Devo a maior parte das minhas conquistas profissionais e pessoais à universidade pública. Fui o primeiro da minha família a poder frequentar seus espaços, e, depois que entrei na graduação, nunca mais saí dela. Mas, para além do lado profissional, devo à universidade pública quem eu sou em inúmeras outras dimensões. Foi nela que “aprendi a ler” o mundo: não somente a identificar o significado de palavras e frases, mas a interpretar textos, discutir criticamente ideias diversas, debater em público etc.
Não gratuitamente, reações à suposta falta de pluralidade interna à universidade pública surgem justamente depois do sucesso das políticas de cotas socioeconômicas e raciais, que diversificaram de um modo sem par seu alunado
Acredito piamente que esse aprendizado se deve muito aos meus professores e professoras mais rigorosos e exigentes. Talvez por isso, tenha me tornado um deles. Sou o tipo de docente chato, que passa fichamentos semanais dos textos, faz provas orais, aplica chamada e penaliza estudantes atrasados. Mas também acho que as disciplinas devem ser plurais, por isso, frequentam minhas ementas autores distintos, do neoliberal Friedrich Hayek ao marxista Antonio Gramsci, do pensamento racista de nomes como Sílvio Romero e Nina-Rodrigues às ideias de Abdias Nascimento e Lélia Gonzalez.
Por conta disso, já fui criticado ou mesmo atacado por estudantes insatisfeitos, não apenas pelos duros métodos de avaliação, mas eventualmente por conta da inclusão de referências, pelas minhas opiniões polêmicas ou mesmo pela interpretação de textos ou fatos históricos. Acho que sempre lidei com essas reações dentro dos limites do respeito democrático e das prerrogativas que a lei me proporciona dentro da sala de aula. De todo modo, nenhuma dessas insatisfações prosperou ou chegou a se transformar em censura.
Para completar essa complexidade, ainda sou professor de uma universidade pública, um dos espaços mais disputados e transformados do Brasil. Ainda hoje, a universidade é a porta de entrada para o topo da pirâmide social: não existe elite jurídica sem as graduações em direito, do mesmo jeito que não existe elite médica sem o diploma em medicina. Não gratuitamente, reações à suposta falta de pluralidade interna à universidade pública surgem justamente depois do sucesso das políticas de cotas socioeconômicas e raciais, que diversificaram de um modo sem par seu alunado. Antes das cotas, os impostos da população brasileira – em sua maioria preta, parda e pobre – sustentavam os estudos da elite branca, a qual reproduzia seu status de classe com o acesso gratuito ao diploma de nível superior. De todo modo, em que pesem todos seus problemas, poucos espaços sociais hoje podem se gabar de serem tão plurais em termos de classe, raça, gênero, religião, ideologia etc. quanto a universidade pública.
Por isso tudo, tenho dificuldades em aceitar os diagnósticos alarmantes sobre as supostas crises do debate acadêmico, como aqueles contidos no recém-lançado “Manifesto pelo pluralismo e pela liberdade acadêmica”. É verdade que enfrentamos uma crise de financiamento do ensino superior, talvez comparável somente àquela enfrentada no governo Fernando Henrique Cardoso, com restrição do número de matrículas, pouquíssimos concursos públicos para docência, e recursos cada vez mais restritos e concentrados de fomento à ciência. Mas não são esses elementos que costumam ser lembrados quando se fala na crise da universidade brasileira.
Em resumo, o libelo defende que as instituições públicas brasileiras de ensino superior estariam assistindo “a uma escalada de conflitos”, marcada pela multiplicação de “abaixo-assinados, notas de repúdio e campanhas de denúncia em redes sociais dirigidas contra docentes, pesquisadores, técnicos e estudantes”.
De saída, não deixa de ser contraditório um abaixo-assinado que reclama justamente da multiplicação de abaixo-assinados, um dos principais índices de liberdade de opinião e manifestação. Surpreende também a generalidade do manifesto, que fala em abstrato nos “eventos cancelados”, “aulas boicotadas”, “participantes intimidados” e “agressões físicas” sem citar um exemplo sequer, até mesmo para dotar o texto de algum apelo concreto. A multiplicação de denúncias contra docentes nas redes sociais de fato sofre com exageros, mas, até aí, o ensino superior é apenas mais uma vítima da liberalidade anônima que esses espaços de comunicação proporcionam.
Mais do que ser limitados, esses diagnósticos erram o alvo. Primeiro, a universidade está longe de viver conflitos violentos que ameaçam a pluralidade. Estamos a anos-luz, por exemplo, da situação de países como Turquia, Hungria, Israel ou mesmo Estados Unidos, onde disciplinas têm seus currículos vigiados e cursos inteiros são extintos. Vale lembrar que o governo da Flórida simplesmente baniu os cursos obrigatórios de filosofia e sociologia. Pesquisadores e pesquisadoras estadunidenses dedicados a estudar as desigualdades raciais, de gênero, de sexualidade ou mesmo de classe nunca encontraram tanta dificuldade na obtenção de financiamento para suas pesquisas quanto hoje. Voltando os olhos para o Brasil, desconheço uma só disciplina que tenha sido legal ou praticamente proibida por razão similar. Não vivemos, é verdade, em um mar de rosas, mas não estamos na lama de outros países.
Segundo, é equivocado dizer que a universidade pública estaria perdendo seu espaço no debate de ideias. Basta abrir qualquer um dos grandes jornais brasileiros para ver um sem-número de acadêmicos opinando sobre os mais diversos temas, do presidencialismo de coalizão à validade da polilaminina no tratamento de traumas medulares. Nas redes sociais, não é diferente. É bem verdade que a lista dos influencers com mais seguidores no país contém nomes como Neymar Júnior, Virgínia Fonseca, Anitta, Ronaldinho Gaúcho. A rigor, seria estranho que não fosse assim. Apesar disso, os influencers da área científica, ou mesmo ligados à academia, não têm uma participação desprezível. Isso para não falar no número de acadêmicos cedidos como gestores governamentais e autores de best-sellers de diferentes tipos.
Terceiro, o manifesto padece de uma visão simplista do valor da neutralidade do conhecimento e das funções da universidade. Em nenhum país do mundo democrático, a premissa da neutralidade institucional faz as universidades evitarem a adoção de “posições oficiais sobre questões políticas ou ideológicas”, como os signatários querem fazer parecer. Quando perseguida pelo governo Trump, a Universidade de Harvard não apenas abdicou dos vultuosos investimentos públicos que recebia, como reforçou seu compromisso com seus valores democráticos fundamentais. Novamente, o manifesto não nos indica os momentos em que a universidade brasileira exagerou ao assumir posições políticas, o que torna ainda mais genérica sua defesa da autonomia e da neutralidade.
Quarto, não é verdade que o apoio popular à universidade encontra-se em crise ou que ela continua “perdendo legitimidade diante de uma sociedade que já começa a vê-la como uma frente da guerra cultural”, como insinuou Wilson Gomes. Sempre temos de ler com cautela os números das pesquisas de opinião sobre a confiança na universidade. Até pouco tempo atrás, as pesquisas sequer levantavam essa informação. Quando o faziam, as opiniões expressavam mais a exclusão da maior parte da população do ensino superior e sua distância em relação ao tema do que qualquer outra coisa. Hoje, por outro lado, o próprio termo “universidade” encontra-se hiperpolitizado, manipulado ao bel-prazer da extrema direita como espaço de “balbúrdia” e “antros de esquerda”. A suposta crise de confiança na universidade reflete mais a crise de confiança nas instituições em geral do que suas eventuais posições políticas.
A sala de aula nunca foi e, espero, nunca será um espaço de harmonia perfeita e calma. Ela é, por definição, um lugar de tensão produtiva, onde ideias colidem, certezas são abaladas e hierarquias intelectuais devem ser ao mesmo tempo respeitadas e tensionadas. Os riscos reais vividos pelas universidades, do subfinanciamento crônico à homogeneidade do corpo docente, do descaso governamental aos ataques da extrema direita, merecem um enfrentamento direto. Já os riscos vagos, expressos no suposto fantasma da intolerância que assombra nossos campi, só servem para engrossar o caldo daqueles que insistem em dilapidar as bases de legitimidade da nossa universidade. Defender a universidade pública não significa protegê-la do conflito, mas garantir que ele se dê em bases democráticas, com pluralidade real, tanto de ideias, quanto de vozes.
Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você