Estudo projeta aumento de mortes e de perda de produtividade por câncer de intestino

Ilustração de câncer colorretal

Nos próximos cinco anos, cerca de 162 mil pessoas com mais de 15 anos devem morrer no Brasil em consequência de tumores malignos do intestino grosso – especificamente, no cólon e no reto. No mesmo período, a enfermidade, o chamado câncer colorretal, o segundo tipo mais frequente no país, com exceção dos tumores de pele não melanoma, deve acarretar a perda de 3,27 milhões de anos potenciais de vida, o que representa um encurtamento médio de 20 anos no tempo de vida de cada pessoa com a doença, segundo estudo publicado em março na revista médica The Lancet Regional Health – Americas. Em termos econômicos, o prejuízo indireto, por perda de produtividade em consequência do óbito precoce, foi calculado em US$ 7,14 bilhões nos próximos cinco anos, sem considerar os gastos com diagnóstico, tratamento e acompanhamento.

O grupo coordenado pela epidemiologista Marianna de Camargo Cancela, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, chegou a essa estimativa depois de verificar o total de mortes por tumores colorretais registrado de 2001 a 2015 no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. A equipe também usou os dados obtidos no mesmo intervalo de tempo da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para estimar o salário médio formal e informal, as taxas de participação na força de trabalho e de desemprego por sexo e idade. Com os números desses primeiros 15 anos em mãos, os pesquisadores projetaram o que se espera em termos de mortes e perda de produtividade no país de 2016 a 2030.

O cenário é preocupante. Os casos de câncer de cólon e reto vêm crescendo no Brasil desde o início deste século e, segundo os autores do artigo, as ocorrências se encontram em ascensão até mesmo entre as pessoas mais jovens, assim como ocorre em países mais ricos. O estudo projeta um salto de 2,7 vezes no total de óbitos do quinquênio 2001-2005 para o que se inicia agora (2026-2030). O país registrou 57.631 mortes em consequência de tumores colorretais no primeiro período e deve contabilizar 157.027 nos próximos cinco anos – o total de mortes é um pouco mais elevado entre as mulheres. No mesmo intervalo, a população brasileira cresceu cerca de 23,5%, passando de aproximadamente 170 milhões de pessoas, na virada do século, para os atuais 210 milhões. No acumulado de 2001 a 2030, as mortes por esse tipo de câncer devem chegar a 635,3 mil.

Não é apenas o número absoluto de óbitos que vem aumentando. Há também um incremento contínuo na taxa de mortalidade ajustada por idade, que leva em conta a estrutura etária da população brasileira. Ocorriam 10,8 óbitos em cada grupo de 100 mil homens no período 2001-2005. Essa taxa deve chegar a 13,8 por 100 mil no quinquênio 2026-2030, um aumento de 28%. Entre as mulheres, a projeção é de uma elevação mais modesta, de 12%, subindo de 10,1 para 11,3 por 100 mil.

O crescimento do total de mortes e da taxa de mortalidade vem acompanhado de dois impactos importantes. Um tem natureza social: a perda de anos potenciais de vida, ceifada pela doença antes do esperado. O outro é de fundo econômico: a perda de produtividade, também provocada pelo óbito precoce.

A equipe, que incluiu pesquisadores da Austrália, da França, do Reino Unido e da Irlanda, usou uma métrica da epidemiologia chamada anos potenciais de vida perdidos (YPLL) para calcular o tempo que a morte prematura das pessoas com câncer colorretal rouba da força de trabalho do país. De 2001 a 2030, o valor total chega a 12,6 milhões de YPLL, sendo 5,7 milhões entre os homens e 6,9 milhões entre as mulheres. A soma do tempo perdido por causa das mortes precoces deve subir, no sexo masculino, de 459 mil no período 2001-2005 para 1,5 milhão no quinquênio 2026-2030. Entre as mulheres, o total de YPLL deve passar de 599 mil para 1,8 milhão. Já a perda de produtividade, também crescente, deve totalizar US$ 22 bilhões nesses 30 anos, com participação maior (US$ 16,8 bilhões) masculina.

“É alarmante olhar os anos de vida e a produtividade que se perdem no Brasil pela ausência de políticas capazes de impedir a progressão de uma doença que, em muitos casos, é prevenível”, comenta o oncologista Jorge Sabbaga, chefe do Grupo de Tumores Gastrointestinais do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), que não participou do estudo da The Lancet Regional Health – Americas.

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Os quatro indicadores analisados no estudo – total de mortes, taxa de mortalidade, anos de vida perdidos e perda de produtividade – foram mais elevados nos estados das regiões Sudeste, Sul e Nordeste, as mais populosas do país. O Sudeste, onde vivem 84 milhões de brasileiros, deve concentrar o maior número absoluto de mortes (355,2 mil), de anos de vida perdidos (3,1 milhões de YLPP) e de perda de produtividade (US$ 12,2 bilhões) de 2001 a 2030. A região Sul, a terceira mais populosa, com 30 milhões de habitantes, apresenta vários desses indicadores mais elevados do que a Nordeste, a segunda com maior número de habitantes. Até 2030, os estados do Sul devem acumular 127,3 mil mortes, 2,4 milhões de anos saudáveis de vida perdidos e uma queda de produtividade de US$ 4,5 bilhões. Essa concentração, segundo os autores do artigo, é explicada por diferenças nos hábitos de vida (por exemplo, maior índice de tabagismo e consumo de alimentos ultraprocessados), somadas à maior proporção de pessoas com mais de 60 anos vivendo nessas regiões. A partir dessa idade, aumenta a incidência do câncer de cólon e reto.

Nas três décadas incluídas no estudo, a perda de produtividade aumentou, em média, em torno de cinco vezes. Era da ordem de US$ 1,33 bilhão no quinquênio 2001-2005 e deve chegar a US$ 7,14 bilhões no período 2026-2030. Embora concentrem o menor número de mortes e as taxas de mortalidade mais baixas, os estados da região Norte são os que devem apresentar o maior aumento relativo na perda de produtividade. Entre os homens, ela deve crescer 9,7 vezes e, entre as mulheres, 8,7. A região também apresenta os maiores valores de anos potenciais de vida perdidos por morte: 22 anos entre os homens e 24 entre as mulheres, acima da média nacional de 18 anos e 21 anos, respectivamente.

“Essa variação deve-se principalmente a diferenças socioeconômicas”, afirma o epidemiologista Jonas Eduardo Monteiro dos Santos, primeiro autor do estudo, financiado pelo programa de apoio a políticas de oncologia independente da empresa farmacêutica norte-americana Merck Sharp & Dohme. Mais pobres, os estados do Norte (e do Nordeste) têm menos acesso a serviços de saúde. “Isso aumenta o tempo para o diagnóstico e o início do tratamento, o que eleva a probabilidade de óbito precoce”, conclui Santos, pesquisador do Inca e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A demora no diagnóstico, aliás, é um problema frequente no país. No boletim Câncer Colorretal no Brasil – O desafio invisível do diagnóstico, publicado em 2025, a Fundação do Câncer, entidade filantrópica que atua na prevenção da doença, estimou que 60% dos mais de 177 mil casos de câncer colorretal registrados em hospitais públicos e privados brasileiros entre 2013 e 2022 foram diagnosticados em estágios avançados, o que contribui para que o país responda pela quinta maior taxa de mortalidade por câncer colorretal da América Latina e por 41% do total de mortes pela doença na região. “No Brasil, temos o Sistema Único de Saúde [SUS], que é um dos mais eficientes do mundo, mas ele não está sendo capaz de proporcionar à população um trabalho de varredura e detecção precoce das lesões pré-malignas”, afirma Sabbaga.

O câncer de cólon e reto, segundo especialistas, é uma enfermidade que pode ser prevenida em boa parte das vezes por meio da adoção de hábitos saudáveis de vida, como a realização de atividade física regular, o consumo de uma dieta rica em fibras e com poucos alimentos embutidos e ultraprocessados e evitando o tabagismo. Seu rastreamento pode ser feito por meio do exame que detecta sangue oculto nas fezes, associado à análise do histórico familiar. Uma vez confirmada a suspeita, é possível realizar o diagnóstico precoce por meio do exame de colonoscopia, que permite a detecção de lesões iniciais (pólipos) e sua remoção, impedindo que a doença progrida e se dissemine.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.