A eleição presidencial de 2026 não será apenas uma disputa entre candidaturas. Ela será atravessada por uma questão estrutural que o Brasil ainda reluta em enfrentar frontalmente: o controle das infraestruturas digitais que organizam a circulação de informação, moldam a percepção e, em última instância, influenciam as decisões políticas.
Não se trata de um cenário hipotético. Nos Estados Unidos, a clonagem sintética da voz de Joe Biden nas primárias de 2024 evidenciou um novo patamar de manipulação política: não mais a distorção evidente, mas a fabricação plausível de autenticidade. Na Argentina, em 2023, conteúdos gerados artificialmente circularam em meio à polarização eleitoral, ampliando conflitos já existentes. A tecnologia não cria o embate, mas reduz drasticamente o custo de intensificá-lo.
Não há desenvolvimento consistente se o país permanece dependente de infraestruturas informacionais controladas por conglomerados estrangeiros, cuja lógica central não é a estabilidade democrática
O Brasil, em 2022, ainda operava sob uma lógica distinta. A desinformação foi estruturada sobretudo por automação, disparos coordenados e arquitetura algorítmica, mas não por deepfakes sofisticados em escala relevante. Ainda assim, ficou evidente como ecossistemas digitais paralelos podem organizar narrativas com capacidade real de tensionar instituições.
Em 2026, esse cenário tende a se alterar. A manipulação deixa de depender exclusivamente de coordenação humana e passa a ser produzida sob demanda, segmentada por perfil comportamental e distribuída com aparência de autenticidade. Essa transição não é apenas tecnológica, mas política.
O Brasil ensaiou, nos últimos anos, passos importantes na regulação do ambiente digital. O debate do PL 2.630, conhecido como PL das Fake News, trouxe à agenda pública temas como transparência algorítmica e responsabilidade das plataformas. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) estabeleceu mecanismos inéditos de cooperação com empresas de tecnologia em 2022. Ao mesmo tempo, a Nova Indústria Brasil, política industrial lançada pelo governo federal em 2024, incluiu transformação digital e semicondutores como eixos estratégicos.
Esses movimentos indicam um deslocamento relevante: a soberania digital passa a integrar o debate sobre o projeto nacional.
Não há desenvolvimento consistente se o país permanece estruturalmente dependente de infraestruturas informacionais controladas por conglomerados estrangeiros, cuja lógica central é a maximização de engajamento, não a estabilidade democrática. A arquitetura algorítmica dominante tende a favorecer conteúdos de maior intensidade emocional e engajamento, criando um ambiente que reorganiza a dinâmica da disputa política.
Diferentes campos políticos passaram a operar com graus variados de adaptação a essa lógica. Nos últimos anos, alguns grupos, como a extrema direita, demonstraram maior capacidade de explorar essas dinâmicas, enquanto outros, à esquerda, avançaram mais lentamente na reorganização de sua presença digital. Ainda assim, a disputa deixou de ser unilateral. Há sinais de reequilíbrio, ainda que não simétrico.
Experiências internacionais ajudam a dimensionar o problema. A União Europeia, por exemplo, avançou nos últimos anos na construção de um arcabouço regulatório mais robusto, com iniciativas como o Digital Services Act e o Digital Markets Act, que buscam impor maior transparência, responsabilização e limites ao poder das grandes plataformas — tema já amplamente debatido em fóruns regulatórios e acadêmicos internacionais.
Esses movimentos não eliminam os efeitos políticos da arquitetura digital, mas indicam uma direção: tratar o ambiente informacional como dimensão estratégica da soberania. Ao mesmo tempo, evidenciam uma dificuldade persistente: a velocidade de transformação tecnológica frequentemente supera a capacidade regulatória dos Estados.
No Brasil, há sinais de avanço, ainda que fragmentados. O debate do PL 2.630, as iniciativas do TSE em cooperação com plataformas e a incorporação da agenda digital na política industrial indicam uma tentativa de construção institucional nesse campo. No entanto, permanece uma lacuna central: a ausência de uma estratégia integrada que articule regulação, capacidade tecnológica e formação social. Sem essa articulação, o país tende a operar de forma reativa, respondendo a crises específicas sem consolidar um modelo consistente de governança do ambiente digital.
Em 2026, a disputa eleitoral ocorrerá num ambiente já moldado por essas transformações. A questão central deixa de ser apenas como reagir à desinformação e passa a ser se o país será capaz de estruturar, a tempo, um arranjo institucional que reduza sua dependência e amplie sua capacidade de intervenção no espaço digital. Sem isso, a disputa política seguirá condicionada por infraestruturas que escapam ao controle público.
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Edgar dos Anjos é professor de filosofia e atua na articulação política e na formulação de políticas públicas. Seus artigos já foram publicados no Le Monde Diplomatique Brasil, Outras Palavras, Brasil de Fato, O Tempo e no GGN.