Qual é a situação de Carla Zambelli, no Brasil e na Itália

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) em sessão na Câmara dos Deputados. Ela é uma mulher branca, ruiva, usa óculos de grau, blusa azul e fala em um microfone

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) em sessão na Câmara dos Deputados

Carla Zambelli (PL-SP) renunciou neste domingo (14) ao cargo de deputada federal. Adilson Barroso (PL-SP), suplente da parlamentar, tomará posse do posto.

Na sexta-feira (12), a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal havia confirmado, por unanimidade, a decisão de Alexandre de Moraes que determinou a perda imediata de seu mandato, anulando a votação da Câmara dos Deputados que rejeitou a cassação da parlamentar.

Zambelli foi condenada a 10 anos de prisão pelo Supremo por ter invadido sistemas da Justiça. A deputada fugiu para a Itália em junho, onde foi presa pelas autoridades locais. Com o trânsito em julgado da decisão, o tribunal determinou que a Mesa Diretora da Câmara declarasse a perda de mandato da parlamentar.

Neste texto, o Nexo explica a situação da parlamentar no Brasil e na Itália.

As condenações

Carla Zambelli foi condenada duas vezes no STF em 2025. 

Em maio, o Supremo condenou a deputada federal a dez anos de prisão, perda imediata de mandato e multa de R$ 2 milhões por danos morais e coletivos pelos crimes de invasão a dispositivo informático e falsidade ideológica. Zambelli invadiu o sistema do CNJ com ajuda do hacker Walter Delgatti Neto. 

Segundo a denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República), entre agosto de 2022 a janeiro de 2023, Delgatti, sob o comando da parlamentar, adulterou dados de documentos como certidões, mandados de prisão, alvarás de soltura e quebra de sigilos bancários para prejudicar a administração do Judiciário. 

O hacker inseriu um mandado de prisão falso, onde o ministro Alexandre de Moraes ordenava a própria prisão por “litigância de má fé”. 

Delgatti ao lado de Zambelli

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) e o hacker Walter Delgatti

O documento, escrito como de fosse Moraes, determinava a “remessa de todos os inquéritos de censura e perseguição política, em curso no Supremo para o CNJ, a fim de que me punam exemplarmente. Diante de todo o exposto, expeça-se o competente mandato de prisão em desfavor de mim mesmo, Alexandre de Moraes. Publique-se, intime-se, e faz o L”, diz o trecho da falsa decisão. 

Em outubro, o plenário do STF condenou Zambelli pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal, com pena de 5 anos e 3 meses de prisão, em regime inicial semiaberto, pagamento de multa de 400 salários-mínimos vigentes à época dos fatos e perda do mandato parlamentar após o trânsito em julgado. 

Na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2022, Zambelli perseguiu, com arma em punho, o jornalista Luan Araújo no bairro Jardins, em São Paulo. A parlamentar alegou legítima defesa e disse que foi difamada por Araújo, que teceu críticas a ela. Com a confusão, Araújo fugiu, entrou em um bar e populares intervieram na situação. 

Imagens da deputada bolsonarista Carla Zambelli armada perseguindo um homem nas ruas dos Jardins, em São Paulo

Carla Zambelli armada perseguindo homem nas ruas dos Jardins, em São Paulo

Segundo o relator do caso, ministro Gilmar Mendes, ao apontar um revólver contra um jornalista desarmado, Zambelli “reduziu a capacidade de resistência da vítima e lhe causou fundado temor quanto à sua integridade física”. De acordo com o ministro, o Estatuto do Desarmamento proíbe porte ostensivo de arma de fogo e sua utilização em espaços públicos, o que ocorreu na ocasião. 

O episódio, às vésperas do pleito presidencial, abalou a extrema direita na época – Jair Bolsonaro (PL) atribuiu ao caso a sua derrota para Luiz Inácio Lula da Silva. 

“Aquela imagem da Carla Zambelli da forma que foi usada, perseguindo o cara lá. Teve gente que pensou: ‘olha, o Bolsonaro defende o armamento’. Mesmo quem não votou no Lula, anulou o voto. Ela tirou o mandato da gente”, afirmou o ex-presidente em entrevista ao podcast Inteligência Limitada, em março. 

A situação na Itália

No dia 3 de junho, duas semanas depois de ser condenada pela primeira vez pelo Supremo, veio à tona que Carla Zambelli havia fugido do Brasil. Primeiro, a deputada viajou para a Argentina, depois seguiu aos Estados Unidos e, por fim, para a Itália – ela tem cidadania italiana e, por isso, escolheu o país. 

A parlamentar concedeu entrevista para a rádio Auriverde e disse que estava fora do país “já faz alguns dias”. Em uma outra entrevista, à CNN Brasil, Zambelli afirmou que, por ter cidadania italiana, seria “intocável” no país europeu.

Em 4 de junho, Moraes decretou a prisão preventiva da deputada, bloqueio de bens e a inclusão de seu nome na lista vermelha de procurados pela Interpol, atendendo a um pedido da PGR. A Procuradoria alegou no pedido que não pretendia antecipar o cumprimento da pena, mas assegurar a devida aplicação da lei penal. 

O ministro do STF, Alexandre de Moraes, em sessão na corte. Ele é um homem careca, está sentado, usa terno e arruma a gravata com uma das mãos

O ministro do STF, Alexandre de Moraes, em sessão na corte

No dia 11 do mesmo mês, o pedido de extradição de Zambelli foi oficializado – a medida de cooperação internacional consiste na entrega de uma pessoa investigada, processada ou condenada por um ou mais crimes a outro país.

Zambelli seguiu foragida na Itália até o dia 29 de julho, quando foi presa. A defesa da deputada questionou a prisão cautelar e pediu a soltura ou prisão domiciliar, mas todos os pedidos foram rejeitados pela Corte de Apelação de Roma. 

Desde então, a deputada está detida no presídio feminino Rebibbia, na periferia de Roma, enquanto aguarda o término do processo de extradição. Em outubro, o Ministério Público da Itália emitiu um parecer favorável à extradição de Zambelli ao Brasil. 

Cabe à Corte de Apelação de Roma decidir se todos os requisitos necessários para a extradição foram preenchidos. Audiências sobre o caso têm sido adiadas. Mesmo que Zambelli perca, a defesa pode entrar com outros recursos. 

A salvação na Câmara

Após a primeira condenação da deputada, em maio, a Câmara dos Deputados suspendeu os vencimentos e as verbas de gabinete de Carla Zambelli, seguindo a decisão judicial do Supremo.

Embora não recebesse salário, o gabinete ligado ao mandato da deputada seguia formalmente ativos e gera custos com o salário de servidores e manutenção.

R$ 460 mil

é o custo mensal com servidores e cota parlamentar com os gabinetes de Carla Zambelli e dos deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ), que também fugiram do Brasil para não responder a processos judiciais, segundo levantamento do jornal O Globo 

O STF determinou ainda que a Câmara declarasse a perda de mandato da deputada. Na época, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que seguiria a decisão e que não caberia levar o caso para apreciação dos deputados. Na sequência, recuou e remeteu o caso à CCJ. 

Conforme explicou ao Nexo o advogado Clóvis Alberto Bertolini, doutor em Direito do Estado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), a Constituição prevê duas situações distintas para parlamentares condenados na Justiça. 

De forma geral, quando um parlamentar é condenado por crime comum, a perda do mandato depende de decisão da própria Câmara dos Deputados –  é a interpretação dominante construída pelo STF ao longo dos anos.

Existe uma exceção reconhecida pelo próprio Supremo, que é quando a pena imposta é em regime inicial fechado. Como isso torna o exercício do mandato impossível, é descumprida a regra que afirma que a ausência de mais de 1/3 das sessões gera perda automática do cargo. Por isso, a perda do mandato pode ser declarada diretamente pelo STF, e cabe à Mesa Diretora da Câmara apenas formalizar o ato.

“No caso específico de Carla Zambelli, o STF entendeu que se trata exatamente dessa hipótese excepcional, pois a pena fixada é de 10 anos em regime fechado, o que torna inviável sua presença mínima nas sessões legislativas. Por isso, a decisão determinou a perda do mandato e comunicou a Câmara, que agora deve apenas proceder à declaração formal, sem deliberação política”, afirmou Bertolini. 

Motta contrariou o entendimento, adotando a regra geral para o caso de Zambelli. Ele seguiu uma norma do regimento interno da Câmara que prevê que a perda do mandato por decisões transitadas em julgada sejam decididas pelo plenário.

No parecer apresentado na CCJ em 2 de dezembro, o relator Diego Garcia (Republicanos-PR) disse que não teve acesso à prova principal de acusação e que encontrou apenas suspeitas. O deputado desqualificou o hacker Walter Delgatti: disse que ele foi considerado um “mentiroso contumaz” pela Polícia Federal e que, por isso, seu depoimento não é confiável. 

O deputado federal Diego Garcia (Republicanos-PR) em sessão na CCJ. Ele está sentado, usa terno azul e está de braços cruzados

O deputado federal Diego Garcia (Republicanos-PR) em sessão na CCJ

Em seu relatório, Garcia criticou o STF e afirmou que há “perseguição política” contra Zambelli. 

“Onde houver sombra de incerteza, se houver lacuna de prova, que prevaleça, então, o respeito ao voto de quase um milhão de brasileiros que a elegeram” 

Diego Garcia

deputado federal (Republicanos-PR), relator do caso na CCJ da Câmara

Após o voto do relator, outros integrantes da CCJ pediram vista. Na quarta-feira (10), o deputado Claudio Cajado (PP-BA) apresentou um parecer alternativo, recomendando a perda do mandato de Zambelli por “incompatibilidade fática absoluta do encarceramento em regime fechado com o exercício do mandato.” A comissão acolheu o parecer de Cajado, por 36 votos a 2.

“Como alguém pode exercer o mandato estando recluso em regime fechado? O mandato exige presença, comparecer ao Plenário e participar de comissões” 

Cláudio Cajado 

deputado federal (PP-BA), que apresentou um relatório alternativo na CCJ da Câmara

O caso então foi para votação do plenário no mesmo dia. Na tribuna, o advogado de Zambelli, Fábio Pagnozzi, afirmou que a deputada estaria disposta a “renunciar ao mandato” para “não incomodar” os colegas.

Já o líder do PL, o deputado fluminense Sóstenes Cavalcante, defendeu que a Câmara rejeitasse a cassação e deixasse que a Mesa Diretora declarasse a perda do mandato quando Zambelli estourasse o limite de faltas.

A votação se encerrou no início da madrugada de quinta-feira (11). O plenário ignorou a ordem do Supremo, negou a recomendação da CCJ e salvou o mandato de Zambelli. Foram 227 votos contra a cassação e 110 a favor.

A decisão de Moraes

Após a votação, Moraes anulou na quinta-feira (11) a decisão da Câmara, dizendo que ela “ocorreu em clara violação” à Constituição. A Primeira Turma do Supremo confirmou a determinação do ministro no dia seguinte.

“Em respeito à Constituição Federal, é o Poder Judiciário quem determina a perda do mandato parlamentar condenado criminalmente com trânsito em julgado, cabendo à Mesa da Câmara dos Deputados, nos termos do §3º do artigo 55 da Constituição Federal, tão somente DECLARAR A PERDA DO MANDATO, ou seja, editar ato administrativo vinculado”

Alexandre de Moraes

ministro do Supremo Tribunal Federal, em decisão publicada na quinta-feira (11)

A decisão irritou a oposição bolsonarista. Líder do PL na Câmara, o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) chamou Moraes de “ditador psicopata” e disse que, “quando um ministro anula a decisão soberana da Câmara e derruba o voto popular, isso deixa de ser Justiça e vira abuso absoluto de poder”.

O suplente Adilson Barroso (PL-SP) assume o lugar de Zambelli. O político, que ocupou a vaga de Guilherme Derrite (PP-SP) na Casa de 2023 a 2025, se apresenta como “ambientalista, bolsonarista de direita, conservador e patriota”, além de amigo dos Bolsonaro e de Nikolas Ferreira (PL-MG).

Segundo o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), a decisão de renúncia de Zambelli neste domingo (14) foi uma estratégia conjunta da defesa para evitar a cassação da deputada.