
José Luiz Sayão de Bulhões Carvalho
Em 9 de maio de 1826, como resultado dos debates da primeira legislatura do Brasil imperial, definiu-se a criação de uma Comissão de Estatística, sob o argumento irrefutável do senador Francisco de Assis Mascarenhas (1779-1843): “Sem termos a estatística, como conheceremos o Brasil?”. Nascia assim, oficialmente, a área de estatísticas oficiais, definida posteriormente como a produção e disseminação de informações por agências governamentais, com base em regulamentos administrativos, conceitos e definições apropriados, como forma de auxiliar o planejamento, a execução e o acompanhamento de políticas públicas. Por muito tempo, porém, o país continuaria praticamente desconhecido para seus gestores, após fazer censos incompletos ou inteiramente fracassados.
O Censo de 1920 seria um ponto de inflexão nesse cenário devido ao trabalho do médico e demógrafo José Luiz Sayão de Bulhões Carvalho (1866-1940) à frente da Diretoria Geral de Estatística (DGE). “Ele foi o responsável pelo primeiro censo realmente bem-sucedido, resultado de um trabalho hercúleo, após cinco anos de preparação”, destaca o historiador Leandro Malavota, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição formalizada em 1938, que herdou o acervo do DGE.
Até então, o país nunca havia planejado tão minuciosamente um recenseamento da população e da economia e nunca o fizera de forma tão ampla, ressalta o economista Nelson de Castro Senra, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence-IBGE) e autor de artigos e livros sobre a história da estatística no Brasil e Bulhões Carvalho.
“A visão que ele tinha da estatística era muito moderna para a época”, afirma Senra. Segundo ele, foram promovidas iniciativas pioneiras, das quais a mais importante foi a unificação do trabalho estatístico a partir da organização da coleta de dados dos estados e municípios, sob a coordenação do DGE. “Bulhões Carvalho convenceu governadores, presidentes de província e chefes de setores estatísticos dos estados a trabalharem com ele. Até então não se produzia estatística em uníssono.” O demógrafo fez palestras de esclarecimento sobre o censo e conseguiu o apoio da imprensa e da igreja na divulgação para a população. Na tabulação dos dados coletados, utilizou o que havia de melhor em tecnologia, as máquinas Hollerith.
A tabuladora mecânica criada pelo norte-americano Herman Hollerith (1860-1929) era usada no Census Bureau, principal agência estatística federal norte-americano, desde o fim do século XIX. No Brasil, a máquina – que acabaria se tornando mais conhecida pela emissão de comprovantes de rendimentos, convertendo o nome Hollerith em sinônimo de contracheque – foi essencial para o tratamento eficiente dos dados censitários dentro do prazo previsto.
Outra inovação do Censo de 1920 foi a apresentação dos resultados, com o uso de recursos visuais como gráficos, mapas, fotografias e ilustrações didáticas (ver Pesquisa FAPESP nº 289). De acordo com Senra, o emprego desses recursos já era conhecido em outros países; no Brasil, foi introduzido por Bulhões Carvalho.
O próprio demógrafo justificou a escolha do recurso gráfico em seu livro Estatística: Método e aplicação (Tipografia Leuzinger, 1933): “A utilidade dos gráficos para esclarecer ou ilustrar as estatísticas é hoje universalmente reconhecida […]. Uma simples curva, um pontilhado, a combinação de linhas coloridas, ou de colunas de vários matizes, tornam visível a influência numérica de certos fatos sociais. Suprem, às vezes, por uma noção precisa, instantânea e quase intuitiva, o comentário dos algarismos, não raro longo e enfadonho. Particularizam detalhes, dando ao mesmo tempo a ideia do conjunto”.
Os gráficos do Censo de 1920 foram também ampliados em grandes quadros e exibidos na Exposição universal comemorativa do centenário da Independência, no Pavilhão da Estatística, em 1922. A imprensa da época apelidou o local de “Pavilhão da Ciência da Certeza”.
Bulhões Carvalho nunca foi um estatístico graduado – o primeiro curso de formação universitária em estatística no Brasil surgiria apenas em 1953, com a criação da Ence. Ele era um médico – mais especificamente, um demógrafo sanitarista. Carioca, formou-se em 1888 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nessa época, a estatística já era bastante usada no estudo e combate de epidemias, como febre amarela, varíola e peste bubônica.
Em 1892, ele entrou para o serviço público como comissário da Inspetoria Geral de Higiene Pública. No ano seguinte, passou para o cargo de auxiliar na Seção de Demografia, sob a coordenação do médico Aureliano Portugal (1851-1924), pioneiro em demografia sanitária no Brasil, com quem teve um treinamento prático nessa área. Também em 1893 ele começou a publicar artigos na revista Brasil-Médico sobre as condições sanitárias da cidade do Rio de Janeiro. Em 1894, ocupou seu primeiro cargo de chefia, à frente da Seção de Demografia do recém-criado Instituto Sanitário Federal. Em um de seus relatórios, ele detalhou, com dados estatísticos, as razões da alta mortalidade pela peste bubônica, febre amarela e varíola.
Em 1907, assumiu o comando da DGE sob grandes expectativas. A estatística brasileira tinha, então, um histórico de lacunas e insucessos que o órgão tentava superar desde que fora criado, em 1871. Em 1852, um censo instituído juntamente com a obrigatoriedade de registro civil despertara um levante popular, especialmente em Pernambuco e Alagoas, que ficaria conhecido como Revolta dos Marimbondos. Dizia-se que o governo pretendia escravizar homens pobres livres e reescravizar libertos. Segundo Senra, em seu livro Uma breve história das estatísticas brasileiras (1822-2002) (IBGE, 2009), “o povo, armado de ‘bacamartes, chuços, cacetes e facões’, gritava contra a lei e ameaçava as autoridades”. O governo imperial recuou e suspendeu a aplicação dos decretos.
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O primeiro e único censo do Império ocorreu em 1872, já sob a gestão da DGE, criada para esse fim. O Brasil acabava de sair da Guerra do Paraguai (1864-1870), que havia revelado, de forma contundente, a carência de informações: faltavam dados sobre recursos humanos, estoques de alimentos e cartografia confiável, essenciais aos esforços de guerra. Segundo Malavota, os resultados desse censo foram considerados razoáveis, dada a inexperiência e a falta de recursos técnicos.
Em 1890, foi feito o Recenseamento Geral da República. Em meio à instalação de um novo regime, as instabilidades políticas, com levantes em várias partes do país, desorganização administrativa e falta de recursos comprometeram a qualidade do trabalho. E o Censo de 1900 seria ainda pior, como resultado da falta de recursos humanos e financeiros. “No Distrito Federal, teve de ser anulado, pela falta de confiabilidade”, relata o historiador. Foi necessário refazer o trabalho no Distrito Federal [Rio de Janeiro] em 1906; Bulhões participou da comissão organizadora desse novo recenseamento, antes mesmo de assumir a direção da DGE, no ano seguinte. “Ele entrou com a missão de fazer uma ampla reforma na DGE e estabelecer um sistema estatístico efetivo”, diz Malavota. Ao se aproximar o centenário da Independência, havia também uma pressão social, expressa sobretudo pela imprensa, por dados confiáveis que refletissem a realidade do país – o que explica o prestígio conquistado pelo organizador do Censo bem-sucedido de 1920.
Em 1925, Bulhões Carvalho participou, em Roma, da 16ª reunião do International Statistical Institute (ISI), na qual relatou o trabalho feito no Censo de 1920. Dois anos depois, em outra reunião do ISI, no Cairo, Egito, fez uma exposição sobre acidentes no trabalho e registro civil de óbitos e nascimentos no Brasil. Ele ainda planejou um recenseamento em 1930, que não se concretizou devido à revolução que encerrou a Primeira República. A DGE foi extinta pelo governo Vargas, em 1931, e o demógrafo sanitarista resolveu se aposentar do serviço público. Mas continuou como nome de referência para o setor.
O demógrafo morreu em 1940 e nunca se casou ou teve filhos. O advogado e estatístico Mário Augusto Teixeira de Freitas (1890-1956), idealizador e primeiro secretário-geral do IBGE, e o advogado e diplomata José Carlos de Macedo Soares (1883-1968), então presidente do IBGE, pediram a Getúlio Vargas (1882-
-1954) para que os sobrinhos dos quais ele cuidava desde a morte do irmão fossem nomeados seus herdeiros. “Esse fato reflete o prestígio que Bulhões conservou com esse grupo”, relata Malavota.
Segundo Senra, o primeiro censo realizado pelo IBGE, em 1940, dois anos após a criação da instituição, “seguia muito de perto os passos de Bulhões adotados no Censo de 1920”. Seu legado não foi apenas a metodologia sistematizada em um manual de 603 páginas: “Ficou também a crença na importância das informações estatísticas como subsídio fundamental para o exercício do poder do Estado e para a tomada de decisões da sociedade”, ressalta Malavota.
Segundo o historiador, Bulhões Carvalho e Teixeira de Freitas consolidaram o conceito que perdura até hoje como diretriz do IBGE: a natureza pública das informações. “Eles reconheciam as informações como bens públicos, que devem resultar em benefício para a população, justificando o investimento do Estado”, afirma. Decorre desse conceito o compromisso de divulgação dos dados coletados, expresso no regulamento da DGE, criado por Bulhões. O artigo 7º desse regulamento já trazia a proposta de criação regular de anuários e boletins. “Ele foi pioneiro não apenas na produção, mas na disseminação das informações”, diz o historiador.
Atualmente funcionam no Brasil 35 cursos de graduação em estatística e estima-se em cerca de 15 mil profissionais especializados nessa área em atuação no país. Hoje, com o auxílio da tecnologia, a estatística vislumbra um passo além da divulgação: a interpretação das informações obtidas, visando à elaboração de políticas públicas. Esse é um dos objetivos do projeto liderado pelo matemático Paulo de Martino Jannuzzi, professor da Ence-IBGE e diretor do Centro de Colaboração Interinstitucional de Inteligência Artificial Aplicada às Políticas Públicas (Ciap). “Temos muita informação hoje; vivemos o paradoxo da escassez de conhecimentos na abundância de dados. Os gestores precisam de um facilitador da interpretação desses dados e a IA pode ser uma grande aliada nesse sentido”, afirma.
Com a parceria da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além do apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), Januzzi tem empregado recursos de IA na formação de um acervo de políticas públicas e na criação de uma ferramenta de consulta destinada a gestores. Segundo ele, uma das vertentes do projeto é oferecer um serviço de respostas técnicas, a partir do emprego da IA generativa, capaz de gerar conteúdos, como textos, imagens, vídeos e áudios. Denominada ChatPP, Assistente de Inteligência Artificial para Políticas Públicas, essa ferramenta vem sendo alimentada com um acervo de boas práticas em gestão pública construído a partir de artigos, publicações de eventos e projetos de extensão de universidades.
Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.