O que o cessar-fogo representa para os EUA e para o Irã

Ataque israelo-americano destrói prédio da Universidade de Tecnologia Sharif, conhecida como 'MIT do Irã', em Teerã

Ataque israelo-americano destrói prédio da Universidade de Tecnologia Sharif, conhecida como ‘MIT do Irã’, em Teerã

Estados Unidos e Irã concordaram em se reunir no Paquistão na sexta-feira (10) para avançar com as negociações em torno de um acordo de paz. O encontro é uma consequência do cessar-fogo de duas semanas que os dois países assinaram na terça-feira (7). 

A efetividade da trégua temporária, no entanto, está sob ameaça: nesta quarta-feira (8), o Irã acusou Israel, aliado americano, de romper os termos do acordo ao atacar o Líbano, e voltou a fechar o Estreito de Hormuz – uma das condições do cessar-fogo. Segundo o governo libanês, pelo menos 254 pessoas morreram nos bombardeios israelenses.

Neste texto, o Nexo explica os termos do acordo e os pontos em discussão nas negociações de paz e traz a análise de dois professores de direito internacional sobre o que o cessar-fogo representa para os dois países. 

Recuo e cessar-fogo

Desde o início da guerra, o Irã praticamente fechou o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial e cerca de 20% do gás natural exportado por países do Golfo Pérsico. Os preços do barril da commodity dispararam, saltando de US$ 72 no fim de fevereiro para US$ 110 na terça-feira (7). 

Diante disso, desde 21 de março Trump tem feito uma série de ultimatos ao regime iraniano. O americano ameaçou atacar a infraestrutura civil do país, o que configuraria crime de guerra. Em sua ameaça mais grave, na terça-feira (7), escreveu na Truth Social que uma “civilização inteira” morreria naquela noite, o que o Irã denunciou como “potencial genocídio” na ONU. 

Naquele mesmo dia, Trump anunciou ter aceitado o acordo de cessar-fogo, que incluiria a abertura do Estreito de Ormuz pelo Irã. Ele afirmou que os Estados Unidos já haviam superado “todos os seus objetivos militares”. Depois, disse à imprensa que o acordo foi uma “vitória total e completa”.

Os objetivos americanos na guerra nunca foram claros. Mudaram diversas vezes a depender da autoridade que falava — mudança de regime ou fim dos programas nucleares e de mísseis balísticos. Embora a cúpula do regime tenha sido morta — e parte dela substituída — e diversas infraestruturas tenham sido destruídas ou danificadas, nenhum dos objetivos mencionados foi alcançado.

O Irã, por sua vez, também reivindica ter saído vencedor com o cessar-fogo. “Parabenizamos todo o povo iraniano por esta vitória”, diz um comunicado do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã. A agência estatal iraniana IRNA enfatizou no X que “o presidente dos EUA, Donald Trump, recuou mais uma vez de suas próprias ameaças’”

Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, confirmou o acordo, e disse que Teerã vai suspender ações defensivas se os ataques contra o país forem interrompidos. 

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O Irã diz ter incluído exigências para que Israel pare de atacar o Líbano no cessar-fogo, o que Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, negam. 

Nesta quarta-feira (8), o Estado judeu fez a sua maior operação militar contra o Hezbollah no Líbano, e os iranianos disseram que o acordo foi violado. O Estreito de Ormuz voltou a ser fechado.

Os 10 pontos do acordo 

“Recebemos uma proposta de 10 pontos do Irã e acreditamos que ela seja uma base viável para negociar”, escreveu Trump na Truth Social na terça-feira (7).

Segundo a agência de notícias estatal Tasnim, os 10 pontos do acordo apresentado aos EUA são:

Alguns desses pontos já haviam sido rejeitados pelos EUA no passado, como o enriquecimento de urânio e a retirada de tropas americanas de bases militares no Oriente Médio. O controle do corredor marítimo também é um ponto crítico.

Iranianos comemoram cessar-fogo nas ruas de Teerã

Iranianos comemoram cessar-fogo nas ruas de Teerã

Em tese, esses são pontos de partida para um acordo definitivo. As negociações ocorrerão sob desconfiança, visto que os EUA e o Irã estavam negociando quando os americanos atacaram o país persa tanto em junho de 2025 quanto em fevereiro de 2026.

O que representa o cessar-fogo 

O Nexo conversou com dois professores de relações internacionais para entender o que a vitória significa para os EUA e para o Irã. São eles: 

O que o acordo de cessar-fogo representa para os EUA?

GUNTHER RUDZIT O acordo de cessar-fogo mostra que o governo americano errou completamente no seu entendimento sobre a realidade iraniana. Eles efetivamente perderam essa guerra, porque o regime iraniano continua no poder e [os EUA] tiveram que claramente ceder às exigências iranianas, mesmo que venham a negar isso. 

Mas o mais importante é a percepção de que os EUA não são mais o fator de estabilização do Oriente Médio, e também do dano à sua credibilidade como superpotência efetiva globalmente. 

JOSÉ NIEMEYER O cessar-fogo diz mais sobre o governo Trump do que sobre os interesses do Estado norte-americano. Venho insistindo que a assessoria do governo Trump não necessariamente está alinhada com as estruturas do Estado: o Pentágono, o Departamento de Estado, a CIA, a NSA (agência de segurança nacional), o Departamento de Comércio Exterior… Há fogo amigo com relação a um governo que é errático e muito alternativo.

Os objetivos políticos da guerra não foram alcançados. O combustível aumentou para o consumidor americano, e isso  será colocado na conta de Trump.

O que o acordo de cessar-fogo representa para o Irã?

GUNTHER RUDZIT O regime iraniano sobreviveu. Por isso, ganhou a guerra, mas a um custo elevadíssimo. Não podemos esquecer que no início deste ano houve uma série de protestos em larguíssima escala pela realidade econômica bastante ruim que se abateu sobre o Irã depois da Guerra dos Doze Dias [em junho de 2025], que provocou uma destruição econômica bem menor do que a atual guerra. 

Portanto, as perspectivas para o regime iraniano não são muito boas daqui para frente, pois terão que lidar com uma insatisfação da população. Há de se esperar uma instabilidade muito grande na política iraniana. 

JOSÉ NIEMEYER O Irã perdeu parte da sua infraestrutura e meios militares, tanto convencionais como nucleares, mas manteve o regime e a força dos aiatolás da linha-dura. Nesse sentido, por ter sido atacado e invadido por força aérea inimiga, o Irã conseguirá transmitir a ideia de que foi vitorioso na guerra. Além disso, o país criou um novo instrumento de defesa nacional: o Estreito de Ormuz.