Que tal se a gente deixar Édouard Louis em paz?

Me arrisco no campo minado que é neste momento celebrar o francês Édouard Louis, cujas opiniões, editadas em uma reportagem divulgada no início de março, incendiaram o universo literário. Um dos nomes mais badalados da autoficção, o escritor motivou artigos com argumentos sérios – como os de Élvio Cotrim e Rodrigo Casarin – e textões de quem lê título e destila ódio. 

Primeiramente, pouco me importa o que o francês pensa da italiana Elena Ferrante. Se listar o que não gosto (Beatles, só para ficar no mais “polêmico”), serei cancelada pela eternidade. O francês pode gostar ou não da autora ou do autor que quiser. 

Discordo sobre a literatura de Elena ser ruim, tampouco acho seus títulos direcionados exclusivamente aos jovens. Caso o fossem, não haveria demérito nenhum, ou Pedro Bandeira, Ruth Rocha e Ziraldo são autores menores?

A respeito da simplificação na comparação que Louis faz entre Elena e Annie Ernaux, o professor Élvio Cotrim propõe, em sua newsletter, questões para além do Fla-Flu que prevaleceu no debate, ponderando sobre a obra do francês, seus ensaios e falas anteriores. 

Penso ser mais problemático partir de um contexto que Louis desconhece, que é a controvérsia criada com a publicação de uma entrevista da professora e crítica Aurora Fornoni Bernardini. No papo, ela afirma que textos de expoentes da autoficção como Annie, além de romances de Elena e Itamar Vieira Junior, não seriam literatura, devido a uma suposta ênfase no tema em detrimento da forma em seus escritos.

Numa conversa com a professora e pesquisadora Beatriz Resende, autora do recém-lançado “Crítica insubmissa” (editora MapaLab), trabalho no qual ela defende a avaliação literária sob a perspectiva de teorias feministas, ela justifica a posição de Aurora como a de uma profissional com “visão canônica”. “Houve um momento em que essa era a grande literatura”, diz Beatriz. “A Aurora tem um nível de exigência em termos de escrita. Certamente, ela não deve ter gostado da fase engajada de [Jean-Paul] Sartre. O teatro de Sartre é importantíssimo, mas bem ruinzinho. Em especial se pensarmos que ele escreveu no tempo de [Samuel] Beckett.”

Será que Louis sabia desses pormenores quando lhe introduziram o pensamento de Aurora?

O que me parece equivocado é o modo como Louis se refere a leitoras/es e suas menções rasas sobre a complexa discussão de identidade de gênero, raça e classe, temáticas tratadas por Élvio Cotrim na revista Quatro Cinco Um. Em sua análise, o professor propõe que o autor se contradiz e demonstra uma simplificação desnecessária, na contramão de sua própria obra. 

Quando trata das opressões que vivenciou, Louis as situa numa conjuntura social ampla, na qual supostos algozes são vítimas de uma engrenagem cruel, sem que os verdadeiros responsáveis sejam jamais nomeados

Ignorando essa conjuntura, e tendo em conta que Louis possa ter formulado equivocadamente seu pensamento sobre os tópicos mencionados, nada disso faz dele o vilão em que tentam transformá-lo. A prova é a potência das adaptações de “História da violência” (2016) e “Quem matou meu pai” (2018), livros publicados pela editora Todavia, encenadas na MITsp – 11ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

Espetáculo que abriu o evento em 6 de março, “História da violência” se baseia na segunda publicação de Louis, na qual ele descreve o estupro que sofreu aos 20 anos, após levar ao seu apartamento Reda, um rapaz que ele conheceu enquanto caminhava para casa, na noite de Natal. Com direção de Thomas Ostermeier e um elenco de atores alemães, a peça dá forma às muitas agressões sobre as quais o escritor reflete, sob múltiplas perspectivas.

Além do próprio autor, a narrativa ocorre sob o ponto de vista de sua irmã Clara, de policiais e médicos, tecendo um labirinto de versões nas quais Louis se enreda. A sequência de eventos que começam com um flerte entre ele e Reda, evoluindo para um roubo seguido de estupro, é detalhada por Clara ao marido, mas suas palavras são reproduzidas pelo escritor, que, imóvel, atrás de uma porta, ouve o relato da irmã ao cunhado, sem que ela perceba sua presença.

Na voz de Clara (ou seria de Louis?), revelam-se preconceitos de classe, como a soberba do irmão, um universitário morando em Paris, em relação aos parentes interioranos. Em contraponto, ela o julga ingênuo, por não ter percebido as reais intenções de Reda, ao mesmo tempo que se nega a admitir o tratamento homofóbico recebido por Louis da família na infância e adolescência.

Do contato com as autoridades, emergem falas xenófobas, devido à ascendência argelina de Reda, motivando ponderações sobre a estrutura capitalista, que serão esmiuçadas em “Quem matou meu pai”.

Na obra que causou enorme bafafá na França quando foi lançada, Louis acusa os ex-presidentes Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande, além do atual mandatário, Emmanuel Macron, pelas políticas sociais e a falta de assistência que incapacitaram seu pai antes dos 60 anos.

Sob a direção de Thomas Ostermeier, Louis estrela o monólogo em que um certo tipo de masculinidade é apontado como a principal causa do infortúnio de seu progenitor. Numa conversa que tivemos em 2023 para a revista Quatro Cinco Um, ele defendeu a virilidade como central na compreensão da dinâmica de classes que orienta seu trabalho. 

“No mundo da minha infância, para ser ‘homem’ era preciso comer muito, cair de bêbado, não ir ao médico e não se submeter aos professores”, disse Louis. “Por isso, meu pai abandonou a escola: era uma prova de que ele era macho. Meu pai foi obrigado a performar essa masculinidade, pois o mundo ao redor dele não lhe deu outra alternativa. Isso ocorre com frequência aos homens de camadas sociais populares do mundo todo, que possuem menos chances de ter um diploma do que as mulheres. Por outro lado, se você não é viril o bastante, você será destruído e castigado, como eu fui, na infância, por ser gay.”

Em cena, essa dinâmica se expressa na inabilidade do pai em expressar o amor que sente pela mulher e o filho e na brutalidade do cotidiano familiar, marcando também o comportamento da mãe do autor. 

Com todas as particularidades que representa ser um homem branco pobre na França e no Brasil, Louis encarna uma geração periférica que, ao se negar a transformar sua trajetória em um fenômeno isolado, escancara as desigualdades que afetam aqueles considerados “diferentes” em seu próprio território. 

Quando trata das opressões que vivenciou, Louis as situa numa conjuntura social ampla, na qual supostos algozes como seu pai, ou mesmo Reda, são vítimas de uma engrenagem cruel, na qual violências de gênero, raça, classe e etnia se sobrepõem e se perpetuam, sem que os verdadeiros responsáveis sejam jamais nomeados. Pelo menos até agora.