
Crianças comendo em creche
Com apenas 4 anos, Miguel* já consome cafeína. O estimulante é oferecido na primeira refeição do dia, na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Professora Ana Maria Poppovic, na capital paulista.
Ao menos uma vez na semana, as crianças daquela e de outras unidades da rede pública de ensino infantil no município de São Paulo bebem café diluído em leite integral.
A oferta da bebida nas refeições oferecidas nas escolas contraria a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que recomenda a inserção da cafeína na dieta somente a partir dos 12 anos. Antes dessa idade, a orientação é de restrição total.
Com ação estimulante no sistema nervoso central, a cafeína interfere no desenvolvimento infantil e pode causar irritabilidade, aceleração dos batimentos cardíacos e distúrbios do sono, como explica a nutricionista infantil Maria Klopper.
“A cafeína atua em sistemas que estão em pleno desenvolvimento nessa fase inicial da vida, na primeira e na segunda infância”, diz.
Para os pequenos, diz, não há dose segura. “Como a criança é pequenininha, tem um peso menor, é mais fácil para atingir uma dose máxima”, ressalta a profissional.
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Klopper toma como base as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Academia Americana de Pediatria (AAP), que orientam pela dieta sem cafeína até o início da adolescência. Além dos riscos à saúde, a oferta do café com leite altera o paladar infantil, abrindo caminho para que a bebida seja incorporada à dieta das crianças em outros ambientes.
Em casa, Miguel já pede café com leite. “Ele nunca teve essa curiosidade. Agora, já conhece o sabor e gostou. Então, mudou o paladar dele”, lamenta a mãe, a médica Jaqueline Neves.
Ao ler o cardápio mensal enviado pela direção da escola, ela ficou preocupada. “Ele já é um menino ansioso e que não dorme”, conta. Em casa, alimentos com cafeína são proibidos na alimentação da criança. “A gente não oferece, eu sei dos riscos”, diz.
No artigo de revisão “Uso de cafeína em crianças e adolescentes”, publicado em 2018 na Revista Médica de Minas Gerais, a ansiedade aparece como um dos efeitos colaterais do consumo de cafeína.
“O uso da substância por crianças, de uma forma geral, costuma causar mais efeitos negativos (os já citados, nervosismo, irritação, ansiedade, náuseas) do que sensações de bem-estar que são usualmente encontradas em adultos”, informa a publicação, que destaca ainda a interferência “no desenvolvimento dos sistemas nervoso e cardiovascular, além do risco de dependência e intoxicação”.
A publicação analisou artigos publicados entre 2013 e 2014 nas bases de dados de alguns dos principais portais da área científica, como o Capes e a Biblioteca Virtual em Saúde.
Em consonância com as orientações da sociedade de pediatria, o estudo recomenda que a oferta de cafeína para crianças “deve ser desencorajada em casa, nas escolas, pelo governo, médicos, nutricionistas e pela mídia”.
Outra revisão de estudos, publicada em 2020 no International Journal of Environmental Research and Public Health, chegou a conclusões parecidas. Após a análise de 24 artigos, os pesquisadores concluíram que a cafeína é metabolizada “de forma diferente em crianças e adultos, e alguns processos fisiológicos considerados benéficos para adultos podem não ser desejáveis em crianças.”
Apesar de haver alguns efeitos positivos listados, como melhoria na performance física e melhorias na respiração – especialmente na presença de TDAH ou apneia da prematuridade –, houve uma forte indicação de prejuízos ao ciclo do sono e de alteração nos estados emocionais (ansiedade ou depressão).
Jaqueline Neves tentou registrar uma reclamação no Portal 156, serviço da prefeitura de São Paulo para atendimento ao cidadão, mas o link não funcionou. Além disso, ela enviou um e-mail para a Secretaria Municipal de Educação (SME), solicitando a revisão do cardápio e aguarda resposta.
O cardápio da alimentação escolar das unidades de ensino municipais em São Paulo é um documento público, que pode ser acessado pela plataforma Prato Aberto.
Pela ferramenta, a reportagem identificou que o leite com café faz parte da alimentação na rede de Emeis desde, pelo menos, 2021.
O Joio consultou o cardápio de seis Emeis, em diferentes regiões do município de São Paulo e vinculadas a Diretorias Regionais de Educação (DREs) distintas.
Em e-mail enviado à reportagem do Joio, a prefeitura de São Paulo informa que as refeições oferecidas às crianças das unidades de ensino contam com supervisão de nutricionistas.
A gestão municipal ressalta, ainda, que a dose oferecida no café da manhã das crianças é de 1,5 gramas de café solúvel, equivalente a, aproximadamente, 0,39 miligramas de cafeína. Para comparação, a quantidade máxima indicada para adultos é de 400 miligramas por dia.
Embora a dose ingerida pelas crianças seja pequena, Klopper é taxativa ao falar sobre a restrição total da substância para menores de 12 anos. “Não tem uma dose mínima de segurança. A política é zero”.
A regra inclui outras fontes de cafeína, como refrigerantes, bebidas energéticas e alguns tipos de chá – o mate e o verde, por exemplo. O fato de a dieta típica de crianças no Brasil incluir atualmente chocolates e refrigerantes do tipo cola faz com que o efeito do café seja potencializado.
“A cafeína que está presente no café, no mate, no chá preto, no chá verde, no chocolate e em refrigerantes à base de cola é estimulante, podendo deixar a criança agitada, por isso, essas bebidas não devem ser ofertadas à criança”, informa o Ministério da Saúde.
A orientação, contudo, é direcionada a crianças menores de 2 anos, conforme as informações do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos.
“Os refrigerantes à base de cola e as bebidas à base de mate, chá preto ou guaraná “natural” possuem substâncias que dificultam o aproveitamento do ferro e do cálcio pelo organismo, além de conterem cafeína, uma substância estimulante que pode deixar a criança agitada”, informa o documento, com orientações destinadas aos bebês, mas que deveriam ser estendidas para crianças até o início da adolescência.
Os alimentos das Emeis são preparados por uma empresa terceirizada, a partir de cardápios orientados pela Prefeitura Municipal de São Paulo com base nas normas estabelecidas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), via Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).
O Pnae, por sua vez, é direcionado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira. Nesse documento de 158 páginas, organizado pelo Ministério da Saúde, estão orientações que vão desde a rotina alimentar – como comer em companhia de outras pessoas ou desenvolver o hábito de cozinhar – até dicas de pratos típicos da culinária nacional para cada uma das refeições, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados.
E o café com leite está ali, entre as opções de desjejum do guia, ao lado de frutas, queijo, tapioca e outros alimentos que fazem parte da cultura alimentar do povo brasileiro.
É assim, também, no desjejum das crianças da rede básica de ensino em São Paulo. Na terça-feira, dia 3 de março de 2026, por exemplo, os alunos das Emeis – cujas idades variam entre 4 e 6 anos – saborearam leite integral com café solúvel, biscoito doce e banana prata. Dois dias depois, na quinta-feira, a bebida veio acompanhada de bolo de coco e melancia.
A SME ressalta que a quantidade e incidência da preparação da bebida têm sido ajustadas “de modo a garantir uma oferta adequada de leite, o que é a principal intenção”.
Para crianças em fase de crescimento, o leite é uma importante fonte de cálcio. No entanto, há outras formas de servi-lo, sem que ele venha acrescido de doses de cafeína – que, aliás, pode prejudicar a absorção do nutriente, como informa o guia alimentar para crianças pequenas.
O ideal, segundo Klopper, seria oferecê-lo sem qualquer aditivo, aproveitando o paladar ainda em formação das crianças, receptivas a sabores que, para os adultos, podem parecer estranhos.
“Seria uma possibilidade interessante oferecer para a criança sem a necessidade de adicionar o café”, sugere a nutricionista. “Agora, a questão é: a criança que está acostumada ao cafezinho com leite, pode ser que no momento inicial rejeite o leite puro”, diz.