Por que autonomia é fundamental para formar cientistas

Costuma-se dizer que grandes avanços científicos estão associados a trajetórias marcadas por criatividade e autonomia intelectual — frequentemente expressas na escolha de perguntas não triviais e na disposição de sustentar caminhos próprios, mesmo quando contrários ao consenso. Em geral, admiramos essas trajetórias em retrospecto, como características quase “naturais” de indivíduos excepcionais.

No entanto, se reconhecemos que a produção científica depende, em parte, desse componente humano e subjetivo, é importante refletir sobre como os processos de formação de cientistas podem cultivar, de forma deliberada, essa autonomia, em vez de tratá-la como um atributo inato e raro.

Problemas científicos relevantes raramente respeitam fronteiras disciplinares rígidas. A interdisciplinaridade, portanto, precisa ocupar papel central na formação. Mas, para além de explorar todas essas fronteiras, é essencial, antes, conhecer a fundo o seu próprio campo de conhecimento. É por isso que outra dimensão importante diz respeito ao tempo e espaço para a livre exploração intelectual. Nem sempre a formação universitária tradicional pode oferecer condições para que estudantes experimentem diferentes temas, métodos e estilos de pesquisa. 

Promover autonomia é não apenas uma escolha pedagógica, mas uma estratégia para fortalecer a própria ciência, tornando-a mais diversa, criativa e capaz de responder a problemas complexos

Ao ampliar essa exposição — tanto a conteúdos quanto a perfis variados de pesquisadores —, criam-se as bases para que cada estudante conheça o que se faz no seu campo de estudo, quais são as escolas predominantes e quais as questões mais interessantes em aberto. A partir daí, desenvolve critérios próprios sobre o que considera relevante investigar e, assim, pode fazer uma escolha mais consciente e responsável do caminho a seguir.

O Programa de Formação em Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira e a Ilum Escola de Ciência, que pertence ao CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), são duas iniciativas que apostam na autonomia desde o início.

Desde 2021, o Programa de Formação em Ecologia Quantitativa reúne estudantes de mestrado de diferentes regiões do país com formações diversas — incluindo áreas como biologia, física, geografia, matemática, engenharia, computação, veterinária, geociências —, propondo uma dinâmica de trabalho colaborativo em grupos heterogêneos em torno de grandes questões da ecologia. O confronto construtivo de perspectivas tende a revelar lacunas conceituais, estimular abordagens inovadoras e ampliar a complexidade das perguntas investigadas.

A Ilum também vem experimentando modelos formativos baseados na interdisciplinaridade e na liberdade acadêmica. Em sua graduação, os estudantes cursam cinco grandes eixos temáticos — ciências da vida, ciências da matéria, linguagens matemáticas, ciência de dados, humanidades ​​e empreendedorismo — que reúnem e reorganizam tópicos tradicionalmente separados por disciplinas nos cursos de graduação.

Ao longo dos três anos de formação, eles desenvolvem projetos de pesquisa em sistema de rotação, tanto nos laboratórios nacionais do CNPEM — de Luz Síncrotron (LNLS), de Biociências (LNBio), de Nanotecnologia (LNNano) e de Biorrenováveis (LNBR) — quanto na própria escola, que conta com laboratórios avançados de física, química e biologia.

Tanto na Ilum quanto na Formação em Ecologia Quantitativa, a experimentação é um elemento central.

Na Formação, isso se traduz, entre outras formas, em uma etapa intensiva de trabalho de campo. Durante cerca de um mês, os estudantes se dedicam integralmente a projetos in loco em diferentes biomas, frequentemente fora de seus contextos habituais de pesquisa.

No campo, eles lidam com sistemas complexos em tempo real, sob chuva, sol, picadas de mosquitos, falta de luz e de internet. Ali, onde hipóteses precisam ser ajustadas à luz de observações diretas e limitações práticas, os alunos entram em contato com dimensões do fazer científico que raramente aparecem em contextos mais controlados.

Nesse contexto de experimentação, a mobilidade geográfica aparece como uma extensão natural da autonomia intelectual. Programas como a Formação do Serrapilheira e a Ilum recebem estudantes de diferentes regiões e, ao final de seus ciclos, os devolvem a um sistema científico mais amplo — onde deverão tomar decisões sobre seus próximos passos. É fundamental oferecer condições concretas para que esses futuros cientistas escolham onde e com quem trabalhar.

Queremos que uma cientista ambiental da Universidade Federal do Ceará tenha as portas abertas para um doutorado na Universidade de Bergen, na Noruega, assim como que uma ecóloga formada pela Universidade Federal de Alagoas possa optar por permanecer em sua universidade de origem, redefinindo seu percurso acadêmico a partir de novos interesses e redes de contato. Ambos são exemplos reais da Formação em Ecologia Quantitativa.

Viabilizar esse tipo de autonomia exige políticas de formação compatíveis, especialmente no que diz respeito a modelos de financiamento flexíveis. Um exemplo é a concessão de grants flexíveis para estudantes, como faz a Graduate Research Fellowship Program da National Science Foundation, cujo financiamento é concedido ao indivíduo, não ao orientador ou ao projeto. Bolsas que permitam mobilidade entre instituições, áreas e países são instrumentos centrais para sustentar trajetórias científicas mais autorais.

Embora o envio de pesquisadores ao exterior frequentemente seja associado ao risco de “fuga de cérebros”, o que é uma preocupação legítima, também é importante reconhecer que a circulação internacional faz parte da dinâmica contemporânea da ciência. Mais do que reter talentos, o desafio está em manter um sistema capaz de atrair, integrar e reconectar pesquisadores ao longo de suas trajetórias.

Nesse sentido, promover autonomia é não apenas uma escolha pedagógica, mas uma estratégia para fortalecer a própria ciência, tornando-a mais diversa, criativa e capaz de responder a problemas complexos.

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Hugo Aguilaniu é diretor-presidente do Instituto Serrapilheira.

Camila Teicher é diretora do Programa de Formação em Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira.