Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, em 1914, a Europa dispunha de exércitos imensos, tecnologia bélica sem precedentes, e um vocabulário propagandista que ainda pertencia ao século anterior. Honra, glória, dever e sacrifício eram as palavras com as quais se mandavam milhões de rapazes para as trincheiras, e com as quais se esperava que eles voltassem — caso retornassem para casa.
A Grande Guerra destruiu esse vocabulário, como destruiu quase tudo o mais. O que metralhadoras, gás venenoso e bombardeios industriais fizeram com os corpos humanos, a experiência da primeira guerra total da História fez com as formas de descrevê-la: de repente, a linguagem empregada tornou-se irreconhecível, insuficiente e, em muitos casos, mentirosa.
É nesse vácuo entre o que a guerra de fato era e o que se dizia sobre ela que se situa a poesia de Wilfred Owen, um tenente inglês de vinte e três anos que escreveu de dentro das trincheiras. Sua obra, publicada postumamente e hoje considerada a maior expressão da poesia de guerra contemporânea em língua inglesa, chega pela primeira vez ao leitor brasileiro.
Escutar quem escreveu dentro do horror ainda é um corretivo útil para pensar a violência de outra maneira
A maioria dos poetas de guerra contemporâneos de Owen compunha versos patrióticos e consoladores, destinados a justificar a matança e amenizar o luto dos que ficavam em casa. O tenente inglês fazia o oposto: havia marchado por trincheiras alagadas até a exaustão, dormido ao lado de mortos, sido soterrado por explosões, sobrevivido a ataques de gás e recebido um diagnóstico de “shell shock” (choque de guerra). Não havia nele a capacidade de suavizar nada.
Internado no hospital de Craiglockhart, na Escócia, para tratar de seu Transtorno de Estresse Pós-Traumático, encontrou na escrita primeiro um mecanismo terapêutico, depois uma missão política. Incentivado por seu psiquiatra a participar da vida intelectual do hospital, começou a colocar no papel o que havia testemunhado com uma franqueza que, naquele contexto, beirava a insubordinação. O trauma não aparece apenas como tema da poesia; está na textura dos versos, na confusão entre pesadelos e memória, na desorientação sensorial e na falta de distinção entre o estar vivo e estar morto.
O que Owen queria atacar tinha uma formulação célebre: “Dulce et decorum est pro patria mori” (“É doce e apropriado morrer pela pátria”), ou seja, a ideia, repetida à exaustão em discursos, jornais, igrejas e salas de aula, de que morrer em nome do patriotismo é algo doce e nobre. Owen chamou essa ideia de “a Velha Mentira”.
Enquanto a poesia dominante apresentava soldados morrendo com serenidade, Owen descrevia rapazes sufocando em gás com os olhos revirados, corpos atirados em carroças como carcaças e jovens suicidas que não aguentavam a pressão do heroísmo. Ele escrevia para envergonhar seus leitores e mostrar que a celebração dos mortos servia, entre outras coisas, para esconder o abandono dos sobreviventes — mutilados, traumatizados e descartados quando deixavam de ser úteis.
De uma brutalidade visual rara, a poesia de Owen trabalha com uma obsessão pela precisão. Seu manuscritos mostram versos reescritos várias vezes até encontrar o termo exato para a imagem que queria provocar, muitas vezes independente da métrica. O corpo ferido e desfigurado pela guerra industrial, a desumanização, o trauma e a tecnologia bélicas se tornam o centro de uma poesia que opera quase como arte gráfica, em que o horror comparece como evento extremo e rotina, simultaneamente.
Formalmente, seus versos trabalham com dissonâncias, rimas imperfeitas e quebras de ritmo que geram desconforto sem que o leitor saiba localizá-lo, e sua ironia personifica as próprias armas como entidades que zombam dos homens que destroem. Não é difícil ver por que Owen é citado como precursor direto e influência fundamental do modernismo, ao lado de nomes como T. S. Eliot e Gerard Manley Hopkins: sua recusa da beleza poética convencional e sua exigência de que a literatura encare a realidade sem anestesia são marcas fundadoras do que viria depois.
Ler Owen em 2026 é incômodo, pois as engrenagens que ele acusou em 1917 continuam funcionando. Mudam-se armas, mapas, e inimigos, mas a estrutura se repete: Estados mobilizam jovens, propaganda é empregada para vestir carnificinas como causas nobres e sobreviventes são esquecidos quando deixam de ser narrativamente úteis. A “Velha Mentira” se adapta, encontra novas plataformas e linguagens, mas o mecanismo permanece, e a literatura nascida da experiência direta do conflito continua sendo uma das poucas formas capazes de confrontá-lo sem reproduzir suas justificativas.
Poemas não param guerras — Owen é prova dolorosa disso, morto por uma metralhadora sete dias antes do armistício —, mas a escrita pode ainda recusar o apagamento, insistir que o trauma não seja convertido em cerimônia ou estatística fria, e se apresentar como registro de realidades que discursos oficiais e propagandistas têm todo o interesse em suavizar. A chegada dessa poesia ao português importa por isso: pois a guerra de Owen não acabou, as velhas mentiras de sempre continuam circulando, e escutar quem escreveu dentro do horror ainda é um corretivo útil para pensar a violência de outra maneira.
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Clarissa Desterro é historiadora, escritora e tradutora formada em história pela Unirio (Universidade Federal do Estado do Amazonas). Sua pesquisa de graduação teve como foco a Primeira Guerra Mundial, investigando suas representações culturais e os impactos físicos e psicológicos do conflito, com ênfase em trauma, masculinidades e literatura de guerra. Leitora de Wilfred Owen desde a adolescência, traduziu, escreveu e organizou a antologia “A velha mentira: Poemas da Grande Guerra por Wilfred Owen” (Caravana), que reúne trinta poemas do autor, além de ensaios analíticos, biografia e contextualização histórica.