O que faríamos se uma nave espacial aterrissasse em nosso planeta e, seguindo o velho script hollywoodiano, um extraterrestre se dirigisse a nós com o imperativo já conhecido: “Leve-me ao seu líder”?
Você o levaria a um líder político como António Guterres, Donald Trump ou Xi Jinping? Ou seria mais simples conduzi-lo a um líder religioso como o Papa Leão 14 ou o Dalai Lama? A provocação está lançada: em quem, de fato, depositamos o crédito de falar em nome de “nós”?
Estar presencialmente em Davos, no Fórum Econômico Mundial, é constatar algo desconfortável. Estamos longe de um caminho claro para a evolução do planeta. E não é nada difícil perceber que somos uma Torre de Babel não apenas de línguas, mas de opiniões conflitantes, divergentes e, muitas vezes, raivosas. O consenso virou um animal em extinção.
Quando concordar se torna impossível nos temas realmente complexos, uma evidência emerge diante de todos. Esqueça o modelo político-econômico que nos moldou por décadas. Entramos na era da desglobalização. O tabuleiro que parecia estável foi mexido, e as peças não voltam para o lugar com a mesma facilidade.
A plenária mais festejada foi a do primeiro-ministro canadense Mark Carney, ao provocar mais de 1.000 espectadores a reimaginarem um mundo desglobalizado. A ânsia de Trump pelo “Make America Great Again” acaba funcionando como um convite para que cada país também tente ser “great” sozinho. Na prática, é como dizer ao resto do mundo: esqueçam os Estados Unidos como parceiro comercial central e histórico; procurem suas próprias saídas.
Talvez o fim da humanidade como a conhecemos não seja um apocalipse com explosões e meteoros
É como se todos nós fôssemos demitidos ao mesmo tempo, expulsos de casa e tivéssemos os cartões de crédito cancelados numa única tacada. A percepção é geral. Trump não quer ser o líder do mundo. Ele não quer ser o interlocutor do extraterrestre. Está preocupado consigo mesmo e em brigar com a China. Abre-se um flanco de oportunidades, mas também um cenário de insegurança. Agora é cada um por si. Um “Round 6” fantasiado de jogo de War.
E claro, no meio da corrida por sobrevivência, parcerias continuam surgindo. Mas quase todas são tratadas com ceticismo. Será que vingam ou são espuma? O mundo que conhecíamos foi reiniciado. E, mais do que gastar energia culpando Trump e sua “Doutrina Donroe”, a prioridade se torna outra: mexer-se rápido. Em vez de tentar prever o que vai acontecer, o mundo está nos empurrando para reagir instantaneamente a cada surpresa. Vivemos um novo darwinismo. Quem reage mais rápido ao meio sobrevive.
Esse é um desafio particular para nós, brasileiros. Fomos treinados culturalmente e corporativamente a planejar, interpretar sinais, buscar pistas, reduzir incerteza. Certa vez, ouvi de um amigo uma frase que me marcou: “o brasileiro é o povo que menos gosta de surpresas”. Ele completou com ironia: “não existem videntes na Suíça”. Não sei de onde ele tirou esse dado, mas a metáfora faz sentido. Nós tentamos controlar o imprevisível. Só que o imprevisível virou regra.
A humanidade que conhecemos não existirá mais do mesmo jeito. Voltaremos a competir entre nós com mais agressividade. A ideia de uma grande aldeia global, pelo menos por enquanto, fica suspensa.
Mas há um componente que passa despercebido em meio ao barulho geopolítico. O ambiente tecnológico está amplificando o ineditismo do que vivemos. Pela primeira vez na história, não somos os únicos agentes moldando resultados dentro das organizações. Em diversos setores, sistemas de IA já não estão apenas ajudando as pessoas a escrever ou revisar um texto. Eles estão começando a dividir a carga de trabalho, planejar, agir e decidir ao nosso lado.
E a coisa ficou ainda mais estranha. Já existe IA conversando com IA, compartilhando percepções em redes próprias, em dinâmicas a que nós, humanos, apenas assistimos. É como se a tecnologia não estivesse apenas dentro do nosso mundo, mas começasse a construir um mundo paralelo, com linguagem, lógica e velocidade que não dependem mais do nosso ritmo.
Isso muda o papel da liderança. Liderar passa a ser orquestrar um elenco misto de humanos e agentes autônomos, equilibrando originalidade, ética e julgamento com velocidade, escala e precisão. A capacidade de agir, agency, vira moeda. E a pergunta incômoda aparece sem pedir licença: quem decide? O humano ou a máquina?
Algumas organizações já começaram a admitir isso até no vocabulário. Em certos países da Europa, a diretoria de recursos humanos continua sendo RH (HR, em inglês), mas ganhou uma leitura provocativa: Human and Robots. A mensagem é simples e brutal. A gestão de gente, daqui para frente, também é gestão de não gente. É desenhar trabalho para humanos e para agentes e garantir que o sistema todo não enlouqueça.
E aqui entra o paradoxo mais perigoso. Tudo isso acontece enquanto os seres humanos parecem incapazes de se entender. Nós desacoplamos. Ficamos mais agressivos, mais desconfiados, mais tribais. Brigamos por narrativas, por fronteiras, por ideologias, por migalhas de poder. Ao mesmo tempo, criamos sistemas que operam com disciplina, consistência e velocidade, e ainda chamamos isso de progresso.
Talvez o fim da humanidade como a conhecemos não seja um apocalipse com explosões e meteoros. Pode ser algo mais silencioso. Uma erosão gradual da capacidade humana de coordenar ação coletiva, sustentar confiança, fazer pactos. Se a confiança era o cimento da aldeia global, estamos assistindo ao cimento virar areia.
E então volto ao extraterrestre. Se ele pousar aqui amanhã e pedir para falar com nosso representante, a resposta mais honesta pode ser a mais constrangedora. Não temos um. Temos vários. Brigando. Desconfiando. Cancelando uns aos outros.
Quem sabe, por pragmatismo, apresentemos nossas IAs. Talvez elas sejam, por enquanto, o melhor retrato do que ainda funciona: lógica, consistência, coordenação. Ironicamente, talvez isso possa reduzir o risco de se chegar a uma solução pacífica com nosso invasor (ou visitante). Não por causa do extraterrestre, mas por causa de nós mesmos.
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Alberto Roitman é sócio da Escola do Caos.