
Familiares acompanham buscas em escombros após chuvas em Juiz de Fora/MG
O número de mortos pelas chuvas recentes na zona da mata mineira subiu para 46 nesta quarta-feira (25). Juiz de Fora e Ubá são as cidades mais afetadas pelos temporais. O governador Romeu Zema (Novo) decretou luto oficial de três dias no estado.
46
pessoas morreram após fortes chuvas em Minas Gerais; 40 óbitos são de Juiz de Fora e outros seis são de Ubá
O volume das tempestades é o maior da série histórica na região e causou deslizamentos e alagamentos em diversos bairros. Prefeitos decretaram calamidade pública, reconhecida pelo governo federal na terça-feira (24).
Neste texto, o Nexo explica a gravidade das chuvas em Minas Gerais, as medidas adotadas em resposta ao desastre e o histórico de casos no estado.
Minas é o estado mais afetado pelos temporais que atingem grande parte do Sudeste nesta semana. Regiões em São Paulo e no Rio de Janeiro também registraram alagamentos e situação de emergência em algumas cidades. Em São João do Meriti (RJ), uma mulher de 85 anos morreu afogada.
Na zona da mata mineira, as fortes chuvas começaram na segunda-feira (23) e afetaram principalmente a cidade de Juiz de Fora — que já confirmou 40 mortes e mais de 3.000 desabrigados. Em um bairro, 12 casas foram soterradas após uma encosta deslizar.
Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), fevereiro acumulou 579,3 milímetros na cidade e superou o recorde de chuvas registrado no mesmo período em 1988. É o mês mais chuvoso da história do município.
270%
foi quanto o volume de chuvas em Juiz de Fora superou o previsto para fevereiro inteiro
Ubá é outra cidade afetada pelos temporais. Lá, já são seis óbitos e mais de 200 pessoas sem acesso a suas casas. Ao jornal CNN Brasil, o vice-prefeito Cabo Rominho (PRTB) descreveu a situação como “cenário de guerra”.
Com as chuvas, o rio Ubá transbordou após atingir quase oito metros e causou inundações pela cidade. Em um lar de idosos, pessoas ficaram ilhadas e boiando sobre colchões. Segundo Rominho, a farmácia municipal perdeu todos os medicamentos. Os hospitais da cidade não foram diretamente afetados e seguem funcionando.
Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para vocêAssine nossa newsletter diária
Vizinho de Juiz de Fora, o município de Matias Barbosa também foi afetado pela cheia do córrego São Fidelis e do rio Paraibuna. Por conta dos alagamentos, a prefeitura fechou unidades de saúde e suspendeu aulas. Não houve mortos nem feridos, mas quase 200 pessoas ficaram fora de casa.
Em Senador Firmino, uma ponte que liga a cidade a outro município teve que ser interditada por risco de queda. Próxima a Ubá, a cidade ficou completamente alagada após as chuvas. Na terça (24), a prefeitura emitiu um novo alerta de risco de enchentes e suspendeu as aulas.
A prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), decretou calamidade pública por 180 dias na madrugada de terça (24). Todas as escolas do município suspenderam suas aulas e passaram a receber desabrigados. As aulas da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) também foram canceladas.
Luiz Inácio Lula da Silva, que está em viagem oficial pela Ásia, disse em comunicado que uma equipe da Força Nacional do SUS (Sistema Único de Saúde) foi encaminhada ao local, além de agentes da Defesa Civil Nacional. O governo também reconheceu o estado de calamidade pública e enviou tropas do Exército para apoio logístico nas cidades.
Em Ubá, o prefeito José Damato Neto (PSD) também decretou calamidade pública. Em Matias Barbosa, outro município em estado de calamidade, moradores iniciaram nesta quarta (25) uma força-tarefa para limpar as ruas após o recuo das águas.

Bombeiros e voluntários fazem buscas em Juiz de Fora
Para reforçar os trabalhos de resgate nas áreas críticas, o governo mineiro mobilizou mais de 20 militares de Belo Horizonte e cães especializados. Zema acompanhou o trabalho de socorristas em Juiz de Fora e em Ubá. Segundo ele, o governo estadual está direcionando apoio para limpeza de vias e atendimento humanitário.
“A cidade [Ubá] foi literalmente destruída no centro, onde o rio inundou e espalhou lama e também muita destruição”, disse o governador ao jornal local TMC nesta quarta (25). “Queremos que a cidade seja reconstruída o quanto antes.”
125
bombeiros atuam nas buscas de desaparecidos; do total, 62 estão em Juiz de Fora, 49 em Ubá e 14 em Matias Barbosa
O Inmet prevê que instabilidades no clima podem continuar até sexta-feira (27), com alto volume de chuvas. O órgão mantém o alerta para precipitações intensas, transbordamento de rios e deslizamento de encostas.
Ao jornal O Globo, o coordenador do Lapis (Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites) da UFA (Universidade Federal de Alagoas), Humberto Barbosa, disse que, apesar de novas chuvas, “o pior já passou”.
Na avaliação de meteorologistas, os temporais sobre a zona da mata mineira não são incomuns e fazem parte do “novo normal” em um contexto de mudança climática e eventos extremos recorrentes.
O estado já acumula outros episódios relacionados a chuvas intensas, deslizamentos e alagamentos. Em 2020, Belo Horizonte teve o mês de janeiro mais chuvoso já registrado em uma capital brasileira nos 30 anos anteriores. Mais de 100 cidades decretaram situação de emergência e cerca de 45 mil pessoas tiveram que deixar suas casas. O solo encharcado chegou a abrir crateras no asfalto da capital.
Na época, o Nexo conversou com o geógrafo Alessandro Borsagli, mestre em geografia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Minas Gerais. Na ocasião, ele apontou que a canalização de cursos d’água é um agravante para transbordamentos e enchentes — como os que ocorreram na zona da mata mineira na segunda (23).
“É necessário fazer uma reabilitação dos cursos d’água, o que inclui permitir uma maior permeabilidade das vertentes [faixa de terra entre o cume da montanha e o fundo do vale], criar parques ciliados ao longo dos cursos dos rios e estabelecer outras áreas verdes pela cidade. Tudo isso freia a velocidade com que a água chega aos fundos dos vales e que sai arrebentando tudo”, disse.

Escombros de casas soterradas por lama após chuvas em Juiz de Fora/MG
Mais tarde, temporais deixaram dezenas de cidades mineiras em alerta em janeiro de 2024 e janeiro de 2025. Em ambos os eventos, construções ficaram destruídas, pessoas morreram e outras ficaram desalojadas.
Em 2024, o então prefeito de Belo Horizonte, Fuad Nomam (que morreu em março de 2025), disse a jornalistas que o comum era dizer que chuvas fortes eram incomuns, “mas agora a gente tem que reconhecer que esse é o novo normal. Não adianta a gente querer fugir dessa realidade”.
Desde 2023, a política ambiental de Minas Gerais tem passado por reformas — o que entidades e pesquisadores veem como sucateamento da área e prejudicial ao bom funcionamento dos serviços públicos.
Naquele ano, Zema publicou uma série de decretos para viabilizar a reforma administrativa de órgãos públicos ligados à pasta do Meio Ambiente e afrouxou regras de fiscalização, enfraquecendo o combate a infratores e atribuindo cargos estratégicos de órgãos do setor para pessoas sem formação técnica. Na mesma toada, ações de enfrentamento a desastres após temporais intensos foram prejudicadas.
Um levantamento publicado pelo jornal O Globo nesta quarta (25) mostrou que o governo de Minas Gerais reduziu os investimentos em ações de prevenção e recuperação de danos causados por chuvas. Em 2023, foram R$ 134,8 milhões pagos, ante R$ 5,8 milhões em 2025. O governo não comentou o caso.
96%
foi a redução nos investimentos no programa de suporte a danos de chuvas, conforme apurou o jornal O Globo
Os valores, segundo a reportagem, eram destinados ao programa “Suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas”, que envolve as frentes:
Na terça (24), o vice-governador do estado, Mateus Simões (PSD), anunciou o alocamento de R$ 38 milhões a Juiz de Fora e R$ 8 milhões a Ubá, focados em ações de combate às tempestades nos municípios.