
Mãe conversando com filha
Pode ser no carro ou na caminhada entre casa e escola, à mesa nas refeições, lavando louça ou na hora de dormir. Os momentos em que os adolescentes abandonam as monossílabas, quebram o silêncio e se mostram mais dispostos a conversar nem sempre coincidem com o tempo dos adultos — por isso, é preciso reconhecer e aproveitar essas brechas do cotidiano.
Gabriela Marques conta que boas conversas acontecem nos deslocamentos dentro do carro com a filha Carolina, de 14 anos. A mais recente envolvia a dificuldade de entrosamento na nova escola e um convite de uma colega para “sair para beber.” “Na hora fiquei meio nervosa, não imaginei isso nessa idade, mas vi que ela se sentiu à vontade para me contar.”
Gabriela disse à filha que conversaria com a escola sobre o episódio, mas ouviu um pedido imediato para que não fizesse isso. No dia seguinte, novamente durante um trajeto de carro, retomou o assunto com a garota.
“Disse que ainda não era o momento de ela consumir álcool, mas havia adolescentes mais precoces que faziam isso, talvez sem entender as consequências”, conta. A filha então completou: “Relaxa, mãe, eu não vou beber”. Gabriela aproveitou o gancho para brincar: “Então você aprende a dirigir, porque aí quem vai poder beber sou eu”. As duas caíram na risada.
Em muitas famílias, essas conversas espontâneas acabam encontrando nas mães um espaço de escuta. O estudo “A comunicação em famílias com filhos adolescentes” mostrou que são elas as pessoas mais procuradas pelos filhos para desabafar: 50% dos entrevistados de 11 a 16 anos disseram recorrer à mãe quando querem conversar, enquanto só 12% citaram o pai. Por outro lado, 96% consideram a comunicação familiar algo muito importante.
Para a escritora e comunicadora Elisama Santos, conviver com um adolescente – ela tem dois pré-adolescentes, de 11 e 13 anos – é como estar diante de um carro de vidros fechados: a chave da conexão está em identificar o momento raro e precioso em que o jovem decide baixar o vidro e abrir uma “janela de interesse.” “Não é que a gente só vai conversar nesses momentos, mas é importante entender que eles existem e que precisamos aproveitá-los.”
Para que o diálogo flua, é preciso abandonar as tradicionais “conversas verticais” mais presentes com as crianças em favor de uma relação mais “horizontal”. Isso significa tratar o adolescente com o mesmo respeito e interesse real que os adultos dedicariam a qualquer pessoa. No entanto, “uma“ escuta com respeito e interesse não quer dizer que a gente vai fazer o que o adolescente quer.”
Ao contrário do que muitas vezes pode parecer e fazer os pais sentirem, os vínculos neste período não estão rompidos. O que ocorre, como explica a psicóloga Clarissa Temer, é que os jovens precisam “se contrapor ao saber dos pais para sentirem a tal autonomia tão necessária para o crescimento”, afirma. “Às vezes precisam atacar muito, justamente porque o vínculo é forte. Eles clamam por liberdade de pensar e agir, enquanto os pais aflitos, clamam por controle, o que provoca um distanciamento certo.”
Para Clarissa, perguntas diretas podem soar como invasão ou inquérito, e os comentários, como julgamento. O caminho, segundo ela, seria o de observar, acolher e respeitar a personalidade de cada filho e a partir daí encontrar o lugar, meio e circunstâncias na qual ele se sente à vontade para falar e, principalmente, pedir ajuda.
“Alguns gostam de falar no carro, outros por mensagens de texto enviadas aleatoriamente no meio do dia, outros quando estão quase dormindo e quase todos, através de histórias, personagens, fofocas das redes, filmes, livros e séries”, diz.
Essas situações podem levar a boas conversas, mas a psicóloga lembra que deve ser uma “via de mão dupla e não uma ‘palestrinha’ dos pais”. “Como em toda relação é preciso tato, sensibilidade e sobretudo respeito a quem o outro é.”
Elisama frisa que os adultos frequentemente desqualificam o que os adolescentes escutam, leem ou valorizam. Frases como “eles ainda não sabem o que é bom” ou “um dia você vai entender”, mesmo ditas sem intenção de ferir, podem encerrar uma conversa antes de ela acontecer. “Todas as vezes que a gente acha que sabe mais do que o adolescente, estamos prejudicando a conversa. Muitas vezes ignoramos o que eles falam.”
Para abrir esse caminho é necessário demonstrar curiosidade real sobre a vida deles. “É preciso perguntar como ele está vendo a vida, o que está acontecendo com ele”, complementa. “Eu posso até imaginar, mas só ele pode me contar.”
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A criadora de conteúdo digital Estéfi Machado sempre apostou nessa lógica para fortalecer o vínculo e garantir uma boa relação com o filho Teo, de 18 anos. Para ela, as melhores conversas nascem, de forma espontânea, nos momentos em que estão juntos. Então, vê o pedido para ouvir a playlist do filho ou o convite para assistirem uma série, como oportunidades para discutir temas atuais que podem desembocar em situações vividas por ambos. “Sempre vem um debate, se não é algo sobre a letra da música, é alguma situação que eu vivi que me fez lembrar e ele complementa.”
Por outro lado, Estéfi critica a tendência de muitos adultos transformarem a conversa com os filhos numa espécie de “entrevista” insistindo para que eles falem. “Talvez a conversa não seja cavada, mas a situação sim. É preciso se empenhar para se interessar pelo mundo deles. É preciso que ele sinta que você valide o que ele sente, gosta e sua visão de mundo.”
Quando um adolescente finalmente abre uma trégua e resolve falar e contar sobre o problema, os adultos acreditam que precisam ter uma resposta rápida ou oferecer uma solução. Mas nem sempre é isso que eles gostariam. Muitas vezes a própria escuta já é a resposta que eles buscam, diz Elisama. “Pai e mãe precisam entender que escutar é uma ação. Escutar é fazer alguma coisa. A gente trata a escuta como se ela não fosse nada.”
Além disso, à medida que eles crescem, a complexidade dos desafios também evolui e vamos percebendo “a nossa pequenez cada vez maior”. “Percebemos que são problemas que a gente não consegue mais resolver com as mesmas ferramentas que tínhamos para lidar com as questões de quando eram crianças.”
Uma forma de ajudar a apaziguar o coração de ambos é validar o sentimento, se mostrar solidário e acolhedor. “O que você tem a fazer é falar: estou do seu lado, vamos pensar juntos como é que você quer lidar com isso? Às vezes não há mais nada além de falar ‘eu sinto muito’ e ‘você não vai passar por isso sozinho’”.
Baseado nas descobertas e desafios de três adolescentes – Mia (Paloma Souza), Thiago (Allan Jeon) e Felipe (João Pedro Mariano) -, o banco de trás do carro é o personagem principal do microdrama vertical “Me conta no caminho”. Nesses trajetos, a motorista Carmem (Bella Piero) oferece um espaço seguro para os amigos, com escuta cuidadosa e conselhos.
O primeiro de dez episódios estreou na segunda-feira (25), nos perfis do Instagram, TikTok e YouTube do Omelete. Também será possível assistir a “Me conta no caminho” nas redes do Alana e do Portal Lunetas.
Clarissa conta que a ideia de retratar os adolescentes conversando com a motorista brinca um pouco com a imagem do paciente em um divã, enquanto o analista está na poltrona atrás. É o momento em que eles se escutam, mas não se encaram. “Olhar para o outro não é proibido”, diz. “O paciente pode se virar e encontrar o rosto do analista, assim como o passageiro e o motorista através do retrovisor.”
Os episódios também serão o ponto de partida para um e-book e guia de conversas para estimular diálogos e reflexões entre educadores, pais e adolescentes.
A produção da Maria Farinha Filmes, realizada em coprodução com a PlayAction, é uma adaptação brasileira da obra original de Federico Veiroj e Martín Molinaro, com direção de Gabi Biga, e roteiro de Felipe Sali e da psicóloga Clarissa Temer.