
Imagem do Banco Master
Documentos enviados na quarta-feira (8) pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado no Senado apontaram repasses milionários do banco Master a escritórios de advocacia e empresas ligadas a políticos de diferentes frentes do espectro político brasileiro.
O caso segue desgastando os Três Poderes frente à população brasileira a seis meses das eleições – algo que pode ser aprofundado pela potencial delação de Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira.
Neste texto, o Nexo fala sobre a percepção popular em relação ao caso Master e como isso pode se refletir nas eleições.
5 frentes do caso Master
FUNDOS DE PREVIDÊNCIA
O Master realizou operações com fundos de previdência de servidores públicos estaduais e municipais. Nos estados, fundos do Amapá, do Rio de Janeiro e do Amazonas tinham aplicações no banco, além de outros 15 municípios em São Paulo, Goiânia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Alagoas e Pernambuco. Os fundos de pensão aplicaram em letras financeiras do Master, que são títulos de renda fixa para captar recursos a médio e longo prazo. Esse investimento não é coberto pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito).
NEGOCIAÇÃO COM O BRB
O BRB (Banco de Brasília), sociedade de economia mista cujo acionista controlador é o Distrito Federal, governado por Ibaneis Rocha (MDB), anunciou em março de 2025 a aquisição de 58% do capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões. Isso ocorreu quando os problemas de solvência do banco de Vorcaro já eram conhecidos no mercado financeiro. O percentual que seria adquirido correspondia a 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais da instituição. Ou seja: seria usado dinheiro público para salvar um banco à beira da falência. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovaram a operação, mas o Banco Central a vetou por dúvidas sobre sua viabilidade.
ARTICULAÇÕES COM PARLAMENTARES
Daniel Vorcaro tinha em seu celular o contato de diversos parlamentares do centrão e da direita. Para a então namorada, o banqueiro descreveu o senador Ciro Nogueira, que foi ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro (PL), como seu “grande amigo de vida”. Em 2024, o parlamentar apresentou no Senado uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) — depois rejeitada — que ficou conhecida como “emenda Master”, propondo aumentar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão em aplicações como o CDB, principal produto do banco. O deputado Filipe Barros (PL-PR) tentou apresentar a mesma emenda na Câmara.
MINISTROS DO SUPREMO
Vorcaro tem relação com ao menos dois ministros do Supremo Tribunal: Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Primeiro relator do caso Master — que tomou decisões duvidosas ao conduzir as investigações —, Toffoli vendeu sua participação no resort de luxo Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), a um fundo ligado ao banqueiro. Após pressão, ele deixou a relatoria. Toffoli nega que tenha recebido dinheiro de Vorcaro. O Master teve ainda um contrato milionário com o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci. No dia 5 de março, a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, revelou que o magistrado e Vorcaro mantinham conversas no WhatsApp, e o banqueiro o procurou horas antes de sua primeira prisão, em 2025 — Moraes nega que isso tenha ocorrido.
EMPRESAS LIGADOS A POLÍTICOS
Documentos enviados pela Receita à CPI do Crime Organizado apontam repasses milionários do Master a escritórios de advocacia e empresas ligadas a políticos — entre eles, estão o senador Jaques Wagner (PT-BA), o ex-presidente Michel Temer (MDB), o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, o ex-governador do Paraná Ratinho Jr (PSD), o ex-governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB) o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) e o ex-ministros Guido Mantega, Henrique Meirelles, Fabio Wajngarten e Ricardo Lewandowski. Todos disseram que os pagamentos se referem a serviços prestados regularmente.
O caso Master tem gerado desgaste aos Três Poderes, como mostra pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada em 26 de março. Segundo o levantamento, o Supremo Tribunal Federal é visto pela população como o mais envolvido no escândalo – 47% dos entrevistados acreditam que a corte está “totalmente envolvida” no caso. Além disso, 45% têm essa percepção sobre o Congresso Nacional. O governo federal fica um pouco abaixo.
43%
da população acredita que o governo federal está “totalmente envolvido” no caso Master, segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada em 26 de março
A pesquisa também perguntou qual grupo político estaria mais envolvido no escândalo: 39,5% entendem que os aliados de Lula estão mais envolvidos com o escândalo do Master do que os aliados de Bolsonaro (28,3%). Para 14,6%, todos estão igualmente implicados no esquema, enquanto 12,9% dizem que “principalmente o centrão” está implicado. E 4,7% não sabem responder.
Luciana Santana, professora de ciência política da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), afirmou ao Nexo que o impacto eleitoral vai depender do desenrolar do processo envolvendo o Master e de como a imprensa vai veicular as informações.
Santana citou como “exemplo problemático” o PowerPoint apresentado pela GloboNews associando o Master a Lula e outros políticos. O programa Estúdio i, do canal de TV GloboNews, exibiu em 20 de março um quadro mostrando alguns dos principais nomes dos Três Poderes como ligados a Vorcaro.
Em primeiro plano, estavam o presidente Lula, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o ex-ministro Guido Mantega e a estrela do PT, colados em Vorcaro. À margem do quadro estavam Alcolumbre, Motta, Ciro Nogueira, Rueda, Nikolas Ferreira, Moraes e Lewandowski, assim como João Doria, ex-governador de São Paulo.
Não houve distinção entre relação institucional e pessoal. Ademais, diversos nomes citados em mensagens ou em investigações foram deixados de fora.
O quadro remeteu ao PowerPoint do ex-procurador da operação Lava Jato Deltan Dallagnol, gerando críticas nas redes sociais. Após a repercussão, a jornalista e apresentadora do programa, Andréia Sadi, pediu em 23 de março desculpas ao vivo e afirmou que o material estava “errado e incompleto”.
Em 19 de março, Vorcaro assinou um acordo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal, etapa que marca o início da negociação de uma delação premiada. O advogado dele é José Luís Oliveira Lima, conhecido como Juca, que negociou a delação de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, na Lava Jato e fez a defesa do vice-presidente Walter Braga Netto no julgamento por golpe de Estado.
O empresário e pastor da Igreja da Lagoinha Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, também busca uma delação premiada. O advogado dele, Celso Vilardi – o mesmo que defendeu Bolsonaro no julgamento por golpe de Estado – está negociando uma delação premiada.
Vorcaro e Zettel foram presos em 4 de março na Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras ligadas ao Banco Master.
Entre pessoas físicas, Zettel foi o maior doador individual à campanha de Jair Bolsonaro (PL) à reeleição e à de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo de São Paulo. Foram R$ 3 milhões para Bolsonaro e R$ 2 milhões para Tarcísio.
Ademais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) viajou ao longo do segundo turno das eleições eleitorais de 2022 no jatinho de Vorcaro para fazer campanha para Bolsonaro, como revelou a coluna de Malu Gaspar, no jornal O Globo.
Em entrevista ao site ICL Notícias na quarta-feira (8), Lula afirmou que “mais gente” deveria acompanhar os depoimentos da possível delação premiada de Vorcaro, porque pode ser uma “delação comprada”. O presidente disse que é necessário “pegar a bandidagem do Vorcaro”.
Na mesma entrevista, o presidente afirmou que aconselhou Alexandre de Moraes a se declarar suspeito de julgar o caso do Banco Master para não prejudicar a biografia do magistrado.
Emerson Cervi, professor do Departamento de Ciência Política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), disse ao Nexo que, ao refletir sobre o voto, o eleitor médio leva em consideração os elementos evidentes destacados no debate público, não o fato concreto em si.
Cervi afirmou que o impacto eleitoral vai depender do tipo de cobertura midiática que será feita sobre o caso Master. Ele destacou o impacto de ideias, imagens e palavras sobre os processos cognitivos do eleitor médio, efeito chamado de priming.
A grosso modo, trata-se do efeito psicológico que as informações apresentadas no debate público provocam na avaliação da opinião pública sobre políticos.
“Em setembro, se vazar a delação relacionando o escândalo ao governo, evidentemente vai ter o efeito da decisão de votos contra o candidato do governo [Lula]. Se relaciona à oposição, a mesma coisa ocorre com o candidato opositor [Flávio Bolsonaro]”, afirmou.
O presidente Lula disse em 19 de março, num evento do PT em São Paulo, que o caso do Banco Master é o “ovo da serpente” do ex-presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.
“Eles estão tentando empurrar as costas do PT e do governo esse Banco Master. Esse Banco Master é obra, é ovo da serpente do Bolsonaro e do Roberto Campos, ex-presidente do Banco Central. E nós não deixaremos pedra sob pedra para apurar tudo o que fizeram, dando um roubo de R$ 50 bilhões nesse país”, afirmou.
Lula voltou a atribuir responsabilidade pelo escândalo a Bolsonaro e a Campos Neto – o banco foi criado em 2019, durante as gestões de ambos. O ex-presidente da República está preso e o ex-presidente do BC não tem se manifestado sobre o assunto.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro e pré-candidato a presidente, também não se manifestou diretamente sobre o escândalo do Master.
Em 11 de março, Flávio disse ao SBT News que a CPI para investigar a relação entre os ministros Moraes e Toffoli e Vorcaro é “ilegal”. Ele também chamou o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), autor do requerimento da CPI, de “hipócrita” por articular um colegiado sabendo que não vai ser instalado.
O requerimento da CPI foi protocolado em 9 de março, com 35 assinaturas. Flávio Bolsonaro assinou, mas vem criticando a tentativa de instalação do colegiado.
Santana destacou que se a eleição fosse hoje, Lula tenderia a ser mais prejudicado do que Flávio pelo caso Master, por causa do histórico de envolvimento de governos do PT em casos de corrupção, como Mensalão e Lava Jato. “Por esse lado, Lula perde mais”, disse. “Está no imaginário das pessoas que o governo Lula tem vinculação com corrupção”.
Ela explicou também que políticos do centrão e da extrema direita podem ser menos penalizados pelos eleitores porque muitos disputam eleições proporcionais. Ela acrescentou que a base eleitoral desses políticos se preocupa mais com questões locais, e não nacionais. “As pessoas estabelecem vínculos afetivos [com esses políticos] por muitas vezes terem sido beneficiadas por obras e emendas”, disse.
Cervi afirmou que o eleitor médio pode até usar o escândalo para decidir seu voto, mas não necessariamente para mudar de voto. “Dois em cada três eleitores são pouco sensíveis à mudança de voto por fatores conjunturais”, disse.
Segundo o professor da UFPR, a exposição sobre o caso tem sido assimétrica. “É o maior escândalo do mercado financeiro durante a primeira gestão do Banco Central independente. E até aqui, 90% dos políticos envolvidos são de direita”, disse Cervi, destacando, porém, que não é isso que está no debate público. “O que aparece é a relação com o Supremo e o governo”.