O jornalismo que as eleições de 2026 exigem

Vivemos um momento paradoxal. Nunca tivemos tanto conteúdo circulando, e nunca foi tão necessário garantir o acesso à informação de qualidade para que as pessoas tomem as decisões que definem os rumos da nossa sociedade. Num ano de eleições no Brasil, essa contradição ganha contornos ainda mais urgentes. Diante da disputa por atenção e confiança, o jornalismo de interesse público cumpre um papel essencial: oferecer às pessoas as ferramentas necessárias para distinguir fatos, interesses e estratégias de desinformação.

O trabalho minucioso de jornalistas comprometidos com o interesse público tem, no entanto, impactos que vão muito além da cobertura eleitoral. Esses profissionais são, em grande medida, guardiões da nossa democracia. Um exemplo contundente veio à tona nas últimas semanas: as revelações sobre o envolvimento do senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro. Mais uma vez, foi uma investigação jornalística robusta que expôs possíveis conexões entre uma candidatura presidencial e um esquema bilionário de fraudes, gerando desdobramentos que modificaram o próprio cenário eleitoral.

O jornalista é, e sempre será, aquele que apura, investiga e informa para que as pessoas possam tomar decisões mais livres, construir laços sociais e defender a democracia

Esse cenário ganha complexidade com as mudanças radicais na forma como as pessoas consomem informação e seus efeitos sobre o ecossistema jornalístico. O surgimento dos chatbots de inteligência artificial generativa e as transformações nos mecanismos de busca, agora também alimentados por inteligência artificial, têm consequências graves para um setor que já vivia uma crise de sustentabilidade: o conteúdo jornalístico produzido com método e rigor é matéria-prima essencial para essas ferramentas, mas não há remuneração para o (caro) trabalho realizado. Sem conteúdo jornalístico qualificado disponível na sociedade, a IA amplifica em ritmo acelerado a desinformação que circula nas redes sociais de modo cada vez mais crível.

As novas ameaças dessa crise informacional já começam a aparecer de forma concreta às vésperas do processo eleitoral brasileiro. Foi o que mostrou o estudo “Boca de IA — Como as IAs recomendam voto nas eleições de 2026?”, do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade), apresentado no Festival 3i, realizado de 29 a 31 de maio no Porto Maravalley, no Rio de Janeiro. O levantamento mostrou que seis dos sete principais chatbots de inteligência artificial disponíveis ao público fazem algum tipo de ranqueamento ou priorização de pré-candidatos presidenciais em suas respostas. A prática contraria resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que proíbe ferramentas de IA de recomendar, sugerir ou priorizar candidatos e partidos políticos. O estudo também chamou atenção para outro dado preocupante: apenas 12% das respostas analisadas direcionavam usuários para fontes oficiais, como o TSE ou páginas institucionais de partidos políticos. A maior parte das referências remetia a conteúdos de imprensa, incluindo veículos hiperpartidários, e a pesquisas eleitorais.

Esses debates estiveram no centro do 3i, promovido pela Ajor (Associação de Jornalismo Digital), que hoje representa mais de 150 organizações dedicadas a um jornalismo inovador, independente e inspirador. A cada edição, o festival reúne iniciativas que refletem sobre o papel do jornalismo como bem público, desenvolvem investigações de impacto e produzem informação capaz de fortalecer ecossistemas informacionais íntegros, ampliar o acesso a direitos e qualificar o debate público.

Um dos pontos de partida do evento é que o jornalismo não deve abrir mão da experimentação, muito pelo contrário. O 3i parte da ideia de que tecnologias inovadoras, digitais ou ancestrais podem estar a serviço de um jornalismo mais conectado às suas audiências e territórios e mais consciente de seu papel social. O ponto central é o fortalecimento de um jornalismo que se vê como parte da sociedade a que serve e que se apropria da tecnologia de forma soberana, entendendo a inteligência artificial como ferramenta, mas sem abrir mão da análise própria e da checagem dos fatos. 

Durante o painel “IA e pensamento estratégico em redações jornalísticas”, uma das discussões foi sobre a necessidade de uma governança interna nas redações para fazer com que a inteligência artificial não seja vista com medo, mas esteja inserida num ambiente conduzido por profissionais capazes de liderar a transformação digital que desejamos e de que precisamos. A IA pode ajudar os jornalistas a fazer seu trabalho, mas não irá substituí-los. O jornalista é, e sempre será, aquele que apura, investiga e informa para que as pessoas possam tomar decisões mais livres, construir laços sociais e defender a democracia.  

Vale destacar que a discussão sobre inteligência artificial e eleições também evidencia um ponto central para o futuro do jornalismo: sistemas de IA dependem diretamente da existência de conteúdo jornalístico confiável para operar com qualidade. Reportagens, investigações, bancos de dados públicos organizados por jornalistas e análises contextualizadas alimentam os modelos que hoje estruturam mecanismos de busca e plataformas conversacionais. Quando organizações jornalísticas perdem sustentabilidade econômica, todo o ambiente informacional se fragiliza.

Em tempos em que se produz desinformação de forma organizada e o uso predatório da inteligência artificial e a pressão econômica ameaçam as organizações jornalísticas cotidianamente, defender o jornalismo de interesse público é uma forma de proteger a integridade da informação, fundamental para resguardar a cidadania e a capacidade da sociedade de analisar a realidade e agir sobre ela. É garantir que decisões políticas, econômicas e sociais possam ser tomadas com base em fatos apurados, contextos bem explicados e perguntas feitas com independência. O jornalismo que as eleições de 2026 exigem é o mesmo de que o Brasil precisa todos os dias: plural, sustentável, comprometido com o interesse público e presente nos territórios onde a democracia precisa acontecer de forma concreta.

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Maia Fortes é diretora-executiva da Ajor (Associação de Jornalismo Digital), realizadora do Festival 3i.