Durante a maior parte do século 20, o Brasil foi oficialmente representado como uma nação profundamente mestiça e, por isso, livre de racismo. Num mundo atravessado por guerras e conflitos raciais – do nazismo na Alemanha às leis de segregação estadunidenses passando pelo regime de Apartheid na África do Sul – o mito da democracia racial colocou o Brasil como exemplo mundial de organização social harmônica, a despeito das nossas abissais desigualdades econômicas e violências cotidianas.
Mais do que um discurso restrito aos livros e artigos acadêmicos, o mito da democracia racial se disseminou fortemente por nossa cultura popular. Do futebol ao samba, todos os tradicionais símbolos da brasilidade celebravam também o encontro feliz de brancos, negros e indígenas. Esse mito foi central para a organização e pujança da nossa indústria cultural, do rádio ao cinema, passando pela música e pela televisão. As pretensões de seus donos e diretores sempre foram megalômanas: cativar com produtos culturais todo o território nacional a despeito das suas particularidades regionais, desigualdades sociais e hierarquias raciais de diversos tipos. Para tal, o rádio, mas sobretudo o cinema e a televisão, incorporaram o imaginário da mestiçagem em sua dramaturgia como base de uma concepção unificadora do país.
A brasilidade do elenco não aparece numa ode indistinta à mestiçagem, mas no cuidado com tipos sociais que são representativos e heterodoxos ao mesmo tempo
Das produções mais alinhadas aos regimes autoritários da nossa história às mais críticas e de esquerda, praticamente todo audiovisual brasileiro aderiu à mitologia do Brasil mestiço e sem grandes conflitos raciais. A dramaturgia brasileira do século 20 foi de fato muito diversa, mas seus elencos quase sempre reproduziam uma determinada imagem de Brasil harmônico e sem hierarquias. Em diferentes pesquisas, busquei demonstrar como os elencos de filmes, novelas e peças publicitárias brasileiras concentravam os atores e modelos negros nas narrativas de época, sobretudo aquelas sobre o período escravocrata do Brasil-Colônia e Império. Nesse imaginário, o negro teria uma presença marcante no período de “formação” do povo brasileiro. À medida que avançamos no tempo, atores e atrizes brancos passam a dominar os elencos justamente porque “somos todos mestiços”. Na prática, isso implicava que o imaginário da mestiçagem funcionou como forma de escamoteamento da própria diversidade racial que ele pretendia exaltar.
O fim do século 20 acompanha a crise do mito nacionalista da democracia racial e a denúncia do racismo brasileiro, o que vem abrindo espaço para uma diversificação das imagens do país. Ainda que modesta, há uma diversificação racial dos elencos, medida através de diversas pesquisas sobre cinema, novelas etc. Mas essa diversificação tem de enfrentar não apenas barreiras materiais dentro da indústria cultural, como também desafios narrativos. Não basta apenas colocar fenótipos distintos onde antes só havia brancos: o principal desafio é como representar esse novo Brasil que reconhece sua diversidade, mas também suas hierarquias e injustiças internas.
Nesse universo, a decisão sobre os atores e atrizes que representam esse novo Brasil é tão central quanto difícil. É nesse contexto que o trabalho do diretor de elenco (e também roteirista) Gabriel Domingues se destaca. Indicado ao Oscar pela sua atuação em ‘O agente secreto’, ele não apenas ajudou a selecionar e preparar um elenco primoroso de mais de 65 atores profissionais e semi-profissionais, como também ensinou ao público nacional e internacional o que é “casting”. Esse trabalho não é propriamente novo, ele dialoga com a atuação de Domingues em outras produções como “Aquarius’ (2015, direção de Kleber Mendonça), “Baby” (2025, direção de Marcelo Caetano) e “Corpo elétrico” (2017, direção de Marcelo Carneiro). Em todos esses casos, os personagens ganham corpos que são ao mesmo tempo representativos de tipos característicos do Brasil, mas sem que isso reproduza uma visão cliché e estereotipada da nossa nacionalidade.
Em “O agente secreto”, especificamente, a brasilidade do elenco não aparece numa ode indistinta à mestiçagem, mas no cuidado com tipos sociais que são representativos e heterodoxos ao mesmo tempo. O ator cearense Robério Diógenes, por exemplo, vive o asqueroso e sedutor delegado Euclides Cavalcanti, responsável por acobertar os crimes que a ditadura não queria ver. Ele é escudado por seus dois filhos: Sérgio (Igor de Araújo), seu filho loiro, e Antonio (Licínio Januário), seu filho negro. Em nenhum momento a narrativa tem de explicar a origem cearense do delegado em Recife, muito menos a multirracialidade dos seus dois filhos. Essa complexidade é elegantemente acrescida à já múltipla paisagem racial do filme, representando as inúmeras configurações raciais possíveis no Brasil sem que isso tenha de ser objeto de elogio ou crítica.
Algo similar acontece com Fátima, interpretada por Alice Carvalho. Professora universitária e esposa do protagonista Armando (Wagner Moura), ela se vê repentinamente transformada em vítima do racismo do engenheiro Luciano Chirolli (interpretado por Henrique Ghirotti), que a trata como secretária do próprio marido. Sua breve aparição no filme é potencializada pelas referências constantes ao seu nome, especialmente por parte de seu pai Alexandre, interpretado pelo ator mineiro Carlos Francisco. Novamente, temos atores de fenótipos e sotaques distintos interagindo em cenas que compõem um retrato do Brasil diverso que não se deixa capturar por qualquer narrativa linear.
O trabalho de Gabriel Domingues não é o de buscar atores sínteses de uma concepção qualquer de Brasil, mas sim de potencializar a profusão de personagens brasileiros que nos seduzem porque são típicos e heterodoxos ao mesmo tempo. É justamente aí que reside a força singular de “O agente secreto”: ao recusar tanto a fantasia conciliatória da mestiçagem quanto as soluções fáceis de um elenco diverso meramente ilustrativo, a direção de elenco segue um novo regime de representação, em que o casting deixa de ser um detalhe técnico para se afirmar como gesto autoral. Em vez de buscar sínteses apaziguadoras, seu olhar organiza a heterogeneidade como linguagem, convertendo a pluralidade de corpos, vozes e trajetórias em motor narrativo e não em ornamento estético. O resultado é um Brasil que finalmente se reconhece não a partir de alguma síntese totalizante, mas como trama densa e contraditória. É precisamente nessa recusa da simplificação que o filme encontra sua potência mais contemporânea e, ao mesmo tempo, mais radicalmente brasileira.
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