
Em 15 de maio, o presidente chileno José Antonio Kast, junto ao ministro de Economia e Minas, Daniel Mas, assinou um projeto de lei que simplifica o sistema de concessões de mineração
Nos planaltos áridos compartilhados por Chile, Argentina e Bolívia, uma cadeia de salinas varridas pelo vento é considerada peça central para a transição energética global. Essa região forma o Triângulo do Lítio, que concentra mais da metade das reservas mundiais conhecidas do mineral crítico para baterias de veículos elétricos e outras tecnologias de energia renovável.
No caso sul-americano, o lítio geralmente é extraído de uma salmoura encontrada a cerca de dez metros abaixo da superfície de lagos salgados. O Chile detém a maior parte dessas reservas, que estão localizadas na Cordilheira dos Andes.
O ex-presidente Gabriel Boric buscou impulsionar as receitas do setor por meio de sua Estratégia Nacional de Lítio, lançada em 2023. Porém, seus planos sofreram um revés com a eleição do ultraconservador José Antonio Kast. Desde que assumiu a presidência em 11 de março, Kast está dando uma guinada radical em relação ao lítio, deixando empresas, comunidades e investidores em um cenário incerto.
Uma das primeiras medidas do governo Kast foi unir o comando das pastas de Economia e Minas na figura do “biministro” Daniel Mas — sinal de que o crescimento econômico, a flexibilização das regras de licenciamento e a política de mineração avançarão juntas. “Nosso foco será reduzir a carga regulatória e tributária, garantindo segurança para criar um mercado competitivo e atrair novos investimentos”, afirmou Kast em campanha.
Ao mesmo tempo, Kast terá a missão de manter um delicado equilíbrio entre as relações do Chile com os Estados Unidos e a China. Tudo isso enquanto o futuro de alguns dos ecossistemas andinos mais sensíveis está em jogo.
A estratégia de Boric buscava garantir que o Chile fosse o maior produtor mundial de lítio, ao mesmo tempo em que fortalecia o papel do Estado no setor e mantinha regras ambientais rigorosas. Ela também criou uma rede para proteger 30% das salinas até 2030 — até agora, 7,7% estão sob proteção.
Em dezembro passado, os planos de nacionalização deram origem à joint venture Novaandino Litio, formada pela estatal de cobre Codelco e a gigante química chilena SQM. A empresa tem licença para operar no Salar de Atacama até 2060.
Para Francisco Urdinez, diretor do Núcleo Milênio sobre Impactos da China na América Latina, a política de Boric deve ser abandonada pela nova gestão. “No fim das contas, ela ficou inacabada no governo anterior e a atual administração não tem interesse em levá-la adiante”, disse ao Dialogue Earth.
Em uma sinalização desses novos rumos, o Ministério de Minas disse ao Dialogue Earth que o Chile não conseguiu aproveitar ao máximo as ondas recentes do lítio no mercado internacional. Em um comunicado, a pasta afirmou que seu objetivo é “garantir que os projetos sejam efetivamente desenvolvidos, usando os instrumentos criados pelo atual marco legal e proporcionando segurança aos investidores que acreditam em nosso país”.
“Sempre que um projeto não é executado ou seu processo é desnecessariamente prolongado, a possibilidade de o Chile se desenvolver, gerar empregos e melhorar a qualidade de vida das pessoas é adiada”, acrescentou o ministério.
O Chile segue em segundo lugar, atrás da Austrália, na produção global de lítio. Os dois países respondem por 59% da produção global, mas o cenário está mudando: nos últimos anos, grandes reservas foram descobertas em outros lugares e, somado à queda no preço para um quarto de seu valor em novembro de 2022, o entusiasmo na exploração do mineral reduziu.
Até agora, Kast tem buscado enfraquecer a legislação ambiental do país. Em sua primeira semana no cargo, o presidente revogou 43 decretos ambientais da gestão Boric. Isso removeu o status de proteção atribuído a algumas espécies ameaçadas de extinção e derrubou a normativa que teria dado ao Chile a quarta maior área marinha protegida do mundo. Entre os decretos revogados, seis criavam áreas protegidas em salinas e lagos dos planaltos chilenos.
Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você
As populações que vivem perto das salinas temem que o foco pró-mercado de Kast ameace esses ecossistemas, considerando que a agilização dos processos de licenciamento também pressiona a elaboração dos estudos de impacto ambiental e as consultas às comunidades. Autoridades do governo Kast têm criticado o que eles chamam de “cultura do licenciamento” em projetos de exploração de recursos naturais.
A extração de lítio da salmoura retira água dos sistemas subterrâneos que sustentam as áreas de reprodução dos flamingos. Um estudo de 2024 constatou que o Salar de Atacama (a maior planície salina do Chile) está afundando de 1 a 2 cm por ano devido à extração de lítio.
“Como resultado do aumento da evaporação da água nas piscinas de lítio, estamos observando menos cobertura vegetal, diminuição das populações de flamingos e perda de locais de nidificação, além de danos às estruturas microbianas nas zonas úmidas”, explicou a microbiologista Cristina Dorador, professora da Universidade de Antofagasta que pesquisa os ecossistemas das salinas.
A indústria está prestes a se expandir para outras salinas além do Atacama, preocupando outras comunidades: hoje, o Salar de Maricunga abriga o segundo maior depósito de lítio do Chile. A Codelco está explorando um projeto de US$ 900 milhões com a Rio Tinto, gigante britânica da mineração, e a produção deve começar em 2030.
“O complexo do Salar de Maricunga é um lugar sagrado para o povo Colla”, contou Cindy Quevedo, presidente do Conselho Nacional do Povo Colla, ao Dialogue Earth.

Ex-presidente chileno Gabriel Boric na cerimônia de assinatura do contrato para a extração de lítio no Salar de Maricunga, segundo maior depósito de lítio do Chile, em fevereiro
“Não é apenas uma salina: ele abriga biodiversidade em suas lagoas e é um importante corredor biológico onde há flora e fauna, mas também onde nosso principal apu [espírito sagrado da montanha] cuida de nós – o vulcão Copayapu”, acrescentou Quevedo.
A corrida para controlar as cadeias globais de baterias elétricas também é um fator importante para o futuro do lítio chileno. O país é pressionado pelos interesses dos EUA e da China. Por enquanto, Beijing mantém uma posição dominante nas cadeias de minerais, enquanto os EUA, sob o governo de Donald Trump, têm buscado mudar isso, particularmente na América Latina.
Kast parece ter escolhido um lado rapidamente: em seu primeiro dia no cargo, ele deixou às pressas a cerimônia de posse na cidade de Valparaíso para assinar um acordo sobre minerais críticos com os EUA. O presidente argentino e seu aliado de extrema direita, Javier Milei, também assinou um memorando de entendimento com os EUA. Mas a China é a maior compradora de cobre do Chile, o que ainda a mantém como um ator vital da economia chilena.
“Acho que o objetivo agora é usar o lítio e outros metais como moeda de troca por favores geopolíticos”, disse Urdinez. “Parte do objetivo desses memorandos [com os EUA] é impedir que a China tenha acesso a certos minerais e elementos críticos, como as terras raras”.
Independente da política adotada por Kast, o acesso ao lítio dependerá do marco regulatório definido pelo governo. Há atualmente dez projetos na fila para aprovação, e ele afirmou que vai dar sequência a esses pedidos.
Enquanto isso, as comunidades temem os efeitos de uma nova leva de investimentos no setor. “Eu moro aqui nas montanhas. Por que eu deveria ter que destruir minhas terras sagradas para fornecer soluções para pessoas em outro continente que não pararam suas emissões de CO₂?”, questionou Quevedo. “Estamos pagando as consequências socioambientais para criar uma solução para as mudanças climáticas – um problema que não criamos”.