Mais uma? Por que há tantas novas cinebiografias

Dominic Sessa como Anthony Bourdain em "Tony" (2026)

Dominic Sessa como Anthony Bourdain em ‘Tony’ (2026)

O trailer de “Tony” (2026), filme dirigido por Matt Johnson que retrata o início da carreira do chef e escritor americano Anthony Bourdain, foi lançado na terça-feira (5). Dominic Sessa, de “Os rejeitados” (2023) e “Truque de mestre: O 3° ato” (2025), interpreta Bourdain na cinebiografia.

Cinebiografias têm sido um gênero cada vez mais explorado por Hollywood desde os anos 2000. Um exemplo recente de sucesso de público é “Michael” (2026), sobre a carreira de Michael Jackson. O filme se tornou a biografia com maior estreia de bilheteria da história do cinema ao arrecadar globalmente US$ 217 milhões no primeiro fim de semana.

Neste texto, o Nexo explora a história das cinebiografias e explica como elas se tornaram um dos gêneros favoritos de Hollywood.

O histórico das cinebiografias

As cinebiografias estão ligadas ao início do cinema. “Jeanne d’Arc” (1900), curta de 10 minutos dirigido por Georges Méliès que retrata a saga da santa Joana d’Arc, é considerado o primeiro filme biográfico.

Cinco décadas depois, grandes estrelas de Hollywood protagonizaram cinebiografias. Alguns dos títulos lançados nos anos 1950 são “Sede de viver” (1956), com Kirk Douglas como Vincent van Gogh, e “Viva Zapata!” (1952), no qual Marlon Brando interpreta o revolucionário mexicano. A atuação rendeu a ele uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 1953.

Kirk Douglas como Vincent van Gogh em "Sede de viver"

Kirk Douglas como Vincent van Gogh em ‘Sede de viver’

As cinebiografias não eram um gênero respeitado nessa época. O fator melodramático e as extravagâncias de muitos filmes da metade do século 20 – somados à representação de versões “polidas” e sem complexidades dos biografados – faziam com que as histórias não gerassem tanto entusiasmo.

Apesar disso, as cinebiografias musicais, ou seja, voltadas para músicos e bandas, tiveram um pico de produção entre 1950 e 1954, segundo a newsletter “Can’t Get Much Higher”, do músico e escritor Chris Dalla Riva, baseada em dados da plataforma de cinema IMDb. 

Essa ascensão foi derivada de um processo em curso desde 1930, de acordo com Geórgia Cynara, professora do curso de cinema e audiovisual da UEG (Universidade Estadual de Goiás) e coordenadora do Luminav (Laboratório Universitário de Memória Audiovisual da UEG), em entrevista ao Nexo. O aumento da presença da música em filmes levou à proliferação de musicais e cinebiografias sobre cantores.

A produção de filmes biográficos continuou nos anos seguintes. Na década de 1980, por exemplo, longas como “Amadeus” (1984), sobre a rixa entre os compositores Salieri e Mozart, e “Gandhi” (1982), sobre o ativista indiano, foram premiados na categoria de Melhor Filme do Oscar.

O ‘boom’ do gênero

Para Anderson Gonçalves, professor de produção audiovisual do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) São Paulo e da Universidade Anhembi Morumbi, as cinebiografias ganharam força quando, na virada para o século 21, a indústria cinematográfica percebeu que a memória virou um produto cultural de massa.

“Isso ficou mais evidente no fim dos anos 1990 e explodiu nos anos 2000, num movimento ligado a uma lógica de nostalgia e reconhecimento imediato”, disse o professor ao Nexo.

55%

dos prêmios Oscar de Melhor Ator e Atriz entre 2000 e 2019 foram entregues para performances feitas em cinebiografias

Uma reportagem veiculada em 2004 no site do programa americano de televisão Today proclamava aquele ano como “o ano das cinebiografias”. 

No mesmo ano, foram lançados filmes biográficos de sucesso, como “Diários de motocicleta”, dirigido por Walter Salles, que conta a história de Che Guevara e Alberto Granado; “O aviador”, sobre o aviador e empresário Howard Hughes (interpretado por Leonardo DiCaprio); e “Ray”, sobre a vida do músico de blues Ray Charles, interpretado por Jamie Foxx, que levou a estatueta de Melhor Ator no Oscar de 2005.

Produções do gênero continuaram fazendo sucesso nas décadas seguintes. O ator Eddie Redmayne recebeu o Oscar de Melhor Ator por sua interpretação do cientista Stephen Hawking em “A teoria de tudo” (2014). O mesmo ocorreu com Rami Malek em 2019 por seu papel como Freddie Mercury em “Bohemian Rhapsody” (2018), que foca na história do vocalista da banda Queen.

63

foi a quantidade de indicações ao Oscar que cinebiografias receberam entre 2022 e 2026

325%

foi o aumento de filmes listados no IMDb como cinebiografias musicais entre 2020 e 2024 em comparação com 1990 e 1994, segundo Chris Dalla Riva

No Brasil, cinebiografias recentes também fizeram sucesso. Foi o caso de “Homem com H” (2025), que narra a trajetória do cantor Ney Matogrosso. O filme arrecadou cerca de R$ 13 milhões de bilheteria.

Para Pedro Curi, professor e coordenador dos cursos de cinema e audiovisual e jornalismo na ESPM-Rio (Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro), a cinebiografia é um produto que constrói heróis na era midiática.

“Acho que isso está relacionado a uma busca por identidade nacional diante de um mundo globalizado. Isso faz muito sentido nos Estados Unidos, por exemplo, que têm o costume de narrar a própria história e levá-la para outros lugares”, disse em entrevista ao Nexo.

O resgate de figuras históricas – seja um cantor como Freddie Mercury, sejam políticos como Harvey Milk em “Milk” (2008) – busca trazer uma resposta sobre os tempos atuais. “Nós só resgatamos aquilo que faz sentido no hoje”, afirmou o professor.

O fato de o público já conhecer os protagonistas de grande parte dos filmes faz com que as produções surjam com uma base emocional pronta, segundo Curi, Cynara e Gonçalves.

“As cinebiografias são uma maneira de levar as pessoas para os cinemas, porque lá o som será melhor, a experiência será mais imersiva. Esse é um gênero que não quer atingir apenas quem gosta de cinema, mas o fã, e, para isso, é preciso chegar aos cânones da cultura pop”, disse Cynara.

Ela acrescentou que o fator de “certeza” da existência de um público para os longas tornou-se ainda mais essencial depois da pandemia de covid-19, que diminuiu o hábito de ir ao cinema.

A atração pelo gênero

Gonçalves acredita que parte do apelo das cinebiografias está relacionado ao seu papel em revisitar imaginários coletivos, numa cultura que hoje está profundamente baseada em identidade, arquivo e memória afetiva.

“As redes sociais e a cultura digital mudaram nossa relação com figuras públicas. Hoje existe uma sensação de intimidade permanente com artistas e celebridades. O público quer ver os bastidores, o trauma, a vulnerabilidade, o que existe por trás da ‘persona’. E a cinebiografia acaba ocupando esse espaço”

Anderson Gonçalves

professor de produção audiovisual do Senac São Paulo e da Universidade Anhembi Morumbi, em entrevista ao Nexo

“É quase como se a gente pudesse acompanhar os bastidores e ver como aquelas pessoas chegaram aonde chegaram”, afirmou Curi.

As cinebiografias também dialogam com estruturas clássicas do cinema ao abordarem histórias que muitas vezes seguem a lógica “ascensão, queda, crise, superação, reinvenção”, segundo Gonçalves. Isso faz com que, quando bem feitos, os filmes consigam transformar trajetórias individuais em retratos culturais de uma época.

Freddie Mercury (Rami Malek) e Mary Austin (Lucy Boynton) no filme "Bohemian Rhapsody" (2018). Fotografia mostra cena do filme "Bohemian Rhapsody". A esqueda, vemos Mary Austin, uma mulher branca e loira de olhos claros, à esquerda, Freddie Mercury, um homem com cabelos pretos de tamanho médio

Freddie Mercury (Rami Malek) e Mary Austin (Lucy Boynton) no filme ‘Bohemian Rhapsody’ (2018)

O sucesso de filmes musicais, em específico, se deve ao fato de que a música está ligada à memória emocional.

“Existe uma dimensão performática muito forte. Filmes como ‘Elvis’ ou ‘Bohemian Rhapsody’ funcionam quase como grandes shows cinematográficos. O público quer reviver aquela energia coletiva. Num momento em que a experiência do cinema disputa atenção com streaming, redes sociais e ‘shorts’, essas obras oferecem justamente algo mais imersivo e sensorial”, explicou o professor.

O possível esgotamento

Apesar do apelo, nem toda cinebiografia é sucesso garantido. 

Springsteen: salve-me do desconhecido” (2025), por exemplo, arrecadou US$ 45 milhões, menos que os US$ 55 milhões usados na produção do filme. Já “Priscilla” (2023), que conta a história do relacionamento entre Elvis e Priscilla Presley, arrecadou US$ 33 milhões, contra os US$ 287 milhões arrecadados por “Elvis” (2022).

Gonçalves vê dois motivos para reações mornas do público: um filme excessivamente “protocolar” – muito preocupado em cumprir uma linha cronológica previsível, o que faz com que ele perca a dramaticidade – e a influência da família ou do espólio na produção, que gera obras mais controladas e menos ambíguas.

“Em ‘Michael’, por exemplo, essa atenuação é evidente. O cinema funciona muito bem na tensão, no conflito e na zona desconfortável. Quando determinadas camadas são suavizadas ou apagadas para preservar uma imagem pública, existe o risco de o filme virar mais uma homenagem institucional do que uma obra cinematográfica realmente profunda”, afirmou.

Situação semelhante ocorreu com “Bohemian Rhapsody”, em que Brian May e Roger Taylor, membros restantes do Queen, tiveram poder de decisão sobre o roteiro e a direção do longa.

“Isso revela algo interessante do nosso tempo: a disputa pela narrativa da memória. Hoje, a imagem pública de um artista é um ativo econômico, político e simbólico muito forte. Controlar a cinebiografia também significa controlar o legado, a marca e a permanência cultural”

Anderson Gonçalves

professor de produção audiovisual do Senac São Paulo e da Universidade Anhembi Morumbi, em entrevista ao Nexo

Para Cynara, reduzir os personagens a arquétipos – o vilão, o mocinho ou a vítima – subestima o espectador.

“É sempre uma questão de quem está narrando aquela história. Muitas vezes, é óbvio que a família não vai querer manchar a reputação do astro. As pessoas são mais complexas do que os personagens, mas, no fim, o que vence é a narrativa mais capilarizada”, disse a professora.

“Uma cinebiografia nunca é apenas um filme, mas toda uma cadeia de consumo vinculada à nostalgia”

Geórgia Cynara

professora do curso de cinema e audiovisual da UEG e coordenadora do Luminav, em entrevista ao Nexo

Para Gonçalves, há o risco de cinebiografias gerarem cansaço no público à medida que começarem a repetir fórmulas previsíveis – da jornada da humildade até o sucesso, por exemplo –, mas esse tipo de filme sempre irá existir. O que pode dar uma sobrevida ao gênero é romper com a maneira tradicional de contar as histórias.

Segundo Cynara, um exemplo de possível inovação é “Não estou lá” (2007), sobre o compositor Bob Dylan. No filme, diferentes atores – como Christian Bale, Cate Blanchett e Heath Ledger – interpretam diferentes fases e aspectos da vida do artista.

“Mas, num contexto hollywoodiano, as inovações não são necessariamente estéticas. O cinema é uma indústria: ele trabalha com produção em série. Não há lugar para a experimentação e para o erro, e sim para a repetição de padrões. As inovações se tornam apenas uma maneira de fazer publicidade para aquele filme”, disse a professora.