
A banda Ave Sangria em 2019
Após cinco décadas, a banda Ave Sangria recebeu indenização pela perseguição e censura sofridas durante a ditadura militar (1964-1985). A Comissão da Anistia vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania julgou o caso em 26 de março.
Além de um pedido de desculpas formal ao conjunto pernambucano, a decisão concedeu uma pensão mensal e vitalícia de R$ 2.000 aos integrantes e um valor retroativo – a ser calculado – pelo prejuízo da repressão.
“Depois de décadas, o Estado brasileiro reconhece oficialmente o erro: a censura que interrompeu a trajetória da banda nos anos 70 não foi só um ataque à música, foi um ataque à liberdade. O disco de 1974, que ousou existir em um tempo de silêncio imposto, agora volta também como símbolo de resistência”
Ave Sangria
banda, em publicação no Instagram em 2 de abril
Os integrantes da Ave Sangria foram um dos primeiros artistas a serem indenizados por perseguições do Estado brasileiro durante o regime militar. O álbum homônimo da banda pernambucana começava a fazer sucesso quando censores proibiram a música “Seu Waldir” (1974) de tocar nas rádios e recolheram os discos, sob a alegação de incentivo à homossexualidade.
Neste texto, o Nexo apresenta o caso da Ave Sangria, explica como a ditadura militar censurava artistas e mostra quais deles já foram indenizados pelo Estado brasileiro.
A Ave Sangria foi um dos principais representantes do Udigrudi, movimento musical recifense de contracultura da década de 1970. A banda também fez parte do rock psicodélico nordestino, ao lado de artistas como Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho. Eles mesclavam elementos dos hippies e da Tropicália com características sertanejas.
Originalmente, a banda era chamada de Tamarineira Village, em homenagem a um bairro do Recife e ao Greenwich Village, em Nova York – importante região da contracultura americana. Há relatos de que o nome de Ave Sangria foi dado por uma cigana, enquanto outros dizem que foi o vocalista Marco Polo quem a nomeou. Também é uma associação com a oração religiosa Ave Maria.
Além de Polo, a formação original da Ave Sangria era composta pelo baixista Almir de Oliveira, os guitarristas Ivinho e Paulo Rafael, o baterista Israel Semente e o percussionista Agrício Noya. Todos tinham aspectos andróginos e faziam performances teatrais.
O lançamento de “Ave Sangria” aconteceu em 1974 pela gravadora Continental, com letras psicodélicas sobre o uso de drogas e relações com o diabo.
A canção “Seu Waldir”, por sua vez, conta a história de um jovem apaixonado por um homem mais velho. A atriz Marília Pêra (“Pixote: a Lei do Mais Fraco”) pediu para que Polo a compusesse para integrar a trilha sonora da peça “A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato”, de Bráulio Pedroso.
“Seu Waldir” teve uma rápida ascensão, sendo a oitava música mais tocada na Rádio Globo do Nordeste, em agosto de 1974 – um mês após o lançamento do disco. A canção chocou a sociedade brasileira pela temática gay, com os militares obrigando o recolhimento do disco das lojas.
Como consequência, a Continental cancelou o contrato e a Ave Sangria parou as atividades por 40 anos.
Apesar do curto período, o estilo da Ave Sangria inspirou diversos artistas nacionais, como o conterrâneo Chico Science, criador do manguebeat nos anos 1990. Ney Matogrosso também teve problemas com a ditadura militar ao interpretar “Seu Waldir” em show em 1976.
A Ave Sangria retomou as atividades em 2014, em shows para celebrar os 40 anos da estreia do conjunto pernambucano. Quatro dos seis integrantes da formação original estavam nessas apresentações: Marco Polo, Almir de Oliveira, Ivinho e Paulo Rafael.
Israel Semente morreu em 1990, enquanto Agrício Noya estava internado por um AVC (acidente vascular cerebral) – o percussionista faleceu no ano seguinte. Eles foram substituídos, respectivamente, por Junior do Jarro e Gilú do Amaral. O baixista Juliano Holanda também se juntou ao grupo nas apresentações comemorativas.
Em 2019, Marco Polo, Almir de Oliveira e Paulo Rafael lançaram o segundo disco da Ave Sangria – Ivinho morreu em 2015. O álbum “Vendavais” apresentou músicas inéditas compostas entre 1972 e 1974. A faixa de abertura foi o primeiro videoclipe da história da banda.
Desde então, Marco Polo e Almir de Oliveira seguem se apresentando em shows pelo Brasil. O guitarrista Paulo Rafael morreu em 2021. Em 2023, a Ave Sangria foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Recife.

Show da Ave Sangria no Carnaval de Olinda de 2024
A instauração do AI-5 (Ato Institucional nº 5), em 13 de dezembro de 1968, deu início ao período de maior repressão da ditadura militar brasileira. Por meio dele, os militares atribuíram para si poderes de exceção, abrindo um período de repressão política marcado pela perseguição a adversários políticos, prisão, tortura, execuções e censura à imprensa e às artes.
O Conselho Superior da Censura foi criado um mês antes. Vinculado ao Ministério da Justiça, o órgão era responsável por analisar obras e identificar possíveis desvios da ordem político-moral vigente.
Os artistas passaram a ter que driblar os censores para fazer músicas de protesto ou sátiras ao regime, bem como para falar de temas polêmicos como sexualidade ou drogas. “Cálice” (1973), de Chico Buarque e Gilberto Gil – interpretada também por Milton Nascimento posteriormente –, é um dos grandes exemplos da tentativa de despistar os militares, com semelhança com o termo imperativo “Cale-se”.
O AI-5 teve dez anos de vigência, até outubro de 1978. No entanto, a censura só foi efetivamente encerrada com a promulgação da Constituição Cidadã de 1988.
A Lei nº 10.559/2002 determinou a reparação econômica dos perseguidos pela ditadura militar. O orçamento federal destinado a essa indenização teve uma queda vertiginosa em uma década, passando de R$ 36,2 milhões (corrigida a inflação) em 2014 para R$ 1,5 milhão em 2024.
A indenização costuma ser alvo de desinformação, especialmente com notícias falsas sobre artistas consagrados da MPB (Música Popular Brasileira) supostamente beneficiários. Em 2018 e 2019, as agências de verificação Fato ou Fake, do grupo Globo, e Aos Fatos destacaram que não é verdade que 20 mil pessoas recebem uma “bolsa ditadura”, incluindo nomes como Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso.
De acordo com dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, atualizados em 1º de março de 2026, já foram feitos mais de 81 mil pedidos de indenização por perseguição política desde 2001. Desse total, 40.671 (cerca de metade) foram deferidos.
Até o final de 2024, 97% dos requerimentos estavam finalizados. A maior parte das solicitações eram de ex-vereadores (32%) e integrantes das Forças Armadas (31%).
Até a decisão favorável aos integrantes da Ave Sangria, somente três artistas tinham tido seus requerimentos deferidos, segundo os dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
A atriz e deputada Bete Mendes, que denunciou a tortura do Coronel Carlos Brilhante Ustra, foi a primeira a receber a indenização, em 2007. Ao longo dos anos, também foram anistiados a artista plástica Tereza Costa Rego e o violonista Roberto Nascimento.
No julgamento que indenizou os integrantes da Ave Sangria, o conselheiro Manoel Severino Moraes de Almeida, da Comissão de Anistia, afirmou que a banda ”representa no dia de hoje a possibilidade de voltarmos ao passado, trazendo para o futuro um recado”.
“Nós não queremos que se repita no Brasil uma história como essa de jovens talentosos que se organizavam em torno de uma agenda cultural, que queriam construir um diálogo entre ritmos, apresentar uma nova forma de manifestação política e artística e tiveram sua liberdade ameaçada”
Manoel Severino Moraes de Almeida
conselheiro da Comissão de Anistia
ESTAVA ERRADO: O título da versão anterior deste texto sugeria que a banda Ave Sangria acabou. Na verdade, ela continua na ativa. A informação foi corrigida às 8h10 do dia 13 de abril de 2026.