O museu em Amsterdã que só tem obras retratando gatos

Oscar, um dos moradores da Kattenkabinet

Oscar, um dos moradores da Kattenkabinet

Conhecido por sua coleção de pinturas, desenhos e esculturas que retratam diferentes raças de gatos, o KattenKabinet (“Gabinete do Gato”, em tradução livre) é um museu de arte em Amsterdã, instalado em um edifício histórico às margens do canal Gouden Bocht. Inaugurado em 1990, foi fundado pelo banqueiro Bob Meijer em homenagem ao seu gato laranja, John Pierpont Morgan.

Além de obras que retratam Morgan — como era carinhosamente chamado o gato, falecido em 1983 —, o museu reúne um acervo singular, com trabalhos de artistas como Pablo Picasso, Rembrandt, Henri de Toulouse-Lautrec, Corneille, Sal Meijer, Théophile Steinlen, Ed van der Elsken e Joze Ciuha. 

Do encontro inesperado à vida

Nascido em 1945, o holandês Bob Meijer teve a vida transformada ao conhecer, na década de 1960, o último filhote ainda não adotado de uma ninhada. O gato recebeu o nome de John Pierpont Morgan, em referência ao banqueiro sobre o qual Meijer havia lido uma biografia durante a faculdade. Ao identificar no animal características semelhantes, “peculiar, inteligente e independente”, decidiu homenageá-lo com o nome. 

 

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O gato se tornaria figura central na trajetória pessoal de Meijer, segundo o livro “It Was Een Tijdperk” (“Era uma época”), de Annelies Verbeke, lançado em 2015 em comemoração aos 25 anos do KattenKabinet.

Em depoimento reproduzido no livro, Meijer afirmou que via Morgan como um parceiro, e não apenas como um animal de estimação. Com o tempo, passaram a compartilhar a mesma rotina: o gato ocupava espaço na cama, acompanhava o dono em passeios e também durante os estudos.

A intensidade dessa relação teria contribuído para conflitos e desgastes no casamento de Meijer com sua então esposa, Barbara. Entre os pontos de tensão estavam o hábito de o gato dormir sobre o travesseiro e a realização de festas de aniversário para o animal, com convidados fantasiados de felinos e consumo de alimentos destinados a gatos.

Morgan também recebia homenagens a pedido do dono. No primeiro aniversário, ganhou um retrato pintado por uma artista chamada Betty Sandberg. No décimo, uma escultura de bronze feita por Anja Reinink, posteriormente roubada antes da inauguração do museu.

Em outra ocasião, outro artista, conhecido como Aart Clerkx, produziu um retrato de Morgan para substituir a imagem de George Washington na nota de um dólar. Um conjunto dessas cédulas foi impresso especialmente para a ocasião pelo banco Pierpont Morgan, fundado pelo banqueiro que inspirou o nome do gato. 

O aniversário do gato também motivou um concurso promovido pelo jornal holandês De Poezenkrant, em 1981. A proposta era reunir poemas dedicados a Morgan, com os melhores escolhidos para serem publicados em um livro.

Ao todo, foram cerca de 600 inscrições, das quais 50 foram selecionadas para compor a publicação. Ainda de acordo com “It Was Een Tijdperk”, o gato teria “autografado” alguns exemplares com a pata, com o auxílio do dono.

A morte de Morgan, em 1983, abalou profundamente Meijer. Segundo o livro, ele passou a contemplar com frequência a obra “Um gato em uma cadeira”, feita por Sal Meijer, uma das primeiras adquiridas após a perda. Nesse período, também visitou uma exposição sobre gatos no MET (Metropolitan Museum of Art), em Nova York. “E isso me fez perceber: é isso aí que quero”, relatou, ao considerar a criação de um espaço que preservasse a memória de Morgan.

A ideia se concretizou em 1990, com a abertura do KattenKabinet, instalado no térreo do prédio onde Meijer morava — endereço que permanece o mesmo até hoje.

Apesar do sucesso do museu, o casamento com Barbara chegou ao fim. Além dos conflitos vividos durante a vida de Morgan, a dedicação crescente de Meijer ao projeto também passou a ocupar papel central em sua rotina. A relação terminou em 1996, após 25 anos de casamento, e mais de uma década após a morte do gato.

Um edifício histórico com um acervo exclusivo

O edifício que hoje abriga o KattenKabinet foi construído em 1667 para os irmãos Willem e Adriaen van Loon, membros de uma influente família ligada às rotas comerciais holandesas da época.

No século 18, a casa passou a ser ocupada por autoridades, entre elas o advogado Engelbert François van Berckel, nomeado pensionista de Amsterdã pela prefeitura, com a responsabilidade de prestar consultas jurídicas às corporações municipais dos Países Baixos.

Décadas depois, em 1985, o edifício foi restaurado, Meijer mudou-se para o prédio e, em 1990, tornou-se a sede do KattenKabinet.

O museu abriga mais de 140 peças, entre obras doadas, adquiridas por Meijer e criações feitas em homenagem a Morgan. Grande parte do acervo está disponível no site oficial, com informações sobre o artista, a coleção e a data de cada obra.

Entre as peças históricas, destaca-se a “Múmia de gato”, pertencente à coleção Pierre Loti e datada de 1500 a.C.

 

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Na loja oficial, o museu oferece miniaturas e réplicas de algumas obras, como o pôster “Geef Een Boek” (“Me dê um livro”), de Kees Kelfkens, produzido na Holanda em 1958, e “Sandolins Paints” (“Tintas Sandolinas”), de Erik Stockmarr, criado na Dinamarca em 1950.

O site também apresenta informações sobre os artistas que participam das exposições, como Carel Willink, Donald Brun e Ed van der Elsken, incluindo um breve panorama de suas relações com gatos.

 

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Além disso, é possível fazer uma visita virtual por todos os cômodos do KattenKabinet, permitindo que o público confira a extensão e a vista que teria presencialmente.