As mensagens que põem Flávio Bolsonaro na teia de Vorcaro

Flávio Bolsonaro, um homem branco, está cercado por pessoas.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista

Daniel Vorcaro financiou a cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL) e manteve uma relação íntima com o filho do ex-presidente, o senador Flávio Bolsonaro, principal candidato da oposição à Presidência em 2026. As informações vieram a público em reportagem do The Intercept Brasil nesta quarta-feira (13). 

O site teve acesso a mensagens que o fundador do Banco Master trocou com o senador, intermediários e seus subordinados entre o fim de 2024 e meados de 2025 para viabilizar o desembolso de pelo menos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) para “Dark Horse”, que tem previsão de lançamento para setembro. O valor total prometido pelo banqueiro foi de US$ 24 milhões (R$ 134 milhões), mas não há evidências de que ele tenha sido pago inteiramente.

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz”

Flávio Bolsonaro

senador (PL-RJ) e pré-candidato à Presidência, em mensagem enviada a Daniel Vorcaro em 16 de novembro de 2025, em meio a cobranças pelo pagamento de parcelas para financiar a cinebiografia de seu pai

As mensagens vêm à tona num momento em que Flávio tenta se desvincular do escândalo do Master, uma semana depois de o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que chegou a ser cogitado como seu vice, foi alvo de uma operação da Polícia Federal que revelou que ele recebia uma mesada de Vorcaro para defender seus interesses no Congresso. O banqueiro está preso em Brasília.

Neste texto, o Nexo traz as revelações do Intercept e mostra como Flávio tem lidado com o caso do Banco Master até aqui.

A reportagem do Intercept

Os primeiros registros de aproximação entre Flávio e Vorcaro aos quais o Intercept teve acesso são de 8 de dezembro de 2024. 

Na ocasião, o empresário Thiago Miranda, então sócio e CEO do Portal Leo Dias, escreveu a Vorcaro para organizar um encontro entre ele e Flávio Bolsonaro dali a três dias, na casa do banqueiro, em Brasília. O objetivo seria tratar sobre o “filme do presidente”, pauta a respeito da qual o senador já estaria ciente. 

Flávio estava numa reunião da Comissão de Constituição e Justiça do Senado naquele dia, mas registros da sessão mostram que ele se ausentou na hora combinada para o encontro, às 17h30, para falar ao celular. Ele voltou à sua cadeira às 18h. 

Por volta das 18h30 daquele mesmo dia, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), roteirista e idealizador de “Dark Horse”, enviou um áudio a Vorcaro agradecendo o apoio ao projeto.

Sempre de acordo com as mensagens, a partir de janeiro de 2025 Flávio começou a pressionar pela liberação de pagamentos, por intermédio de Miranda. Foi quando Vorcaro designou seu cunhado, Fabiano Zettel, para operacionalizar o financiamento. Zettel, que é pastor da Igreja da Lagoinha, foi um dos principais doadores da campanha de Bolsonaro em 2022, tendo contribuído com R$ 3 milhões. 

Desenhou-se então um cronograma de desembolso que totalizaria US$ 24 milhões em 14 parcelas. De fevereiro a maio de 2025, US$ 10,6 milhões foram pagos, depois de mensagens de Vorcaro dizendo ao cunhado que os pagamentos para o filme eram “o mais importante disparado” e que não “pode falhar mais”. 

Os pagamentos eram feitos pela empresa Entre Investimentos e Participações, ligada a Vorcaro, ao fundo Havengate Development Fund LP, no Texas, administrado por Paulo Calixto, advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), que se estabeleceu nos EUA para articular sanções contra autoridades brasileiras que investigaram e julgaram seu pai por tentativa de golpe de Estado em 2022.

Contatos diretos

Em 3 de setembro de 2025, o Banco Central rejeitou a venda do Master para o BRB (Banco de Brasília), uma operação repleta de suspeitas de fraudes. 

Segundo o Intercept, a crise minguou de vez os desembolsos de Vorcaro. Foi quando Flávio começou a estabelecer uma relação direta com o banqueiro, sem intermediários, para tentar conseguir a liberação dos pagamentos. Isso está exposto em mensagens:

“Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, porque a gente tá num momento muito decisivo do filme, e como tem muita parcela para trás, tá todo mundo tenso. Imagina a gente dando um calote num Jim Caviezel?”

Flávio Bolsonaro

senador (PL-RJ) e pré-candidato à Presidência, em mensagem de áudio enviada a Daniel Vorcaro em 8 de setembro de 2025

Em 17 de novembro, um dia depois da última mensagem de Flávio para Vorcaro, a Polícia Federal prendeu o banqueiro e o Banco Central liquidou o Master. O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) teve que ressarcir investidores da instituição financeira em R$ 47 bilhões, na maior operação do tipo na história.

Vorcaro está preso em Brasília. Ele negocia uma delação premiada que, segundo informações de bastidores, está emperrada por divergências com relação a provas colhidas pelos investigadores. 

Todos os citados pelo Intercept foram procurados, assim como suas defesas. Segundo o site, na manhã desta quarta (13), Flávio foi questionado presencialmente sobre o financiamento de Vorcaro ao filme e respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”.

Em nota publicada mais tarde, o senador confirmou que pediu dinheiro ao banqueiro, mas negou ter recebido vantagens. 

“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai”

Flávio Bolsonaro

pré-candidato à Presidência, em nota publicada nesta quarta-feira (13)

Ao Intercept, a defesa de Mario Frias confirmou os contatos entre o parlamentar e Vorcaro, mas disse que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”.

Os outros citados não responderam aos questionamentos da imprensa até a publicação deste texto.

O momento de Flávio

As revelações do Intercept vieram a público depois que Flávio tentou se desvencilhar de Ciro Nogueira no caso Master. O senador, que foi ministro da Casa Civil de Bolsonaro e é presidente do PP – partido que negocia participar da chapa do PL à Presidência –, é apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores de Vorcaro no Congresso. 

Foi de Ciro, por exemplo, a proposta da chamada “Emenda Master”, que aumentava a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, favorecendo os negócios do banco. Segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal, o texto foi encomendado por Vorcaro, que pagava uma mesada de até R$ 500 mil ao parlamentar.

Na quinta-feira (7), Flávio gravou um vídeo se dizendo favorável a uma CPI do Master para expor “quais as ligações do Master com a alta cúpula nacional do PT e da Bahia”. O banco tinha negócios com o governo baiano, sob o PT desde 2007. 

Essa é apenas uma das frentes da teia de conexões do Master, que envolvem suspeitas de pagamentos irregulares a autoridades ou familiares delas nos três Poderes e em diversos estados da federação. 

De acordo com o jornal Correio Braziliense, a Polícia Federal informou que as mensagens entre Vorcaro e Flávio ainda não estão sendo investigadas pela corporação, mas podem ser incluídas em diligências posteriores da Operação Compliance Zero.

Políticos da oposição se manifestaram sobre as revelações do Intercept. O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), pré-candidato à Presidência, classificou a negociação de Flávio com Vorcaro como “imperdoável” e “um tapa na cara dos brasileiros de bem”. Ronaldo Caiado (PSD), também pré-candidato, disse que o senador “deve responder aos questionamentos sobre o financiamento do filme e as relações com o dono do Master”.

Esta não é a primeira vez que o nome de Flávio aparece num caso que levanta suspeita. Em 2018, veio à tona o caso da “rachadinha”, no qual o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indicou movimentações suspeitas de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, então assessor do político na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). Havia suspeita de que parte do salário de outros assessores do então deputado eram devolvidos. 

O caso se desdobrou em 2019 e 2020, mas, com o tempo, decisões judiciais anularam trechos da investigação por questões como obtenção de provas e irregularidades processuais, e Flávio não foi legalmente responsabilizado. Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio arquivou a denúncia.