O coral do Bom Retiro que preserva o iídiche pela música

O Coral Tradição

O Coral Tradição

O Coral Tradição – que desenvolve suas atividades na Casa do Povo, centro cultural no Bom Retiro, bairro paulistano – canta desde 1988 na língua iídiche, que mistura diferentes idiomas e foi popularizada pela comunidade judaica, sobretudo antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O lançamento mais recente do grupo foi em 22 de abril, com o álbum “שמש (shames)”. Os lados A e B do disco articulam memória e recriação do repertório tradicional iídiche.

Neste texto, o Nexo apresenta o Coral Tradição, mostra como o grupo preserva o iídiche e aborda o papel da música para povos em diáspora.

O Coral Tradição

O Coral Tradição é herdeiro de um grupo ainda mais antigo: o coro Scheifer, criado nos anos 1930, que atuou na associação do Bom Retiro até 1971. O Tradição foi fundado na década de 1980, quando a Casa do Povo passava por uma crise institucional – influenciada por fatores como o êxodo da comunidade judaica para outros bairros e o esvaziamento de associações no centro de São Paulo.

O grupo surgiu como uma maneira de manter o prédio da associação vivo e funcionando, conforme disse Caio Lescher, curador assistente da Casa do Povo, em entrevista ao Nexo.

Desde os anos 1980, o Coral Tradição é regido pela maestrina Hugueta Sendacz, que também era coralista do coro Scheffer. As apresentações são acompanhadas por Sonia Goussinsky no piano e pelo preparador vocal Mário Sevillo.

Lescher explica que o coral é composto por pessoas judias, não judias, falantes do iídiche ou não falantes.

“Muita gente no coral não fala ou não entende o iídiche, mas encontra mesmo assim um lugar de identificação nesse universo”, disse Lescher, explicando que há um acompanhamento para os não falantes da língua, que passa pela tradução das canções e até pela explicação de pronúncias das palavras.

“Se dependêssemos só de falantes de iídiche, talvez não fosse possível ter um coral. Ele teve que se abrir para outros participantes para continuar existindo e conectando pessoas de diferentes gerações”, afirmou o curador.

A preservação do iídiche

O iídiche é uma mistura de diferentes línguas, como o hebraico, o alemão, dialetos do alemão medieval e eslavismos.

A língua entrou em formação no século 10, quando judeus franceses e italianos migraram para a Alemanha. Ela passou a ser a língua do cotidiano entre judeus ashkenazitas que habitavam a Europa Central e Oriental.

O idioma foi recebendo influências de outras línguas conforme as migrações aconteciam. O iídiche foi influenciado pelo eslavo quando seus falantes se estabeleceram pelo Leste Europeu, por exemplo.

A língua se popularizou entre o fim do século 19 e início do 20, quando o iídiche passou a aparecer na literatura, na música e na imprensa

A ascensão foi interrompida com a Segunda Guerra Mundial e a morte de muitos falantes da língua no Holocausto. Após o fim da guerra e a escolha do hebraico como língua oficial de Israel, o uso do iídiche decaiu.

“Vejo muitas pessoas se reconectando com o iídiche, grupos de estudos surgindo. Acredito que isso tenha relação com uma identificação com o judaísmo diaspórico, cuja identidade não está necessariamente relacionada ao hebraico e ao Estado de Israel”, disse Lescher.

O curador explica que a música é uma ferramenta usada por povos em diáspora para levarem e reinventarem suas memórias e tradições.

“Muitas vezes você não consegue levar objetos materiais quando emigra entre continentes, mas a música você leva dentro do corpo. E quando você chega a um lugar e se reúne com pessoas que compartilham essas canções, você pode formar um coral. Esse coral pode instaurar uma instituição, e ela pode reimaginar um mundo que foi deixado para trás”, afirmou.

Apesar das reconexão de pessoas com o iídiche, há um desafio institucional de preservação do patrimônio da língua, segundo Lescher.

Os desafios passam por conseguir financiamento para produzir conhecimento a partir do material já existente, como livros e outros documentos, e preservar a memória sem congelá-la ao mesmo tempo.

O transculturalismo

Além do iídiche, o álbum traz participações do Coral das Mães Coreanas e do Bloco Afro Ilú Obá de Min, que incorpora o iorubá numa das faixas. 

“São grupos que têm muitas diferenças, mas que encontram na música uma ferramenta de memória e fortalecimento de comunidade”, disse Caio Lescher.

A Casa do Povo foi fundada por imigrantes judeus, a maioria instalada no Bom Retiro. O objetivo era criar um espaço que reunisse associações nascidas para combater o fascismo, e homenagear aqueles que morreram nos campos de concentração nazistas.

O bairro recebe imigrantes desde o século 19. Algumas das ondas migratórias incluem portugueses, italianos, judeus, gregos, sul-coreanos, africanos e bolivianos. Isso aconteceu pela localização central na cidade e pela proximidade com estações ferroviárias.