
Detergentes da Ypê
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deve deliberar na quarta-feira (13) se mantém ou revoga as restrições de produtos da Ypê determinadas na semana anterior. As medidas foram suspensas temporariamente após a empresa apresentar recurso contra a decisão.
A deliberação ocorrerá em meio a uma onda de críticas de bolsonaristas nas redes sociais às restrições adotadas pela agência. Para eles, o governo Lula persegue a Ypê devido ao apoio financeiro de familiares controladores da marca à campanha eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.
Neste texto, o Nexo explica qual o respaldo da decisão da Anvisa, quais as reações políticas à medida, qual a ligação da Ypê com o bolsonarismo e como o identitarismo da extrema direita afeta sua relação com marcas.
A decisão da Anvisa contra a Ypê, publicada na quinta-feira (7), determina medidas restritivas sobre produtos como lava-roupas e desinfetantes fabricados sob o lote com numeração final 1 pela Química Amparo. A fábrica foi aberta em 1977 e está localizada em Amparo, no interior de São Paulo.
O detergente lava-louças é outro alvo da medida. O produto é o de maior volume da Ypê, com cerca de 5,5 milhões de unidades produzidas por mês, segundo o relatório de impacto mais recente da empresa, sobre o ano de 2024.
A medida da Anvisa vale para todas as fases da cadeia. Além do recolhimento dos produtos, a determinação inclui a suspensão:
A decisão foi tomada após uma inspeção realizada por centros de vigilância de São Paulo e de Amparo entre 27 e 30 de abril, na qual os agentes constataram falhas em “etapas críticas” durante o processo produtivo. Segundo a agência, a condição favorece o risco de contaminação microbiológica (como de fungos e bactérias) nos produtos, com potencial de gerar efeitos como irritação na pele.
A Anvisa também disse que a decisão se fundamenta em regras de saúde, sanitização, higiene, vestuário e conduta previstos numa resolução da Diretoria Colegiada de 2013 sobre boas práticas de fabricação de produtos saneantes (como desinfetantes, limpadores e inseticidas).
“A atuação da agência está fundamentada no princípio da proteção da saúde da população, por meio da identificação, avaliação e gerenciamento de riscos sanitários, adotando medidas proporcionais à gravidade das falhas identificadas”
Anvisa
em nota à imprensa na quinta-feira (7)
No domingo (10), uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, revelou fotos das instalações da fábrica de Amparo anexadas ao relatório da inspeção sanitária. As imagens mostram marcas de corrosão em equipamentos e restos de produtos armazenados.

Foto divulgada pelo programa Fantástico, da TV Globo
À emissora, a Ypê disse que as fotos mostradas não são diretamente relacionadas aos produtos, e as falhas integram um “plano robusto de melhorias” previamente alinhado à Anvisa.
A empresa também afirmou que a inspeção da vigilância sanitária “não encontrou contaminação” em seus produtos e que mantém mecanismos internos para monitorar e descartar itens que fujam do padrão de qualidade.
A apuração da TV Globo mostrou que a Ypê registrou testes positivos para a bactéria Pseudomonas aeruginosa, comum em áreas úmidas e resistente a antibióticos. Ela pode afetar com mais facilidade pessoas com imunidade baixa e causar infecções em diferentes partes do corpo, incluindo pele, vias urinárias e sangue.
Os testes ocorreram entre dezembro de 2025 e abril de 2026. Antes, a Ypê já havia identificado a mesma bactéria durante a produção em Amparo — o que teria pesado na decisão publicada na quinta-feira (7).

Fábrica da Ypê em Amparo, no interior de São Paulo
Em novembro de 2025, a marca decidiu recolher uma série de lotes com final 1 de lava-roupas. Mais tarde, a medida foi reforçada por uma resolução da Anvisa.
Aos consumidores, a Ypê disse na quinta-feira (7) que “possui fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes” de que os produtos suspensos “são seguros e não representam risco”.
“A Ypê vem realizando análises técnicas e avaliações complementares, incluindo testes e laudos independentes, que seguem sendo apresentados às autoridades competentes”
Ypê
em comunicado aos consumidores publicado nas redes sociais na quinta-feira (7)
A marca apresentou recurso à Anvisa na sexta-feira (8), obtendo a suspensão temporária da medida até uma análise definitiva — que ocorrerá na quarta-feira (13), em reunião da diretoria colegiada. Até lá, os consumidores devem continuar suspendendo o uso de produtos, segundo a agência.
A suspensão de produtos Ypê pela Anvisa foi vista pelo bolsonarismo como perseguição política do governo Lula à marca. Com a decisão da agência reguladora divulgada na quinta-feira (7), personalidades como a influenciadora Jojo Toddynho e o ator Júlio Rocha foram às redes defender a empresa.
Parlamentares também encamparam críticas à Anvisa. Um deles é o coronel da polícia militar e vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), que apareceu em vídeo, publicado na sexta (8), lavando louças com um detergente da marca e pedindo aos consumidores que também postassem seus produtos.
“Aqui em casa, gente, é só produto Ypê. Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com uma empresa 100% brasileira”
Ricardo Mello Araújo
coronel da polícia militar e vice-prefeito de São Paulo, em vídeo publicado na sexta-feira (8) no Instagram
No dia seguinte, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), pré-candidato ao governo mineiro, também publicou um vídeo lavando louça com o detergente da marca, atribuindo a decisão da Anvisa à relação de controladores da Ypê com o ex-presidente Bolsonaro.
“Quero aqui chamar a atenção do governo. Vocês estão tão preocupados com a saúde do povo brasileiro. Quero ver também mandar suspender e acabar de uma vez por todas com o [jogo do] tigrinho”, disse o senador na publicação.
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Nesta segunda-feira (11), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse a jornalistas que a investigação da Anvisa sobre o caso envolve o setor de vigilância do estado paulista, governado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Bolsonaro.
“O diretor que é responsável por essa área na Anvisa [Daniel Meirelles] foi indicado por Bolsonaro, foi assessor e secretário-executivo do ministro do governo Bolsonaro e está na Anvisa cumprindo o cargo e tendo a responsabilidade de cumprir o papel técnico”, acrescentou.
“A Anvisa não tem lado de governo, não tem lado partidário, não tem lado A ou B”
Alexandre Padilha
ministro da Saúde, em fala à imprensa nesta segunda-feira (11)
Membros da família Beira, controladora da Ypê, foram alguns dos financiadores da campanha de 2022 do então presidente Bolsonaro, que tentava a reeleição contra Lula.
R$ 1 milhão
foram doados pela família Beira à campanha de Bolsonaro em 2022, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral)
O montante se divide em três doações, algumas das maiores destinadas à campanha, sendo:
Outro episódio em 2022 marcou a relação dos controladores da marca com o bolsonarismo. Naquele ano, a Química Amparo fez uma live de apoio a Bolsonaro junto a funcionários.
Na ocasião, o Ministério Público do Trabalho acusou a empresa de fazer “uma palestra voltada a persuadir os trabalhadores a votarem no candidato da situação, com o tema ‘cenário eleitoral pós-1º turno’”.
Após condenação em primeira instância, o Tribunal Regional do Trabalho confirmou a decisão da Justiça trabalhista de Amparo e condenou a empresa por assédio eleitoral em 2024.
A empreitada de apoiadores de Bolsonaro em campanhas de apoio ou boicote a marcas não é novidade.
Em 2023, bolsonaristas operaram um movimento de boicote à Bis, marca de chocolates da Mondelez, após uma campanha da empresa com o influenciador digital Felipe Neto. Políticos de direita começaram a incentivar o consumo do concorrente KitKat, da Nestlé. As ações da Mondelez caíram num primeiro momento, mas voltaram a crescer.
Mais tarde, no fim de 2025, uma peça de publicidade de virada do ano da Havaianas com a atriz Fernanda Torres fez uma brincadeira com a expressão popular “entrar com o pé direito ou com o pé esquerdo”. Influenciada pelo misticismo da Roma antiga, ela se refere a começar bem ou mal o ano seguinte.

Jair Bolsonaro em interrogatório no STF
Na época, figuras da extrema direita afirmaram que a propaganda era proselitismo de esquerda, já que a atriz é associada a esse campo político. Em resposta, Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo em seu Instagram jogando fora um par de chinelos. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou em seu perfil no X uma ironia com o slogan da marca: “Havaianas, nem todo mundo agora vai usar”.
Em 2026, a campanha contra a Anvisa traz de volta uma das marcas do bolsonarismo durante a gestão do ex-presidente no Planalto: o descrédito de instituições técnicas ou científicas.
Na pandemia de covid-19, o negacionismo de Bolsonaro e sua atuação aberta contra medidas de proteção influenciaram eleitores a adotar comportamentos de risco e defender tratamentos sem eficácia comprovada (como a ivermectina e a cloroquina). O ex-presidente também promoveu o negacionismo climático em seu governo.