia favorece apenas os ricos e poderosos, enquanto a média global é de 72%. A confiança nas instituições está em queda, enquanto a confiança interpessoal e nas  OSCs (Organizações da Sociedade Civil) se mantém estável, porém sem avanços significativos. Esse pano de fundo de desconfiança permeia as relações pessoais, a atitude do consumidor e, inevitavelmente, o comportamento filantrópico.

A confiança é, sem dúvida, a moeda mais influente da filantropia e, paradoxalmente, uma das mais raras

A mais recente Pesquisa Doação Brasil 2024, coordenada pelo IDIS e realizada pela Ipsos, traz uma fotografia sobre como os brasileiros enxergam e praticam a cultura da doação. O levantamento mostra que 78% dos brasileiros com mais de 18 anos e renda familiar acima de um salário-mínimo fizeram algum tipo de doação em 2024, seja em dinheiro, bens ou tempo. O volume total de doações individuais atingiu R$ 24,3 bilhões, superando de forma significativa os R$ 14,8 bilhões de 2022. A mediana das doações em dinheiro também cresceu, passando de R$ 300 em 2022 para R$ 480 em 2024, o que indica uma maior disposição em apoiar causas com valores mais consistentes.

O que chama atenção, no entanto, é o perfil mais criterioso desse doador. Nada menos que 86% afirmam escolher as causas com cuidado e 83% buscam informações antes de doar. Ao mesmo tempo, quase metade dos entrevistados revelou já ter deixado de doar depois de ouvir notícias negativas sobre organizações, e apenas 49% mantêm fidelidade a uma mesma instituição ano após ano, contra 69% em 2015. Entre os que não doam, a principal justificativa é a falta de confiança ou transparência, mencionada por 38% – um salto em relação a 24% em 2022.

Mesmo em situações de emergência, quando a solidariedade costuma falar mais alto, a lógica da confiança continua presente. Em 2024, metade da população realizou doações em resposta a emergências, sendo que 41% contribuíram com bens, 24% com dinheiro e 14% com tempo voluntário. Dos entrevistados, 59% afirmaram acompanhar o trabalho realizado pelas ONGs para as quais doaram. 

Fortalecer a confiança na doação exige um conjunto de ações complementares. Transparência ativa, com dados claros sobre uso dos recursos, relatórios acessíveis e prestação de contas frequente, é um passo essencial para construir credibilidade. A comunicação precisa ser honesta e empática, conectando doadores a histórias reais de impacto positivo e compartilhando não apenas sucessos, mas também desafios. As situações emergenciais, que mobilizam em larga escala, podem ser aproveitadas como portas de entrada para estabelecer vínculos duradouros, transformando doadores ocasionais em parceiros recorrentes. Investimentos em governança, certificações e prestações de contas de fácil compreensão fortalecem institucionalmente as OSCs, elevando a percepção de seriedade e eficácia. Por fim, a educação do público, com campanhas que mostrem como escolher boas causas e identificar organizações responsáveis, amplia a base de doadores conscientes.

A confiança é, sem dúvida, a moeda mais influente da filantropia e, paradoxalmente, uma das mais raras. O país reconheceu a importância do trabalho das ONGs durante a pandemia, pois foram essas organizações que apoiaram os mais vulneráveis em um momento de tanta dor e desesperança. O brasileiro quer doar e doa, mas exige clareza, responsabilidade e credibilidade. Se incentivarmos essa cultura com dados sobre o impacto gerado, comunicação transparente e fortalecimento institucional, estaremos não apenas cultivando doações mais frequentes e maiores, mas também resgatando a esperança coletiva de que juntos podemos transformar o Brasil.

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Paula Fabiani é CEO do IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social)

Marcos Calliari é CEO da Ipsos Brasil