Nas últimas décadas, as ações afirmativas abriram as portas das universidades para alunos de origens sociais e trajetórias de vida diversas. Tivemos a satisfação de fazer parte dessa história: uma de nós como pesquisadora; as outras aprofundando essas políticas na gestão universitária e celebrando cada avanço conquistado.
No entanto, com o tempo, observamos um paradoxo: enquanto a diversidade demográfica avançava, a diversidade de pontos de vista parecia recuar. Hoje, metade dos alunos universitários tem medo de expressar suas opiniões em sala de aula. Como chegamos a esse ponto?
É um equívoco limitar a ideia de inclusão às características demográficas dos sujeitos, como raça, gênero e classe social, ou presumir homogeneidade ideológica dentro desses grupos. Afinal, a origem de um aluno não determina seu pensamento: nem todo aluno das classes populares é de esquerda, nem todo aluno negro é alinhado ao movimento negro, nem toda aluna mulher é feminista. O verdadeiro respeito é aceitar que todos tenham o direito de pensar por si mesmos.
Professores que estão no cotidiano da sala de aula, atentos às dinâmicas de poder, têm percebido um padrão inquietante: indivíduos munidos de um capital social e cultural específico passaram a impor suas visões sobre os outros — muitas vezes, inclusive, sobre estudantes pobres, pretos, pardos e/ou mulheres.
Somente unindo a diversidade demográfica ao pluralismo de ideias poderemos ajudar a universidade a cumprir a sua missão mais importante: ser o palco do debate livre
Isso coloca a ética e a responsabilidade do professor à prova. Afinal, seu papel não é chancelar uma ortodoxia: se um estudante manifesta um ponto de vista que diverge da maioria, seu dever é garantir que essa voz seja ouvida e respeitada, não esmagada.
Casos recentes ilustram esse problema. Pesquisadores da UFF (Universidade Federal Fluminense), USP (Universidade de São Paulo) e UFPR (Universidade Federal do Paraná) já inventariaram mais de 100, a partir de pesquisa em jornais. Apenas para mencionar alguns, uma aluna de história da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), Julia de Castro, foi exposta nas redes sociais e sofreu ameaças de colegas por ser conservadora e de direita. Recentemente, a estudante obteve vitória na Justiça contra os envolvidos, que agora devem fazer retratações públicas. Ela alega não ter recebido apoio da universidade.
Houve também o caso de Tatyana Mercês, estudante da UFBA (Universidade Federal da Bahia) expulsa do Centro Acadêmico de Belas Artes em 2024. Formada em letras, ela redigiu um informativo seguindo as regras gramaticais do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Integrantes do centro acadêmico exigiram que ela utilizasse termos como “todes” e “elu”, e, diante de sua recusa, passaram a persegui-la e a acusá-la de transfobia, o que culminou no seu banimento da entidade. Casos semelhantes acompanhados pelas professoras signatárias indicam que expulsões desse tipo têm reverberações na vida acadêmica dos estudantes — exclusão de grupos de trabalho, perda de círculos de amizade e isolamento social.
Outro caso grave é o de Beatriz Bueno, que cursava mestrado na UFF quando passou a ser alvo de reclamações de colegas insatisfeitos com suas postagens nas redes sociais sobre assuntos como raça e gênero. O processo de “linchamento social” dentro da instituição culminou na sua expulsão do curso em 2025. A UFF afirma que o desligamento foi regular, mas Beatriz contesta essa versão na Justiça.
Embora esses casos de policiamento ou vetos à divergência tenham sido promovidos pela esquerda universitária, a hostilidade ao livre pensamento não é sua prerrogativa.
Em 2018, por exemplo, a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) acionou o Ministério Público Federal e a Polícia Federal para investigar a circulação de panfletos anônimos que citavam nominalmente professores e estudantes que deveriam ser “banidos” da universidade. Sob o pretexto de defesa da “moral e dos bons costumes cristãos”, o material ameaçava e classificava os citados como “escória”, “comunistas” e “doutrinadores”. O episódio revela uma tentativa de instituir um policiamento político-ideológico da rotina acadêmica, desta vez por meio de difamação e ameaças realizadas por atores de direita.
Os desafios não se limitam aos estudantes. Eventos acadêmicos também podem se tornar território de cerceamento de fala e posições divergentes.
Na ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 548, o Ministério Público Federal organizou vários casos de ataques orquestrados pela direita contra ações e atividades nas universidades públicas. Tal como no caso da UFPE, o ano era 2018 quando se tentou impedir a realização de eventos como a aula pública “Esmagar o fascismo”, na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), e a Assembleia Geral Extraordinária contra o Fascismo, a Ditadura e o Fim da Educação Pública, na UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul). Por outro lado, em 2025, atores de esquerda impediram a ocorrência na USP do 1º Seminário Internacional de Acolhimento a Mulheres em Situação de Vulnerabilidade pelo Uso de Substâncias Psicoativas, por supostamente legitimar comunidades terapêuticas que violariam direitos humanos.
As universidades devem garantir que esses eventos possam ocorrer. Quanto aos alunos, nosso dever ético é proteger todo e qualquer estudante. Independentemente das suas características, eles têm direito de discordar e de não ser constrangidos por suas ideias, observados os limites constitucionais. Nós, professores, precisamos ser guardiões dessa liberdade. E as universidades precisam nos apoiar.
A diversidade demográfica promovida pelas políticas de ação afirmativa é valiosa não só porque promove redistribuição e reconhecimento, mas porque traz experiências de vida distintas à universidade. No entanto, esse potencial é diminuído quando há constrangimento contra pensamentos minoritários.
Sem o pluralismo, a universidade se torna um lugar onde todos parecem diversos na superfície, mas são homogeneizados e constrangidos a pensar da mesma forma por medo de sanções acadêmicas e ostracismo social.
Por isso, o pluralismo e a neutralidade institucional — propostos recentemente pelo Manifesto Pluralismo Acadêmico — não só não anulam, como complementam as políticas de inclusão. Neutralidade institucional para lidar com casos de conflito simplesmente não tem relação com as cotas ou políticas de permanência, tampouco advoga contra ou impede que os professores tenham posições em relação a temas polêmicos.
As signatárias deste texto, por exemplo, somos favoráveis às ações afirmativas e manifestamos essa posição em sala de aula. Neutralidade institucional significa preservar a abertura ao dissenso. Afinal, quando uma universidade ou seus departamentos assumem posições políticas oficiais, eles deixam desprotegidos aqueles que pensam diferente.
Confundir inclusão com conformidade não é acolher, é excluir. A ciência e o pensamento dependem da tensão produtiva entre os diferentes pontos de vista. Somente unindo a diversidade demográfica ao pluralismo de ideias poderemos ajudar a universidade a cumprir sua missão mais importante: ser o palco do debate livre e do desenvolvimento dos nossos estudantes.
Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você
Verônica Toste Daflon é professora de sociologia do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da UFF (Universidade Federal Fluminense).
Ester Gammardella Rizzi é professora do curso de gestão de políticas públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (Universidade de São Paulo).
Daniela Virgínia Vaz é professora do curso de fisioterapia da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).