Qual a importância da COP das espécies migratórias

Cerimônia de abertura da COP15

Cerimônia de abertura da COP15

Começou na segunda-feira (23), em Campo Grande (MS), a COP15 sobre a proteção de espécies migratórias de animais silvestres. O evento dura até 29 de março e ocorre pela primeira vez no Brasil — país que assumiu a presidência da convenção sobre o tema pelos próximos três anos.

Um levantamento divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 13 de março concluiu que 49% dos animais que se deslocam entre fronteiras tiveram queda populacional desde 2024. Segundo o documento, as principais ameaças às espécies são a superexploração (atividades como caça e captura) e perda de habitat causadas por ações humanas.

Neste texto, o Nexo explica qual a importância da COP15, qual a situação das espécies migratórias e qual o papel do Brasil em relação ao tema. Também mostra o que esperar do evento em Campo Grande.

O que é a COP das espécies migratórias

O objetivo da COP15 é reunir os 133 signatários da CMS (sigla em inglês para Convenção sobre Espécies Migratórias) — um tratado internacional criado em 1979 pela ONU — para criar consensos e avançar nos objetivos para a proteção de animais que migram entre países ao longo de sua vida. A convenção é o único acordo global especializado no assunto.

As espécies migratórias se deslocam em determinados períodos do ano de acordo com padrões de comportamento e necessidades — como busca por alimentos, regulação térmica ou reprodução. Muitas cruzam fronteiras e retornam pouco depois, o que desafia países a conservar rotas e habitats compartilhados.

1.189

animais são monitorados pela CMS; boa parte são aves (962), seguidas de mamíferos terrestres (94) e aquáticos (64), peixes (58), répteis (10) e um inseto 

O principal objetivo da convenção é avaliar a situação de animais migratórios monitorados, com base em evidência científicas, e atualizar duas listas da CMS:

Também são discutidos o orçamento para coordenar as ações e possíveis novos compromissos e metas entre os países.

“As espécies não têm uma governança territorializada: é uma governança em fluxo. Se não tiver cooperação, se não tiver parceria, fica muito difícil que a gente cuide não só da espécie, mas dos seus habitats”

Marina Silva

ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em entrevista a jornalistas em 18 de março

A COP das espécies migratórias ocorre a cada três anos e teve sua primeira negociação em Bonn, na Alemanha — quando a ONU criou o tratado que deu origem às conferências. O Brasil participa do grupo desde 2015, quando ratificou o acordo, e nesta edição assumiu a presidência pelo próximo triênio (de 2026 a 2029).

Qual a situação desses animais

Em 13 de março, a ONU divulgou um levantamento preliminar sobre a situação dos animais monitorados pela CMS desde 2024, quando a primeira edição do estudo foi lançada. De acordo com a atualização, 49% das espécies migratórias tiveram queda populacional e 24% estão ameaçadas de extinção (em 2022, eram 22%).

5%

foi quanto aumentou a taxa de morte de espécies migratórias entre 2024 e 2026, segundo a ONU

A migração desses animais beneficia não só seus diferentes modos de vida, mas o bem-estar humano. Eles contribuem para regular ecossistemas, controlar pragas, transportar nutrientes e polinizar plantas — especialmente as agrícolas.

Apesar disso, sua situação tem se agravado, na avaliação da ONU. Pelo menos 70 espécies monitoradas tornaram-se ameaçadas de extinção desde os anos 1990. De lá para cá, apenas 14 tiveram melhorias em seu status.

“Algumas espécies estão respondendo a ações de conservação conjuntas, mas muitas continuam a enfrentar pressões crescentes em suas rotas migratórias. Devemos responder a essas evidências com ações internacionais coordenadas e eficazes”

Amy Fraenkel

secretária-executiva da CMS, a jornalistas em 13 de março

A superexploração e a perda de habitat causadas por atividades como o desmatamento são as principais ameaças aos animais monitorados, além dos efeitos da mudança do clima, da poluição e da invasão de territórios por espécies exóticas.

3 em cada 4

espécies listadas na CMS são afetadas pela degradação de seus habitats

7 em cada 10

sofrem com a superexploração

O papel do Brasil no tema 

A diversidade da fauna no Brasil e sua localização estratégica em rotas de espécies migratórias colocam o país em posição de destaque nas discussões sobre o tema, como disse o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, à Agência Brasil no domingo (22).

“Temos as tartarugas marinhas que nascem no Brasil, passam anos circulando por outros países e voltam para desovar, inclusive na mesma praia em que nascem, o que é um dos grandes mistérios da migração”, disse o secretário, nomeado como presidente da COP15, que ficará na posição até o próximo evento (em 2029).

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Outro exemplo é a toninha, considerada o menor golfinho do mundo, que migra entre a Argentina, o Uruguai e o Brasil. “Temos também a baleia jubarte, que percorre milhares de quilômetros e vem para Abrolhos [no sul da Bahia], onde encontra um espaço extremamente importante para a sua reprodução”, acrescentou Capobianco.

No domingo (22), véspera da abertura da COP15, o governo realizou uma sessão prévia (conhecida como “segmento de alto nível”) com autoridades do Mato Grosso do Sul e representantes de delegações internacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também anunciou investimentos na ampliação de espaços de proteção para espécies, determinando:

A escolha do Pantanal para sediar o evento foi considerada por Lula como estratégica, na tentativa de avançar em discussões para proteção do bioma — maior planície alagável tropical do mundo e local de reprodução e descanso de muitas espécies migratórias.

O que esperar do evento no Brasil

Estão previstas mais de 100 pautas para discussões para a 15ª edição da COP. Dentre elas, estão 42 propostas de inclusão de novas espécies nos documentos da convenção — como o surubim-pintado, um peixe amazônico sugerido pelo Brasil para integrar o anexo 2.

Entre a atualização dos anexos da CMS e a aprovação de documentos como a Declaração de Pantanal, a expectativa é que a COP15 também avance em medidas técnicas e multilaterais para ampliar subsídios à conservação e à proteção de espécies migratórias. 

Uma delas é um acordo entre Brasil, Uruguai e Argentina para criação de corredores de proteção das toninhas, capturadas pela pesca industrial mesmo não sendo alvo da atividade. O documento prevê que os países identifiquem áreas sensíveis e vetem a atividade com redes de arrasto (um cesto utilizado para capturar peixes em grande quantidade). Essa foi a finalidade da criação, em março, do Parque Nacional do Albardão, no Rio Grande do Sul.

Toninha adulta na Baia da Babitonga, em Santa Catarina

Toninha adulta na Baia da Babitonga, em Santa Catarina

Outro ponto a ser pautado no encontro é o estabelecimento das espécies migratórias como um indicador de saúde ambiental, segundo Capobianco. 

“Quando há variação no número de indivíduos no processo migratório [seja por mudarem o período da atividade ou suspenderem a ação], contrariando uma série histórica específica, isso indica problemas ambientais em algum ponto da rota. Assim, [os animais] se tornam indicadores da saúde do planeta — um elemento bastante novo que queremos trabalhar ao longo desta COP”, afirmou ao site ((O))Eco na segunda (23).

Também há a expectativa de aprovar o orçamento para a COP16 de 2029 e aumentar o número de signatários da convenção. Para isso, o Planalto convidou outros 18 países que ainda não aderiram ao tratado a acompanharem as discussões e assinarem a Declaração do Pantanal — uma carta elaborada para reafirmar o compromisso global com o tema e endossar novos signatários.