
Pessoa cortando embutido
O consumo de alimentos ultraprocessados aumentou de forma consistente entre povos e comunidades tradicionais no Brasil nos últimos anos. Ao mesmo tempo, alimentos historicamente presentes na dieta dessas populações, como frutas e feijão, perderam espaço. O maior consumo de alimentos associados a padrões não saudáveis, como hambúrgueres, embutidos, bebidas adoçadas, macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote e biscoitos recheados, indica tendência de piora na qualidade da dieta. É o que mostra um estudo nacional publicado na Revista Ciência & Saúde Coletiva.
O trabalho foi coordenado pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), em parceria com pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Universidade de São Paulo (USP), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ – Ceará) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A equipe analisou dados de 2015 a 2022 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) sobre consumo alimentar dos povos e comunidades tradicionais. O conceito engloba grupos como quilombolas, ribeirinhos, agroextrativistas, pescadores artesanais e caiçaras, dentre outros, que se estabeleceram no território brasileiro após a colonização. Povos indígenas, originários do Brasil, não são vinculados ao conceito no estudo.
“Esses grupos, em sua maioria, estão inseridos em territórios rurais e cultivam os seus alimentos por meio da agricultura familiar. Quando observamos esse aumento no consumo de ultraprocessados, isso indica que o acesso a esses produtos está cada vez mais facilitado”, explica a professora e nutricionista Greyceanne Dutra Brito, doutoranda em Saúde Pública na Universidade Federal do Ceará (UFC) e principal autora do estudo. Para a pesquisadora, o baixo custo dos alimentos ultraprocessados, o apelo publicitário e questões estruturais, como a baixa renda das famílias, são fatores que podem explicar a nova tendência.
A queda no consumo de alimentos in natura ou minimamente processados também chama atenção dos especialistas. Embora o estudo não tenha investigado causas específicas, a pesquisadora aponta algumas hipóteses. “Essa mudança pode estar relacionada à redução do acesso ao território para cultivo, às mudanças climáticas e ao aumento dos preços de alimentos in natura, além da maior acessibilidade econômica dos ultraprocessados”, destaca Brito.
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Os resultados variam entre os grupos analisados, mas os pesquisadores consideram o cenário geral desfavorável. O consumo de hambúrgueres e embutidos, por exemplo, cresceu 3,87% entre crianças de 2 a 4 anos e 5,59% entre aquelas de 5 a 9 anos. Já entre adultos e idosos, além do crescimento desses produtos na dieta, foi observado aumento no consumo de verduras e legumes — um dos poucos pontos positivos identificados.
Segundo a nutricionista, o consumo frequente de alimentos ultraprocessados pode levar a deficiências nutricionais (como falta de ferro, fibras, vitaminas e minerais), além de estar associado a um maior risco para desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares.
Apesar das limitações, como a cobertura de dados do SISVAN e a ausência de informações detalhadas sobre essas populações, o estudo é considerado pioneiro ao avaliar a tendência temporal de marcadores de consumo alimentar de povos e comunidades tradicionais em todo o país. “Os achados contribuem para o avanço da literatura científica e podem subsidiar o fortalecimento de políticas públicas voltadas à promoção da alimentação saudável e sustentável”, afirma Brito. Entre as possíveis medidas, a nutricionista ressalta a regulação da comercialização de alimentos ultraprocessados e o desenvolvimento de estratégias de educação alimentar e nutricional direcionadas a essas populações.
Os pesquisadores contaram com financiamento de instituições públicas, incluindo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Ministério da Saúde e a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), além de apoio acadêmico de universidades envolvidas no estudo.