Por que ‘Ulisses’, de James Joyce, continua tão atual

Fotografia do escritor James Joyce

Fotografia do escritor James Joyce

Fãs do livro “Ulisses”, escrito por James Joyce, comemoram o “Bloomsday” (o “dia de Bloom”, do inglês) todos os anos no dia 16 de junho, em referência à data em que, em 1904, Leopold Bloom – protagonista da obra – saiu de casa pela manhã, cumpriu as tarefas do dia e retornou de noite.

200

é a quantidade aproximada de cidades ao redor do mundo em que o “Bloomsday” é comemorado

Ler trechos de “Ulisses” em voz alta, beber em pubs e, na Irlanda, refazer o trajeto dos personagens são algumas das maneiras de comemorar a obra que, mais de um século depois, tornou-se símbolo do movimento modernista, ainda que carregue a fama de difícil.

Neste texto, o Nexo apresenta James Joyce e “Ulisses”, explica a importância da obra para a literatura universal e mostra de que maneira seus fãs celebram o “Bloomsday”.

Quem é James Joyce

James Joyce nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1882. Em abril de 1903, depois de tentar se dedicar à medicina, iniciou a carreira literária.

Publicou seu primeiro livro, “Música de câmara”, em 1907, em Londres. A obra é uma coletânea de 36 poemas que versam sobre o amor do eu-lírico pela amada.

Em 1914, publicou “Dublinenses”, livro de 16 contos sobre personagens da classe média católica da Irlanda, incluindo suas decepções cotidianas e seu despertar sexual.

Joyce viveu com a esposa, Nora Barnacle, e seus dois filhos – Lucia e Giorgio – em Trieste, na Itália, entre 1905 e 1915. Quando o país entrou na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a família se mudou para Zurique, onde permaneceu até 1919.

Foi nesse período na Suíça que Joyce escreveu “Um retrato do artista quando jovem” (1916) – obra que acompanha Stephen Dedalus, um dos protagonistas de “Ulisses” – e a peça “Exilados” (1918).

O escritor se mudou brevemente para Paris para lançar “Ulisses”, em 1922. Ele trabalhava na obra desde 1914.

Também em 1922, Joyce começou a escrever “Finnegans Wake”, seu último livro, publicado 17 anos depois. 

A obra mistura realidade e sonho. Por ser carregada de palavras inventadas e passagens longas e desconexas, é considerada o texto mais difícil de Joyce.

28

foi a quantidade de anos que um clube de leitura dedicou para ler “Finnegans Wake”. Os integrantes leram uma página por mês de 1995 até 2023

Joyce morreu em 1941, em Zurique, vítima de úlcera duodenal perfurada e peritonite aguda.

A publicação de ‘Ulisses’

Em “Ulisses”, Leopold Bloom vaga pelas ruas para tentar se distrair da suspeita de que sua esposa, Molly, está traindo-o com outro homem. 

Além dele, são personagens de destaque Stephen Dedalus, professor numa escola e aspirante a escritor, e Molly Bloom, que protagoniza o monólogo final da obra.

A obra faz referência à “Odisseia” de Homero, cujo protagonista, Odisseu, é chamado de Ulisses nas versões latinas. Os 18 capítulos do romance adaptam a mitologia da obra grega – que apresenta os perigos enfrentados por Odisseu enquanto ele tenta voltar para casa – ao cotidiano urbano. Em “Ulisses”, por exemplo, o Ciclope da “Odisseia” é transformado num nacionalista irlandês agressivo e intolerante.

O livro foi publicado pela primeira vez pela americana Sylvia Beach, dona da livraria parisiense Shakespeare and Company.

Antes, em 1918, “Ulisses” havia chegado aos Estados Unidos a partir de publicações seriadas na revista The Little Review. A publicação foi alvo de processo depois de publicar trechos que tratavam de masturbação e sexo.

A obra foi banida, e suas cópias foram queimadas por conter “conteúdo obsceno”. Os leitores americanos só puderam comprá-la nas livrarias em 1933, quando a corte dos EUA decidiu a favor da The Little Review.

A importância para a literatura

“Ulisses” é uma das obras célebres do movimento modernista, que despontou no início do século 20.

Antes do movimento, romances realistas do século 19 – como “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, e “Dom Casmurro”, de Machado de Assis – se preocupavam em contar histórias de maneira linear, com uma sequência lógica de acontecimentos, incluindo começo, meio e fim.

O modernismo rejeitou essa forma de contar histórias, explorando a fragmentação das narrativas e passando a focar na vida íntima dos personagens. Detalhes do cotidiano que antes eram desconsiderados passaram a ter destaque. 

Essa foi uma das razões que fizeram com que “Ulisses” chocasse tanto ao ser lançado. Outra foi sua inovação na maneira de contar histórias.

“‘Ulisses’ tem uma grande flexibilidade de técnica. Cada episódio, cada cena, cada personagem demanda técnicas diferentes – às vezes novas, às vezes tradicionais, outras vezes repensadas”, disse ao Nexo Caetano Galindo, tradutor das obras de Joyce e autor de “Sim, eu digo sim”, guia para ler “Ulisses”.

“‘Ulisses’ teve um grande impacto e determinou muito do que viria a ser toda a literatura e boa parte da arte moderna do século 20, desde a poesia, com T.S. Eliot, até o cinema, com Sergei Eisenstein”

Caetano Galindo

tradutor das obras de James Joyce, em entrevista ao Nexo

Por suas inovações, “Ulisses” aparece frequentemente nas listas de “livros mais difíceis” de ler. A obra está em primeiro lugar numa listagem do tipo no Goodreads – aplicativo em que leitores podem falar sobre as últimas leituras –, seguida por “Finnegans Wake”.

Essa dificuldade fez com que surgissem diferentes guias para conduzir a leitura, como “Ulysses Annotated” (1992), de Don Gifford, e “Annotations to James Joyce’s Ulysses” (2022), de Sam Slote, Marc A. Mamigonian e John Turner, que tem o dobro de páginas do livro de Joyce.

Para Dirce Waltrick do Amarante, escritora, tradutora e professora de artes cênicas e do Programa de Pós-Graduação em Literatura da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o desafio se deve ao fato de que Joyce abre mão de guiar o leitor, preferindo, no lugar, que ele entenda o livro sozinho.

“É uma leitura em que não é preciso entender tudo, em que a identificação com os personagens não é imediata. ‘Ulisses’ exige tempo, e, em tempos de imediatismo, talvez seja importante voltar a esse romance para desacelerar”, disse Amarante, que também é autora de “Para ler Finnegans Wake de James Joyce”, ao Nexo.

O ‘Bloomsday’

O dia 16 de junho de 1924 é considerado o marco inicial das comemorações em homenagem a “Ulisses”.

Naquele ano, em 27 de junho, Harriet Shaw Weaver, patrono de Joyce, recebeu uma carta em que o escritor afirmava haver “um grupo de pessoas que observa o que eles chamam de Dia do Bloom [“Bloom’s day”, no original] – 16 de junho. Eles me enviam hortênsias tingidas de branco e azul [as cores da capa da primeira edição de ‘Ulisses’]”.

A primeira grande celebração em homenagem ao livro ocorreu em 1929. Adrienne Monnier, companheira de Sylvia Beach, organizou um almoço no Hôtel Léopold, em Paris, em 29 de junho daquele ano. O evento foi feito em comemoração aos 25 anos da travessia de Leonard Bloom.

Pessoas comemorando o "Bloomsday" em 2022

Pessoas comemorando o “Bloomsday” em 2022

A obra não recebeu novas grandes celebrações até 16 de junho de 1954, quando Patrick Kavanagh, Flann O’Brien, Anthony Cronin, Tom Joyce e outros fãs alugaram carruagens para refazer o trajeto dos personagens. Eles visitaram a torre Martello (onde se inicia o livro) e o pub Davy Byrnes (por onde Bloom também passou).

Na ocasião, o grupo comemorou a data lendo trechos de “Ulisses” em voz alta e bebendo em pubs. É dessa maneira que alguns fãs comemoram o “Bloomsday” até hoje.

Os leitores no Brasil

Nos anos 1980, no centenário de James Joyce, o “Bloomsday” começou a ganhar força ao redor do mundo.

São Paulo recebeu sua primeira edição do evento em 1988, no Finnegan’s Pub, organizado pelo escritor Haroldo de Campos e pela professora Munira Mutran. Em 1998, a celebração ocorreu no Rio de Janeiro, com a presença de Antônio Houaiss, primeiro tradutor de “Ulisses” para o português.

Atualmente, Amarante percebe que há um crescimento do grupo de leitores e estudiosos brasileiros de Joyce.

Para ela, a literatura de Joyce é contemporânea, pois os “ritmos, sons e aromas” do livro não perderam a vivacidade. “Ao contrário, tornam-se, a cada leitura, mais vibrantes e efetivos”, disse a professora.

O Brasil tem três traduções publicadas de “Ulisses” – de Houaiss, Bernardina Pinheiro e de Galindo –, além de outras duas que esperam publicação. Com elas, o país vai se tornar o com mais traduções da obra.

Galindo acredita que parte do fascínio do Brasil por “Ulisses” deriva de seus elementos de liberdade e carnavalização.

“Há a possibilidade de se libertar de estruturas prévias, elementos de festa, comicidade, liberdade, que, na minha opinião, são muito familiares para certo ideário constitutivo do Brasil”, disse o tradutor.