Como o fracking induz terremotos na Argentina

Área de exploração de hidrocarbonetos em Vaca Muerta, na Argentina
Há mais de uma década, o fracking começou a alterar profundamente a formação rochosa de Vaca Muerta, na Argentina, transformando-a em um megaprojeto de exploração de hidrocarbonetos. Desde então, o solo não parou de tremer.
Localizada na província de Neuquén e se estendendo por Mendoza, Río Negro e La Pampa, Vaca Muerta abriga o segundo maior depósito de gás de xisto e o quarto maior de petróleo não convencional do mundo. O fracking ou fraturamento hidráulico — técnica que injeta água pressurizada e areia em rochas subterrâneas para liberar gás e petróleo — colocou a região no centro da corrida energética global.
Os primeiros poços de Vaca Muerta foram perfurados no início da década de 2010, dando início à exploração de xisto na Argentina. Naquela época, cada poço alcançava cerca de dez “estágios” de fraturamento, realizados horizontalmente em intervalos da rocha. Desde então, os avanços tecnológicos ampliaram a capacidade de exploração: hoje, há poços que ultrapassam 50 estágios de fraturamento.
O aumento nos estágios de fraturamento tem sido relacionado à intensificação de terremotos na região. A injeção de água e areia sob alta pressão pode reativar falhas geológicas pré-existentes, provocando os chamados terremotos “induzidos”.
Neuquén encerrou o primeiro semestre de 2025 com o maior número já registrado de terremotos induzidos, segundo nosso levantamento do Observatório de Sismicidade Induzida (OSI), na Patagônia. Hoje, a província lidera a produção de petróleo e gás na Argentina — e nunca tremeu tanto. Tudo indica que novos recordes de tremores serão batidos ano após ano.
Entre 2018 e junho de 2025, o OSI registrou 548 terremotos em Vaca Muerta, todos associados a operações de fracking. Só no primeiro semestre de 2025 foram 36 tremores — mais que os 33 no mesmo período de 2024, os 27 em 2023, 10 em 2022, 11 em 2021 e 28 em 2020.
Impactos do fracking
Os terremotos induzidos não diferem dos naturais: liberam energia do subsolo que chega à superfície. Seus impactos principais são três: o primeiro é estrutural, com rachaduras em casas, galpões e prédios. O segundo, geológico, com deslizamentos de terra que ameaçam diretamente a população. E o terceiro é invisível, mas não menos grave: o efeito sobre a saúde mental, já que moradores são acordados de madrugada e vivem em constante sobressalto.
A própria infraestrutura da indústria petrolífera sofre com os tremores. Oleodutos, poços, torres, reservatórios, tanques, piscinas, molhes e estradas se deterioram diante da recorrência de abalos sísmicos. O risco não é apenas estrutural: esses danos podem resultar em derramamentos, vazamentos, incêndios e até explosões na superfície.
Os abalos também ameaçam a infraestrutura subterrânea. A ruptura de dutos pode abrir caminhos indesejados para fluidos, conectando aquíferos a depósitos de hidrocarbonetos ou a resíduos altamente poluentes do fracking.
Apesar disso, o impacto da sismicidade induzida não é levado em conta — nem exigido legalmente — nas avaliações de impacto ambiental das empresas que operam em Vaca Muerta, que incluem a estatal YPF, além de Shell, Pan American Energy, Pluspetrol e Vista Energy. A omissão já trouxe graves consequências socioambientais.
Várias organizações articulam medidas legais para definir responsabilidades e exigir ações de controle. A Fundação Ambiente e Recursos Naturais (Farn), organização argentina, chegou a apresentar uma liminar junto a moradores, mas o pedido foi rejeitado pela Suprema Corte em agosto de 2024. Ainda assim, a participação da sociedade civil será decisiva para o avanço dessas iniciativas.
Semáforos sísmicos
Num futuro cada vez mais dominado pelos interesses das grandes corporações, torna-se urgente criar ferramentas que permitam às comunidades defender seus territórios, reduzir os riscos à saúde e garantir uma melhor qualidade de vida.
Iniciativas como os “semáforos sísmicos” já foram implementadas em países como Estados Unidos e Canadá. O sistema funciona por níveis: um tremor de magnitude 2 na escala Richter mantém o sinal verde, permitindo a continuidade do fracking. Se a magnitude chegar a 2,5, a empresa deve notificar o órgão regulador e reduzir as operações. Acima de 3,5, o processo precisa ser interrompido até que as autoridades realizem uma avaliação.
Esses sistemas de alerta visual informam a população sobre o nível da atividade sísmica e obrigam o Estado a monitorar o subsolo e gerenciar a gravidade dos tremores. Embora não eliminem os riscos, sua adoção com respaldo legal representaria um avanço importante — ainda que difícil de alcançar.
O OSI elaborou um projeto de lei que prevê a adoção de semáforos sísmicos e a criação de zonas de exclusão de 15 quilômetros em torno de cidades, reservatórios e outras áreas sensíveis. A proposta não proíbe o fracking, mas restringe sua prática onde já foram identificadas falhas sísmicas.
Até agora, o projeto de lei foi apresentado à legislatura de Neuquén, ao executivo provincial, a departamentos da Universidade Nacional de Comahue e a institutos acadêmicos como o de Prevenção Sísmica e o Instituto Geofísico Sismológico Volponi. Também chegou a várias petroleiras. A expectativa é que seja incorporado por partidos, movimentos sociais ou companhias — e, por fim, pelo governo.
O Estado, como autoridade reguladora máxima, deve definir zonas de exclusão ao fracking a fim de proteger as populações e a infraestrutura civil.