
Grafite feito por Banksy e publicado em seu Instagram
Os grafites de Banksy ocupam espaços públicos em diversas cidades do mundo, mas ele permanece anônimo. Uma reportagem publicada na sexta-feira (13) pela agência de notícias Reuters traz um longo trabalho de investigação para descobrir a identidade do artista britânico.
O anonimato não é novidade no meio artístico e pode cumprir diversas funções, desde a preservação da privacidade até a ampliação da liberdade de expressão. Além de Banksy, a autora Elena Ferrante recorreu a um pseudônimo para resguardar sua identidade, ainda que sujeita a especulações.
Neste texto, o Nexo destrincha os pontos levantados pela Reuters sobre a possível identidade de Banksy, mostra o debate sobre liberdade de expressão e interesse público e explica como o anonimato contribui para a valorização de artistas.
Banksy tornou-se conhecido por seus desenhos em stencil e por nunca ter revelado sua identidade — mesmo que tenha conseguido espalhar suas obras em diversos lugares, especialmente em Bristol, na Inglaterra.
Ativo desde os anos 1990, o britânico utiliza suas intervenções como forma de crítica política e social, abordando temas como guerra, capitalismo e liberdade.
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A popularidade de seus trabalhos deu origem ao termo “efeito Banksy”, usado para descrever tanto a crescente aceitação do grafite em espaços urbanos quanto sua inserção em instituições culturais, como museus e galerias.
Mesmo sem ter a identidade revelada, o artista apareceu na lista da revista Time entre as pessoas mais influentes do mundo em 2010. Em 2022, suas obras ganharam ainda mais projeção, quando ele realizou intervenções em Horenka, vilarejo próximo a Kiev, na Ucrânia, atingido pela guerra com a Rússia.

Grafite feito em Horenka, vilarejo próximo a Kiev, na Ucrânia
Entre esses trabalhos, destaca-se o desenho de um homem dentro de uma banheira, feito nos escombros de um prédio, cuja autoria foi confirmada pelo próprio artista. A obra serviu como ponto de partida para a investigação da Reuters.
A apuração da agência de notícias sugere que Banksy seja Robin Gunningham, nascido em Bristol, em 1973. Segundo a reportagem, após ter o anonimato ameaçado por investigações anteriores, ele teria mudado seu nome legalmente para David Jones.
Para chegar a essa conclusão, jornalistas viajaram da Ucrânia ao Reino Unido, analisando registros e reunindo depoimentos de pessoas ligadas ao artista, como Mark Stephens, seu advogado de longa data.
Antes de Gunningham, a investigação considerou duas possíveis identidades. A primeira foi Thierry Guetta, conhecido como Mr. Brainwash, que participou do documentário “Exit Through the Gift Shop” (2010), dirigido por Banksy e indicado ao Oscar.
A hipótese foi descartada devido à sua origem francesa. Segundo a Reuters, Banksy daria indícios de ser de Bristol, na Inglaterra, por meio de suas obras e declarações publicadas pela imprensa.
O segundo nome cogitado foi Robert Del Naja, vocalista da banda Massive Attack e também grafiteiro, nascido em Bristol. A suspeita surgiu a partir de sua relação com Steve Lazarides, ex-empresário de Banksy. Apesar disso, evidências indicam que Del Naja seja um colaborador — inclusive com registros de sua presença na Ucrânia dias antes da execução do mural em Horenka —, não o próprio artista.
Depois desses nomes, surgiu o de Robin Gunningham, já apontado pelo jornal The Mail on Sunday em 2008 como o artista por trás de Banksy. A hipótese ganhou força após a identificação de um registro de prisão em seu nome em 2000, durante a Semana de Moda de Nova York. Na ocasião, ele teria vandalizado um outdoor no topo do número 675 da rua Hudson.
Na mesma época da prisão de Gunningham, a Reuters identificou que Banksy teria se hospedado por alguns meses no Carlton Arms Hotel, em Nova York. No local, ainda existem um quarto e uma escadaria pintados pelo artista.
Meses depois da prisão, diante do aumento das especulações, ele teria adotado legalmente o nome David Jones.
Segundo a Reuters, esse nome aparece em registros de entrada na Ucrânia ao lado de Robert Del Naja no mesmo período em que Banksy produziu o mural em Horenka.
Assim como Banksy, Elena Ferrante, autora de livros como “A amiga genial” (2011), mantém sua identidade em sigilo.
Cercada por especulações, sua autoria foi investigada pelo jornalista Claudio Gatti em reportagem publicada pelo jornal italiano Il Sole 24 Ore em 2016. Ele levantou a hipótese de que a escritora seria a tradutora Anita Raja, esposa do escritor Domenico Starnone.
A publicação gerou debate sobre os limites da investigação jornalística e o direito à privacidade, especialmente por envolver o rastreamento de dados bancários. O caso também reacendeu discussões sobre a relevância de obras de arte em relação à identidade de quem as produz.
No caso de Banksy, a Reuters relatou que Mark Stephens, o advogado do artista, solicitou que a reportagem não fosse publicada, com o objetivo de preservar sua integridade e garantir sua liberdade de expressão.
A agência afirmou reconhecer os argumentos em torno da privacidade, mas também disse que há interesse público em compreender a trajetória de uma figura influente na cultura e no debate político internacional — o que, segundo a empresa, justificaria a publicação.
Segundo a reportagem da Reuters, há diversas razões para a adoção do anonimato por artistas, como a proteção legal, a liberdade de expressão e estratégias para ampliar o alcance junto ao público.
Quando um artista ou personalidade opta por não revelar sua identidade, seja em ambiente físico ou virtual, essa escolha direciona a atenção do público para seu discurso e sua obra.
Esse recurso cria mistério, desperta curiosidade e favorece a identificação do público, especialmente quando as pessoas se reconhecem na mensagem transmitida.
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Em entrevista à emissora britânica BBC, John Brandler, diretor da Brandler Art Galleries, galeria de arte sediada em Brentwood, no Reino Unido, afirmou que permanecer anônimo é conveniente para Banksy, pois permite que ele “ande na rua” sem ser reconhecido.
Para ele, a marca construída pelo artista é “tão incrível” que sua identidade não faz diferença. “É uma jogada de marketing genial”, disse.
O anonimato também pode ser uma forma de o artista se manter distante do foco das autoridades. Para Banksy — que ironiza a cultura de consumo, desafia o poder público e transforma espaços urbanos em telas —, é interessante manter sua identidade oculta.
Apesar disso, a reportagem da Reuters levanta questionamentos sobre os limites entre o anonimato e a liberdade de expressão. Há quem sugira que Banksy desfrute de um tratamento diferenciado por parte das autoridades britânicas, já que não é penalizado por seus desenhos nas cidades.
Em uma reportagem publicada em 2014, a revista Vice Media, por exemplo, trouxe relatos do artista de rua David Speed, que liderava um coletivo de grafiteiros britânicos. Ele afirmou que as regras aplicadas a seus colegas não se estendiam a Banksy. “Quando artistas de rua fazem isso, é vandalismo. Quando Banksy faz, é uma obra de arte”, declarou.
Para João Vilnei, professor do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFC (Universidade Federal do Ceará), a obra de Banksy é relevante independentemente do anonimato. “A dúvida [sobre sua identidade], nesse caso, acaba sendo produtiva para o trabalho e para o público”, afirmou ao Nexo.
Vilnei também disse que há outras motivações para o anonimato. Citando o livro “Mentira de artista” (2016), do pesquisador de linguagens contemporâneas Fábio Fon, ele afirmou que, ao se dividir em diferentes “eus”, o artista amplia seu potencial criativo e passa a atuar em novas estruturas.
“[A artista multimídia] Dora Longo Bahia, por exemplo, criou Marcelo do Campo [um trocadilho com Duchamp] em sua dissertação, e Marcelo da Cidade em sua tese, que funcionam como suportes para aquilo que uma única pessoa não conseguiria realizar”, explicou Vilnei.