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Mas, como geógrafa e especialista em sistemas de informação geográfica, tenho observado como as oportunidades para as mulheres como cartógrafas mudaram nas últimas cinco décadas. O advento de tecnologias como os sistemas de informação geográfica aumentou as oportunidades de educação, emprego e pesquisa para as mulheres, tornando a cartografia mais acessível.
A paisagem feminina
As mulheres têm sido essenciais para a forma como as pessoas veem e compreendem o mundo. O conceito da “Mãe Terra” ou da “Mãe Natureza” como o centro do Universo e fonte de toda a vida está presente em culturas indígenas de todo o mundo.
No século XX, a comunidade científica e os ativistas ambientais adotaram o termo Gaia — a deusa grega que personifica a Terra, mãe de todas as divindades — para refletir a noção da Terra como um sistema vivo. Gaia é representada como feminina e entendida como uma força orientadora na manutenção da atmosfera, dos oceanos e do clima.
A representação da Terra como mulher foi reformulada com o surgimento do nacionalismo, quando os termos “pátria” e “terra natal” adquiriram significados distintos. Pátria implicava herança e tradição, enquanto terra natal sugere local de nascimento e senso de pertencimento. Essas construções de gênero aparecem em todas as culturas.
Outro aspecto da natureza de gênero da cartografia é a maneira como os mapas usavam formas femininas para retratar características. Mapas antropomórficos do século XVI ao XIX demonstram como os cartógrafos usavam figuras femininas para retratar países europeus. Por exemplo, o mapa “Europa Regina” do cartógrafo Johannes Putsch, originalmente desenhado em 1537, estabeleceu o modelo para mapas posteriores nos quais as nações são representadas como mulheres em várias poses e diferentes estados de vestimenta — ou sem vestimenta —, embora não correspondam exatamente às formas reais dos relevos.
Europa Regina (1570)
Esses mapas refletem as mudanças nos significados culturais e políticos associados ao território e ao poder. A paisagem feminina, ou a mulher como mapa, é frequentemente usada para retratar países como ativos, agressivos ou passivos, dependendo do status do Estado-nação em relação à guerra e à paz e dos estereótipos de um país.
Tecnologia e o papel das mulheres na cartografia
Embora as contribuições técnicas das mulheres abranjam toda a história da cartografia, elas são difíceis de identificar e documentar. Mas um olhar mais atento revela a variedade de papéis que as mulheres desempenharam na cartografia.
Um dos primeiros exemplos conhecidos de um mapa feito por uma mulher data do século IV, quando a irmã do primeiro-ministro da dinastia Han na China bordou um mapa em seda.
Durante os séculos XV e XVI, as mulheres eram contratadas para colorir mapas e contribuir com detalhes artísticos nas bordas. Muitas cartógrafas usavam apenas a inicial do primeiro nome e o sobrenome, ocultando seu gênero e tornando seu trabalho difícil de rastrear.
O século XVIII trouxe o advento da impressão, o que abriu novos caminhos para as mulheres participarem como gravadoras de placas de cobre, editoras de mapas e fabricantes de globos.
No século XIX, a cartografia tornou-se parte da educação formal para mulheres na América do Norte, onde a interseção entre bordado e geografia produziu globos de tecido e mapas de linho. Mais tarde, com o acesso a papel e lápis, seguiu-se o desenho e a coloração de mapas.
A Segunda Guerra Mundial deu início a uma nova era de oportunidades para as mulheres nos Estados Unidos, pois elas foram recrutadas para preencher funções críticas no desenvolvimento cartográfico enquanto os homens eram enviados para a batalha. Conhecidas como “Millie, a cartógrafa”, ou as “donzelas do mapeamento militar”, mulheres produziam mapas topográficos, interpretavam fotografias aéreas e ajudavam a avançar a fotogrametria, o uso de fotos para criar modelos 3D da topografia da Terra.
Gladys West desenvolveu os modelos matemáticos por trás dos sistemas de GPS: embora as contribuições técnicas das mulheres abranjam toda a história da cartografia, elas são difíceis de identificar e documentar
As mulheres também supervisionaram a criação de mapas de várias maneiras.
As sociedades matriarcais indígenas expressavam informações espaciais por meio de diferentes formas de cartografia. Isso inclui canções, danças e rituais que identificavam recursos comunitários importantes, como nascentes, bosques sagrados e rotas de migração.
O desenvolvimento da cartografia europeia foi impulsionado pela Era dos Descobrimentos, do século XV ao XVII, e pelas atividades empreendedoras associadas à reprodução e venda de mapas. As mulheres frequentemente assumiam essas funções após a morte de seus maridos, garantindo a continuidade dos negócios familiares.
Não apenas os reis, mas também as rainhas determinavam quais mapas eram necessários. Por exemplo, a Rainha Elizabeth I encomendou o Atlas da Inglaterra e do País de Gales de 1579, um dos primeiros atlas nacionais. Ele apresentava um mapa de todo o país, acessível de casa ou de uma sala de leitura.
Mulheres definindo a direção dos mapas
Enquanto os primeiros mapas posicionavam as mulheres principalmente como figuras simbólicas para projetar significado político ou como apoiadoras de grandes empreendimentos cartográficos, a cartografia contemporânea revela uma dinâmica diferente entre gênero e mapas: há uma falta de dados geográficos sobre questões que afetam as mulheres, incluindo saúde, segurança e planejamento para o futuro.
Estudos demonstraram que o desenvolvimento de tecnologias geoespaciais e plataformas de mapeamento aberto é dominado por homens. Em situações como desastres, ter uma diversidade de perspectivas na elaboração de mapas é essencial para atender às necessidades da comunidade.
A criação de mapas que reflitam especificamente as necessidades das mulheres é fundamental para que elas participem plenamente da cartografia do século XXI. Na última década, vários programas e organizações têm trabalhado para refletir as contribuições das mulheres à cartografia e demonstrar como a ação coletiva pode fazer a diferença.
Por exemplo, a African Women in GIS organiza workshops para elevar as perspectivas e as necessidades de mapeamento das mulheres, colocando a tecnologia de mapeamento móvel nas mãos de mulheres. A GeoChicas e a YouthMappers’ Let Girls Map capacitam as mulheres a fazer mapas por meio de treinamento e educação que abordam a exclusão digital. Women in GIS e Women+ in Geospatial constroem uma comunidade de criação de mapas por meio de redes profissionais. A Equipe Humanitária OpenStreetMap amplifica as vozes das mulheres para informar abordagens geoespaciais para a criação de mapas e empoderar as contribuições das mulheres na criação de mapas.
Nunca houve tantas oportunidades para as mulheres participarem na criação de mapas, e nunca o papel das mulheres na criação de mapas foi tão importante para abordar as questões difíceis que sociedades enfrentam em todo o mundo.