Aos 98 anos, a Estação Primeira de Mangueira segue sendo muito mais do que uma escola de samba: é um símbolo vivo da cultura brasileira. Nascida no Morro da Mangueira em 1928, a agremiação é reconhecida e admirada não só no país, como em todo o mundo.
Sua trajetória ajudou a moldar o próprio conceito de escola de samba e transformou o Carnaval do Rio de Janeiro em um espetáculo global, projetando o samba como patrimônio cultural e linguagem universal. Não é exagero dizer que a Mangueira é a agremiação mais conhecida do Brasil.
Sua força atravessa fronteiras, seja pelas cores verde e rosa, pela música única ou pela capacidade de traduzir o Brasil profundo em seus enredos. Ao longo de décadas, a escola construiu uma narrativa que conecta favela, resistência e arte, tornando-se referência não apenas no Carnaval, mas na formação da identidade brasileira.
Essa grandeza não se explica sem olhar para os nomes que a fundaram e sustentaram sua história. Mulheres aguerridas como Dona Nelma, Mocinha, Tia Fé, Tia Tomásia Dona Zica, Dona Cristolina, e figuras importantes em sua história incluindo Cartola, Carlos Cachaça, Zé Espinguela, Abelardo da Bolinha, Euclides Roberto dos Santos e Marcelino fizeram parte da gênese da escola, construindo um potência cultural a partir de blocos e rodas de samba.
Ao lado deles, nomes como o mestre-sala Delegado ajudaram a consolidar a tradição mangueirense, que sempre foi marcada pela valorização dos compositores, da comunidade e da oralidade do samba.
Ao longo de décadas, a escola construiu uma narrativa que conecta favela, resistência e arte, tornando-se referência não apenas no Carnaval, mas na formação da identidade brasileira.
Mais do que uma reunião de talentos, a Mangueira se tornou um verdadeiro celeiro de bambas, responsável por projetar artistas e influenciar gerações. Sua Ala de Compositores, pioneira, ajudou a organizar e profissionalizar o gênero, reafirmando o protagonismo da cultura popular negra na construção do Brasil.
Nos últimos anos, a escola vive um importante processo de reformulação e reposicionamento. Sob a minha liderança, orgulhosamente a primeira mulher a ser eleita presidenta da escola, temos adotado uma gestão mais austera, estratégica e profundamente conectada à sua comunidade.
Por eu ser cria do morro, também faço questão de valorizar os crias da casa, reforçando a identidade local e resgatando a essência que sempre fez da escola um território de pertencimento. É um movimento que equilibra tradição e inovação, olhando para o futuro sem perder de vista suas raízes.
E é justamente esse olhar que alimenta as expectativas para o centenário, que será celebrado em 28 de abril de 2028. A Mangueira se prepara para chegar aos 100 anos reafirmando sua grandeza, com a ambição de novos títulos e a promessa de inovações que dialoguem com o tempo presente. Mais do que uma data comemorativa, o centenário representa a continuidade de um projeto cultural que atravessa gerações e resiste às adversidades.
Celebrar os 98 anos de Mangueira é, portanto, celebrar o próprio samba, a força da sua comunidade e a capacidade do povo brasileiro de transformar a dor em arte. Em um país que tantas vezes negligencia sua memória, a Mangueira permanece como um lembrete pulsante de que tradição e futuro podem, e devem, caminhar juntos ao som do tamborim.
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Guanayra Firmino é a atual presidenta da Estação Primeira de Mangueira. Cria do Morro da Mangueira, iniciou sua trajetória aos 17 anos como vice-presidente da associação de moradores. Ela atua nos bastidores e na diretoria da Escola durante vários mandatos, e conduz a Verde e Rosa valorizando os talentos da comunidade.