Como o Brasil aparece nos arquivos de Epstein

Jeffrey Epstein durante depoimento à polícia em 2008

Jeffrey Epstein durante depoimento à polícia em 2008

Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado que morreu em 2019, revelam interesses do americano no Brasil.

Os arquivos indicam que ele mantinha um CPF (Cadastro de Pessoa Física) ativo na Receita Federal e discutiu, em uma troca de mensagens de 2011, a possibilidade de obter a naturalização brasileira. Os documentos também apontam a existência de uma rede de aliciadores que atuava no país, recrutando mulheres e meninas e buscando adquirir empreendimentos ligados à indústria da moda.

Neste texto, o Nexo reúne as informações conhecidas até agora sobre a relação de Epstein com o Brasil.

O CPF de Epstein

Documentos divulgados em 30 de janeiro pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o caso Epstein indicam que o americano — condenado, entre outros crimes, por tráfico sexual de menores — tem um CPF brasileiro, como revelou o site ICL Notícias na quinta-feira (12).

Dados da Receita Federal mostram a existência de um documento em nome de Jeffrey Edward Epstein, emitido em 23 de abril de 2003 e em situação regular. O registro traz a data de nascimento do americano: 20 de janeiro de 1953.

O período da inscrição coincide com a época em que Ghislaine Maxwell, considerada cúmplice de Epstein e condenada por aliciamento de menores para exploração sexual, trocou emails com um empresário brasileiro a respeito de uma viagem do casal ao Brasil entre o fim de 2002 e o início de 2003, segundo o site BBC Brasil.

Situação cadastral do CPF de Jeffrey Epstein. Consulta feita em 13 de fevereiro de 2026

Situação cadastral do CPF de Jeffrey Epstein. Consulta feita em 13 de fevereiro de 2026

A Receita Federal permite que estrangeiros sem residência no Brasil solicitem inscrição no CPF. O documento é necessário para abrir contas bancárias, realizar operações na bolsa de valores em nome de pessoa física e adquirir bens.

O órgão não fornece ao público detalhes sobre o CPF de terceiros — nem mesmo a confirmação de sua autenticidade —, apenas ao titular da inscrição ou a seu representante legal.

Em nota ao site G1, a Receita informou que medidas relacionadas ao CPF de pessoas mortas só podem ser solicitadas por inventariante, cônjuge ou sucessor legal — quando há bens a inventariar no Brasil — ou por cônjuge, parente ou beneficiário de pensão por morte, nos casos em que não há bens.

A ideia de naturalização brasileira

Em troca de e-mails em 5 de outubro de 2011, a empresária alemã Nicole Junkermann mencionou a Epstein a possibilidade de ele obter cidadania brasileira. 

“O que você acha de tirar a cidadania brasileira?”, escreveu. No mesmo dia, ele respondeu: “Ideia interessante. No entanto, vistos podem ser um problema, quando viajar para outros países”. 

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Na mensagem, o americano sugeriu um encontro numa unidade do Hotel Ritz — não há indicação de qual.

Também não está claro em que contexto Junkermann fez a sugestão sobre a cidadania brasileira. A conversa ocorreu dois anos depois de Epstein cumprir 13 meses de prisão, entre 2008 e 2009, por exploração sexual de menores.

Em declaração ao site britânico The Tab, uma porta-voz de Junkermann disse que o bilionário a “enganou e induziu ao erro” e acrescentou que ele cometeu crimes “terríveis”.

A rede de aliciadores

Reportagem da BBC Brasil revelou que uma ex-funcionária de Epstein disse, em depoimento prestado às autoridades americanas em 2010, que ele viajava com frequência ao Brasil para visitar clientes. Segundo ela, quando estava no país, o americano contatava uma mulher — não identificada — que lhe apresentava garotas, inclusive menores de idade.

No mesmo depoimento, a ex-funcionária citou o agenciador de modelos francês Jean-Luc Brunel como intermediário de Epstein no Brasil.

Brunel e Epstein fundaram, nos anos 2000, a agência de modelos MC2. De acordo com investigações do FBI, a polícia federal americana, a empresa funcionava como fachada para recrutar meninas estrangeiras para seus esquemas.

O depoimento que relacionou Epstein e Brunel ao Brasil pode ter sido prestado por Maritza Vásquez, ex-contadora da MC2. Segundo ela, Epstein pagava pelos vistos, emitidos pela agência, e as jovens ficavam em apartamentos controlados pelo bilionário.

O jornal O Estado de S. Paulo tentou mapear a rede de aliciadores de Epstein a partir dos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça americano. Os arquivos indicam que Brunel e o músico britânico Ramsey Elkholy agiram com o mesmo modus operandi em diversos países — inclusive no Brasil — em busca de mulheres, algumas menores de idade, que eram apresentadas a Epstein e levadas aos EUA. Eles também miravam empreendimentos ligados à indústria da moda para facilitar o acesso às vítimas.

Além deles, uma mulher brasileira, que havia sido vítima de Epstein, ajudou o magnata no recrutamento de novas mulheres. Seu nome não foi revelado.

Em 2006, Brunel levou ao menos quatro meninas para Nova York, duas delas com idade entre 15 e 17 anos. Isso indica que, antes da prisão em 2008, Epstein já mantinha contato com brasileiras menores de idade.

Segundo o Estadão, o recrutamento de brasileiras se intensificou entre 2012 e 2016, com a atuação de Brunel. Elkholy apareceu em 2010, um ano após Epstein deixar a prisão, apresentando mulheres ao americano. Ele voltou a atuar em 2013 e passou a realizar buscas ativas.

Em 2016, Elkholy sugeriu a compra de 50% da revista de moda L’Officiel Brasil para ter acesso a garotas, ainda segundo o Estadão. Também propôs a aquisição de uma agência de modelos no Brasil, citando empresas como Elite, Ford Models e L’Équipe, além da revista Harper’s Bazaar, segundo o jornal O Globo. Nenhuma das negociações avançou.

Os últimos registros de atuação de recrutadores no Brasil são de 2019, ano da prisão e morte de Epstein. Na ocasião, Brunel discutiu a compra de uma agência de modelos em Brasília, mas o negócio não se concretizou.

O Ministério Público Federal abriu investigação sobre o aliciamento de brasileiras pelo americano.

Brunel foi preso na França em 2022, sob a acusação de estupro de menor e assédio sexual, e se matou meses depois. Ainda não está claro se Elkholy é alvo de investigação.

O contexto da divulgação dos documentos

O Departamento de Justiça americano divulgou em 30 de janeiro milhares de documentos do caso Epstein. A liberação ocorreu após a Câmara dos Representantes dos EUA aprovar, em novembro de 2025, a lei de transparência desses arquivos, posteriormente confirmada pelo Senado e sancionada, sob pressão, por Trump.

A Comissão de Supervisão da Câmara dos EUA obteve parte do material e o divulgou à imprensa em novembro de 2025, com os nomes de vítimas suprimidos. A iniciativa aumentou a pressão sobre o governo Trump.

Durante a campanha eleitoral de 2024, o republicano prometeu à sua base eleitoral mais radical, simpática a teorias conspiratórias, que divulgaria os arquivos caso fosse eleito. A morte de Epstein por suicídio é alvo de teorias que sugerem queima de arquivo devido às relações que ele mantinha com autoridades.

Eleito, Trump resistiu à divulgação. Os arquivos trazem diversas menções a ele, além de outros políticos, empresários e figuras públicas. As revelações têm provocado investigações e renúncias em diferentes países da Europa.

Trump e Epstein foram amigos por mais de 15 anos, entre as décadas de 1980 e 1990, e estiveram juntos em diversas festas. O rompimento ocorreu em meados dos anos 2000, após uma disputa pela negociação de um imóvel na Flórida.

Um dos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça registra que, na época do rompimento, Trump disse à polícia de Palm Beach, na Flórida, que “todo mundo já sabia” o que Epstein fazia. “Graças a Deus que vocês estão parando ele”, teria dito.