Juiz de Fora, Caxias do Sul, Porto Alegre, Petrópolis, Barra do Sahy, Salvador e Belo Horizonte têm ao menos duas coisas em comum: além de terem sido vítimas de eventos climáticos extremos, com mortes irreparáveis e enormes prejuízos econômicos, são cidades que fazem parte da Mata Atlântica.
Se a Amazônia é central para as mudanças climáticas pela emissão de gases de efeito estufa decorrentes do desmatamento, é na Mata Atlântica que as suas consequências se manifestam de maneira mais intensa e dramática. Segundo o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), 80% dos alertas e ocorrências de desastres naturais ocorrem no bioma. Não é por acaso.
Distribuída pelo litoral e pelo interior de 17 estados brasileiros, a Mata Atlântica ocupa 15% do território nacional e carrega, por natureza, uma combinação de elementos que a tornam vulnerável: chuvas intensas em determinadas épocas do ano, relevos acidentados e encostas com alta declividade. Esse risco é inerente à sua geografia, mas o que explica a escalada das tragédias é a soma das transformações impostas ao território com as mudanças no clima.
Parte da Mata Atlântica está numa região onde os cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) preveem um aumento das precipitações e das chuvas extremas. São tempestades mais intensas, frequentes, fora do padrão e, por vezes, imprevisíveis – que já estão acontecendo.
Não é por acaso que 80% dos desastres e alertas naturais acontecem na Mata Atlântica
As transformações no território foram reveladas pelo MapBiomas, em estudo que resume o uso da terra e suas mudanças entre 1985 e 2024. A Mata Atlântica é o bioma mais devastado da nossa história e o que preserva a menor proporção de vegetação nativa. Restam somente 24% de florestas, que protegem o solo e minimizam impactos de chuvas extremas, aumentando a resiliência aos eventos extremos. Mesmo assim, o bioma perdeu 2,4 milhões de hectares de florestas nos últimos 40 anos.
É também a região que concentra 51% da área urbanizada do país e onde vive 70% da população. Entre 1985 e 2024, as cidades cresceram 1,3 milhão de hectares (133%) – um ritmo médio de pouco mais de 30 mil hectares ao ano. É como se, a cada ano, surgisse uma cidade do tamanho de Curitiba. Áreas urbanizadas em favelas, por sua vez, saltaram de 30 mil para 70 mil hectares no período (144% de expansão). Num ritmo ainda maior, aumentou a urbanização em encostas com declividades acima de 30%, onde a ocupação não é recomendada: de 13 mil para 40 mil hectares (209%).
Em resumo, o risco climático aumentou e as condições de nossas cidades não contribuem para reduzi-lo – ao contrário, tendem a ampliá-lo. As áreas de risco de deslizamentos de terra e enchentes são majoritariamente ocupadas por populações pobres e negras. A tragédia tem endereço, raça e classe social.
Esses dados, no entanto, não devem nos levar ao desespero. Pelo contrário: apontam caminhos. Os eventos extremos são uma realidade que não poderemos mudar tão cedo, mas hoje sabemos onde estão as áreas expostas ao risco, quem nelas vive e que medidas podem evitar novas tragédias.
Nunca tivemos tantos dados para prever e prevenir. Na realidade da mudança climática, isso tem nome: adaptação. Devemos nos adaptar ao mundo com o clima em mudança e com os extremos virando parte da rotina. Se a Amazônia é a prioridade para a mitigação, a Mata Atlântica é a prioridade para a adaptação.
Vale ressaltar que os eventos climáticos extremos também afetam a produção agropecuária e a oferta (e o preço) de alimentos. Os dados do censo agropecuário do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que metade da produção brasileira ocorre na Mata Atlântica. Precisamos, portanto, de adaptação tanto na cidade quanto no campo.
Qual a saída? A ciência nos mostra que há caminhos – que dependem de decisões nos governos federal, estaduais e municipais, além do setor privado. No plano internacional, o Acordo de Paris já prevê mecanismos de adaptação, compensação por perdas e danos e financiamento de soluções climáticas, especialmente as baseadas na natureza. No Brasil, também não faltam instrumentos que precisam ser articulados entre o rural e o urbano, da Lei da Mata Atlântica ao Código Florestal, passando por políticas de gestão de riscos, planejamento urbano e restauração florestal.
Mas a adaptação também depende de ações concretas no território e da participação da sociedade civil. Iniciativas como a restauração de matas ciliares e a implantação de miniflorestas de Mata Atlântica em escolas, por exemplo, ajudam a reequilibrar a relação entre natureza e cidade.
Num bioma altamente urbanizado, essas soluções têm espaço privilegiado para serem testadas, aprimoradas e difundidas. Se não podemos lutar contra o clima, podemos e devemos nos adaptar às suas mudanças, garantindo segurança, prevenindo e evitando tragédias. Acabar com o desmatamento e restaurar a Mata Atlântica no campo e nas cidades é um primeiro passo.
Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você
Luís Fernando Guedes Pinto é diretor-executivo da Fundação SOS Mata Atlântica.
Mayumi Cursino de Moura Hirye é pesquisadora do LabQuapá/FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo) e do Institute of the Environment and Sustainability/UCLA (Universidade da Califórnia).