
Livros enfileirados
A pesquisa “Retratos da leitura”, divulgada em 2024, apontou uma estimativa de 47% de leitores no Brasil, contra 53% de não leitores. Foi a primeira vez que o percentual pendeu para o lado negativo entre as cinco edições do estudo, realizado desde 2001.
Apesar da queda, clubes de leitura têm ganhado espaço no Brasil. Atrizes e marcas passaram a investir na criação de suas próprias iniciativas de incentivo à leitura nos últimos anos.
Neste texto, o Nexo explica como clubes de livros surgiram e fala sobre sua popularização.
Os clubes de leitura surgiram no século 18. Na época, grupos puritanos americanos se reuniam para estudos bíblicos, e, nos salões franceses, aristocratas e burgueses se juntavam para ler e discutir novidades intelectuais.
Esses círculos eram destinados exclusivamente a homens. As mulheres começaram a criar seus próprios clubes no fim do século 19. A Sorosis, uma das primeiras sociedades do tipo, foi criada em 1868, depois que jornalistas mulheres foram impedidas de participar de um encontro da organização New York Press Clubs que iria homenagear o escritor Charles Dickens.
Além da discussão de leituras, os clubes femininos ofereciam bolsas de estudos para as participantes e foram os responsáveis por criar bibliotecas públicas comunitárias nos Estados Unidos.
Mais tarde, a leitura compartilhada se tornou um fenômeno com a apresentadora americana Oprah Winfrey. A partir de seu clube “Oprah’s Book Club”, criado em 1996, leitores passaram a discutir as obras escolhidas entre si e com os próprios autores.
A iniciativa se provou um sucesso, e frequentemente os livros escolhidos se tornaram best-sellers. O clube terminou em 2011, mesmo ano em que o programa de Winfrey foi aposentado, mas retornou em 2012, numa versão online, sem o mesmo sucesso anterior.
No Brasil, o Clube do Livro, criado por Mário Graciotti, foi uma das iniciativas pioneiras a incentivar a leitura. O projeto publicava e distribuía obras a um terço do preço das livrarias entre 1943 e 1989.
Os clubes de leitura cresceram no Brasil a partir dos anos 2000 e tiveram um novo boom após a pandemia de covid-19, em 2020.
Iniciativas com temáticas diferentes surgiram nesse período, desde projetos voltados à leitura apenas de autoras, como o Leia Mulheres, até clubes guiados por famosos, como o da cantora Dua Lipa e o da atriz Reese Witherspoon. Marcas como Chanel e Miu Miu também criaram seus próprios clubes de livros.
Para Beth Leites, jornalista, curadora e mediadora de clubes de leitura, a criação de comunidades é um dos motivos por trás da popularidade desses projetos. A variedade de iniciativas também faz com que diferentes tipos de leitores sejam contemplados.
“O legal nos clubes de leitura é tirar a noção de que há uma interpretação única para as histórias, como acontece em provas na escola – algo que não é culpa do professor, mas do sistema”, afirmou ao Nexo.
A designer Mariana Popper é frequentadora de clubes de livros. Para ela, eles foram uma oportunidade de conhecer novas pessoas quando ela se mudou para uma nova cidade.
“Ao longo de mais ou menos nove anos, tenho percebido a criação e busca por novos clubes. Acredito que o que move isso é o sentimento de busca por comunidades, já que o leitor descobre que não precisa necessariamente ler sozinho”, disse ao Nexo.
Já Débora Tavares, professora e cofundadora do projeto Livre Literatura (para divulgar e democratizar o conhecimento universitário), acredita que outro motivo para a participação é a vontade das pessoas de compartilhar o que acharam da leitura.
“Não existe autor sem público. A interpretação também faz parte da obra. Vejo pessoas dizendo ‘quem sou eu para falar do Machado de Assis?’, por exemplo, mas as leituras são válidas. Fazer a curadoria e montar o seu próprio clube do livro é válido e totalmente necessário.”
Débora Tavares, Mariana Popper e Beth Leites são fundadoras do Rolê dos Livros, iniciativa que surgiu diante dos resultados de pesquisas que apontam a redução de leitores no país.
2,07
é a média de livros lidos inteiros em um ano pelos 5.504 entrevistados da edição de 2024 da pesquisa “Retratos da leitura”
A cada edição do projeto, os participantes se encontram num lugar determinado pela equipe, como bibliotecas ou institutos, e levam seus próprios livros. O primeiro encontro ocorreu em 16 de agosto de 2025, no Mercadinho Simples, em São Paulo. A sessão de leitura é dividida em partes:
A iniciativa é diferente de clubes de livros por não exigir uma leitura obrigatória a todos. Também se difere de festas do livro feitas em outros países, onde os participantes também se reúnem e leem em silêncio, mas não compartilham suas impressões sobre a leitura.
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Tavares disse ao Nexo que a tentativa do projeto é levar a leitura para a vida das pessoas de maneira prática, ajudando-as a criar o hábito ou mantê-lo.
“Já que você está ali, você vai ter que ler em vez de mexer no celular. Serve para relembrar a capacidade que perdemos de ouvir as pessoas e de ficarmos juntos em silêncio”, disse a professora.
“Não sabíamos que tantas pessoas iriam querer ir. Percebemos que muita gente quer estar junto”, acrescentou Popper.
Leites acredita que não há uma contradição entre a queda no número de leitores e o aumento no número de clubes de leitura ou de leitura compartilhada.
“Pode parecer uma contradição se nós pensarmos numa bolha, mas há lugares em que os livros não chegam, em que não há livrarias, sebos, bibliotecas. Quando você pensa no Brasil, faz muito sentido que as pessoas não leiam, mas não é porque elas não querem, é porque elas não têm acesso”, afirmou.