A esquerda deixou de lado quem deveria falar em seu nome

A esquerda avançou na capacidade de nomear desigualdades, mas ainda engatinha em reconfigurar o poder e abrir mão de estruturas que reproduzem as mesmas exclusões que ela afirma combater. A constatação de que as desigualdades mais persistentes têm endereço, gênero, raça e território assumiu lugar central no discurso progressista, mas pouco alterou quem ocupa os espaços de decisão.

Ao longo da última década, a atuação das esquerdas se organizou em grande medida em torno da contenção de retrocessos e da tentativa de evitar perdas maiores. Foi um esforço necessário. Seus limites, contudo, ficaram evidentes.

Quando amplas camadas da população percebem que o sistema não responde às suas necessidades, a legitimidade democrática se corrói por dentro. Em muitos países do Sul Global, avanços autoritários convivem com o desencantamento de populações que, por experiência própria, deixaram de reconhecer a democracia como algo que lhes diz respeito.

Renovar a esquerda é transformá-la a partir do que mulheres negras, indígenas e periféricas já sabem, constroem e praticam

A direita tem sido mais eficaz em formular respostas a esse vazio. A esquerda, por sua vez, ainda busca uma formulação capaz de dialogar com quem se sente fora das promessas das democracias existentes.

A desigualdade fragiliza a democracia, e por isso é preciso tratar a desigualdade como eixo estruturante dessa disputa. Enfrentá-la não pode ser encarado como complemento moral de uma agenda mais ampla, mas sim como o vetor que orienta o desenho de prioridades, a distribuição de recursos e a costura de alianças. O problema é que a esquerda muitas vezes reconhece esse diagnóstico, mas não o leva até suas últimas consequências institucionais.

Parte dessa dificuldade está no repertório. Ao longo do século 20, movimentos progressistas construíram um conjunto extraordinário de respostas: Estado de bem-estar social, direitos trabalhistas, políticas públicas universais. Esse repertório é essencial e transformador, porém responde a um mundo que não existe mais ou mesmo que nunca existiu para a maioria das pessoas que habitam o Sul Global.

Vivemos um tempo de crises sobrepostas: climática, tecnológica, geopolítica, de cuidado. As velhas receitas mostram seus limites, enquanto as novas ainda estão sendo inventadas – muitas vezes por quem nunca foi chamado a ocupar o centro do pensamento político.

Os movimentos que mais inovaram em formas de organização, linguagem política e construção de poder a partir das bases são frequentemente os que menos ocupam os centros de decisão dos fóruns internacionais. Estamos falando de mulheres negras, indígenas e periféricas. Redes de base que constroem, sem grandes recursos, novas formas de fazer política.

A renovação não passa apenas pela diversidade como representação simbólica ou pelo rejuvenescimento das bases, mas também por quem pensa, nomeia e propõe políticas. Mulheres que organizam territórios em contextos de violência, abandono estatal e extremismo crescente são, por exemplo, produtoras de saber político. Produzem, no cotidiano, leituras consistentes sobre democracia, segurança, cuidado e futuro.

Há, no entanto, um abismo entre o que elas elaboram e o que chega aos espaços onde as agendas são definidas. Isso empobrece o próprio pensamento progressista. 

Não se trata apenas de uma injustiça na distribuição de lugares de fala, mas de uma perda estratégica. Quando os fóruns de decisão seguem concentrados nos mesmos perfis, também se estreita o repertório de soluções disponíveis. 

Experiências acumuladas em territórios marcados por violência, insegurança alimentar, racismo ambiental e ausência de Estado poderiam renovar a forma como o campo pensa temas como segurança, economia, clima e a democracia em si. Porém, hoje, quando chegam aos espaços centrais, essas experiências frequentemente aparecem como simples testemunho em vez de formulação política.

É nesse sentido que a presença de mulheres negras, indígenas, periféricas e de organizações de base precisa deixar de ser lida como sinal de abertura e passar a ser entendida como condição para a produção de respostas à altura do tempo. O desafio, mais do que ampliar a escuta, é redistribuir a autoridade. Não basta perguntar a essas mulheres o que elas vivem, mas reconhecer que elas também elaboram diagnósticos, constroem método, sustentam redes e produzem caminhos que o progressismo ainda não incorporou plenamente.

Um exemplo concreto de mecanismo capaz de deslocar vozes para o centro são as políticas de cotas raciais no ensino superior brasileiro. Em uma década, o número de ingressantes por ações afirmativas nas universidades federais cresceu 167%, passando de 40 mil em 2012 para mais de 108 mil em 2022. Mais do que ampliar o acesso, esse movimento transformou o perfil das instituições: estudantes pretos e pardos passaram a representar a maioria nas universidades públicas.

Renovar o campo progressista, portanto, não é simplesmente incluir mais mulheres em estruturas existentes, mas transformar essas estruturas a partir do que essas mulheres já sabem, constroem e praticam.

“Não basta resistir, temos que propor, liderar”, disse Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, no Fórum de Defesa da Democracia que aconteceu em abril, em Barcelona. Isso exige garantir que as vozes de quem já constrói política nas bases cheguem ao centro – não como convidadas, mas como arquitetas do que vem a seguir.

O mínimo que o progressismo precisa é que, da próxima vez, uma frase como a de Sánchez seja dita por uma governante mulher, negra e do Sul Global. Caso contrário, o progressismo seguirá deixando de lado quem deveria falar em seu nome.

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Carol Althaller é diretora executiva do Instituto Update, organização de infraestrutura democrática com atuação na América Latina e no Sul Global.

Dandara Tonantzin é deputada federal eleita por Minas Gerais.