Comecei a usar lentes de contato aí pelo final da década de 1970. Estava chegando aos oito graus de miopia e não fiquei descontente com o ganho estético da coisa. Tinha vergonha, claro, de admitir que a mudança tinha sido por vaidade. Um comentário, feito por uma professora bem mais velha, acabou me dando um certo alívio.
“Bom, já estava na hora de inventarem alguma coisa para substituir os óculos”, disse ela. Lembrou aqueles retratos espanhóis antiquíssimos, como o do poeta Francisco de Quevedo: morto em 1645, lá fica ele no museu com um tremendo par de óculos redondos equilibrados no nariz. Escuros, ainda por cima. Aqueles retangulares, mais leves, de vovozinha, existem pelo menos desde Benjamin Franklin (1706-1790), e por cerca de 200 anos pouca coisa de diferente se criou.
Pois bem, fiquei usando lentes de contato até a hora em que me convenceram a fazer uma operação de miopia. Funcionou, mas não funcionou totalmente; fiz o chamado “retoque” (mas, ora essa, foi uma segunda operação, ou estou enganado?), melhorei, e fui me virando, até que, por razões diversas, estou usando óculos de novo.
Moral da história? Há muitas. Primeira: quando a gente começa a achar que uma coisa existe há muito tempo, é porque logo vai aparecer uma boa invenção. Meus candidatos para o futuro próximo são o guarda-chuva e as mangueiras que ainda se usam para apagar incêndio.
O ano novo, acredito, parece cada vez menos um bebê sorridente, e mais um porco-espinho pronto para agulhar todo mundo
Como é possível que, desde o tempo das gueixas, dos mandarins, de dom João 6º e de William Gladstone, a humanidade não tenha produzido nada de mais inteligente do que esse urubu com varetas, que Mário Quintana famosamente considerou “o mais infiel dos animais domésticos”?
E é um vexame assistir, toda vez que um grande incêndio aparece na televisão, ao mesmo xixizinho inútil se lançando de baixo para cima por meia dúzia de bombeiros; pior ainda, nos países mais ricos do mundo, fogaréus quilométricos na floresta têm a combatê-los a miserável prática de mandar um helicóptero com um balde d’água pendurado. Balde e esguicho, como se diz em São Paulo…!
Ainda está para nascer o Elon Musk dos guarda-chuvas, o Von Braun do combate ao fogo. A caminhada humana tem muito pela frente. Mas não é só isso.
Há mais um problema com essas coisas que duram séculos, até a hora em que ninguém aguenta mais, como os óculos. Quando afinal são substituídas, percebemos que o mundo melhorou, mas ao mesmo tempo ficou mais complicado.
Acostumar-se a lentes de contato, sem falar do que custa fabricá-las, já é um processo e tanto. Que pensar, então, de uma operação de miopia? Obviamente, hoje são feitas por robôs.
Ótimo. Mas só posso concluir que as coisas que demoram muito para mudar (livros impressos, por exemplo) tendem a ser muito mais simples do que tudo o que veio depois. O que vem depois é melhor, exceto por um aspecto, o da complicação.
Desse modo, a gente pode muito bem acabar preferindo o que existia antes, como os óculos. De resto, ficaram mais bonitos e mais leves, a tal ponto que muitas pessoas passam a usá-los sem ter nenhum problema de visão.
Mas um caso, entre muitos, me chama a atenção por ser ao mesmo tempo um progresso evidente e uma relíquia que diria quase pré-histórica.
Refiro-me aos tratamentos de beleza. Tudo indica que os cremes hidratantes, os produtos à base de retinol, de ácido hialurônico, de sérum (o que será o sérum? Alguma coisa de abelha?), os produtos, digo, à base de vitamina C, de aspirina, de cobalto ou de plutônio, que sei eu, todos funcionam. Pessoas de 60 anos hoje em dia parecem ter 30, ou menos. As de 70 chegam facilmente aos 20.
Já estava bom. Mas a química dos cremes, das cápsulas e das loções não parece ter sido suficiente. A operação plástica morre de velhice, sem dúvida. Florescem, entretanto, os chamados “procedimentos”. O laser, como sempre, surge como sinônimo de coisa infalível. Acrescentam-se-lhe (para escrever como um ancião definitivo), acrescentam-se-lhe, repito, os preenchimentos; os eletrochoques; as suturas com linha de pesca; os esfolamentos localizados, as injeções nas pálpebras, as agulhadas no osso do queixo.
Ou seja, estamos diante de uma técnica avançadíssima, sem dúvida superior à pura cirurgia plástica, que se revela ao mesmo tempo dolorosamente antiquada, trabalhosa, medieval. Leio que a L’Oréal vai dobrar seus investimentos em tratamentos injetáveis.
Os famosos remédios de emagrecimento poderiam vir em pomadas para aplicar na barriga – mas não: funcionam na base da agulha. Desde que me entendo por gente, a única vacina de gotinha é a Sabin.
Tenho esperanças com relação ao guarda-chuva. Mas o tempo passa, e vejo que este século, mais do que nenhum outro, é o século da injeção. Desejo, desde já, um bom 2026 a todos. Mas o ano novo, acredito, parece cada vez menos um bebê sorridente, e mais um porco-espinho pronto para agulhar todo mundo.