O Brasil está no centro de uma disputa global decisiva: o controle das terras raras, grupo de minerais críticos do qual o Brasil tem a segunda maior reserva global.
Acordos bilionários com os Estados Unidos, negociações envolvendo projetos na Bahia, conversas sobre a criação de uma estatal para o controle do recurso e as reações do setor privado nas últimas semanas indicam que esses minerais passaram a ocupar um lugar relevante na política econômica e externa do país.
Esses movimentos refletem uma reconfiguração global das cadeias produtivas em torno da transição energética, reflexo da crise agravada pela guerra no Irã.
Para entender a importância do debate sobre terras raras no Brasil, é preciso destacar três considerações.
Num cenário de competição entre grandes potências, o controle de recursos estratégicos passa a influenciar as decisões de política externa e segurança
Em primeiro lugar, as terras raras são o elo para a transição verde. Essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos, baterias e equipamentos eletrônicos, elas conectam os recursos naturais à capacidade industrial de produzir soluções de baixo carbono. Sem acesso estável a eles, a expansão das energias renováveis e da mobilidade elétrica torna-se mais cara e vulnerável a choques externos.
O maior valor econômico das terras raras está nas etapas industriais subsequentes à extração, nas quais se concentram a tecnologia, a indústria verde, os empregos qualificados, a capacidade de inovação e a prosperidade compartilhada.
Mas há um risco para o Brasil de que a exploração desses recursos seja vista apenas como oportunidade de exportação, não como base para uma estratégia de neoindustrialização verde. Os acordos assinados e as negociações recentes mostram que o país firmou o compromisso de fornecer terras raras a atores externos, num arranjo que implica uma inserção internacional baseada apenas na exportação de matéria-prima.
A história econômica brasileira mostra que a abundância de recursos naturais frequentemente não se traduz em desenvolvimento de longo prazo quando não há políticas que incentivem a agregação de valor.
Além disso, a exploração desenfreada desses recursos pode acarretar consequências socioambientais negativas aos territórios e às populações locais. O Brasil, nesse sentido, corre o risco de, além de reforçar uma posição dependente no sistema internacional, assumir apenas os custos socioambientais decorrentes da exploração.
Considerando isso, vale destacar, em segundo lugar, que o debate em curso no Brasil mostra que o destino das terras raras está em disputa, com vários movimentos em paralelo.
A discussão sobre a criação da estatal Terrabras no Congresso, por exemplo, revela uma tentativa de estruturar uma estratégia nacional para esses recursos no país. As reações negativas do setor privado indicam que o tema ainda suscita debate e está longe de ter consensos estruturados.
Ao mesmo tempo, iniciativas estaduais, como as negociações com empresas estrangeiras na Bahia e em Goiás, mostram que há interesse em avançar na exploração desses minerais de forma independente.
Nesse contexto, um dos desafios enfrentados pelo Brasil é garantir que esses projetos estejam integrados a uma política industrial mais ampla, em vez de operar de forma isolada, como tem acontecido.
A aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado em dezembro de 2025 incluiu uma emenda propondo que pelo menos 80% das terras raras sejam processadas e industrializadas no Brasil. A proposta seguiu para decisão final na Comissão de Infraestrutura e, posteriormente, deve ser regulamentada pelo Ministério de Minas e Energia.
Também está em curso uma discussão sobre a criação de um conselho especial sobre minerais críticos, vinculado à Presidência da República, com foco em cobre, lítio, níquel, manganês e grafita.
Mas já há espaços institucionais onde as conversas sobre o tema poderiam ocorrer, como o Fonte (Fórum Nacional de Transição Energética), criado pelo governo federal justamente para promover esse tipo de discussão.
Além dele, o Conselho Nacional de Política Energética e as audiências públicas realizadas pela Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados podem promover debates com a participação de diversos atores.
As arenas de diálogo, portanto, já existem. É necessário não só garantir ampla participação de atores sociais, mas realizar consultas às comunidades potencialmente afetadas pelos projetos de exploração de terras raras e adotar salvaguardas socioambientais que minimizem os riscos e impactos dessas iniciativas.
Em terceiro lugar, é preciso considerar que a dimensão geopolítica das terras raras se evidenciou em episódios recentes da política brasileira. Declarações do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) sobre a possibilidade de uso desses recursos como instrumento de negociação internacional geraram reações, questionamentos e posicionamentos de atores políticos importantes, mostrando que essa discussão poderá ter peso decisivo nas eleições de 2026.
O debate atual evidencia que as terras raras não são apenas ativos econômicos, mas elementos de soberania nacional. Num cenário de competição entre grandes potências, o controle de recursos estratégicos passa a influenciar as decisões de política externa e segurança.
Não à toa, os Estados Unidos têm buscado reduzir sua dependência de fornecedores externos por meio de acordos e investimentos. A indústria de defesa é uma das maiores consumidoras desses recursos.
A movimentação externa reforça a necessidade do Brasil definir claramente seus interesses. Soberania, neste caso, não implica rejeitar parcerias internacionais, mas estabelecer condições que assegurem benefícios domésticos de longo prazo. Isso inclui cláusulas de transferência de tecnologia, o desenvolvimento de capacidades locais, a geração de empregos verdes e a participação nacional nas etapas mais estratégicas da cadeia produtiva.
É fundamental que os próximos governos, a serem definidos nas eleições de outubro, estejam atentos a essas questões, ou o Brasil corre o risco de reforçar padrões históricos de dependência.
Explorar terras raras deve ser visto como uma oportunidade de desenvolver uma base para uma nova política industrial voltada à economia verde, posicionando o Brasil como protagonista na transição energética global.
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Renata Albuquerque Ribeiro é pesquisadora associada ao Labmundo, do Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e pós-doutoranda do Grupo de Indústria e Competitividade, do IE-UFRJ (Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro).