Como ‘cunt’ foi de insulto misógino a gíria popular

Arte com lettering, de fundo roxo.

Termo historicamente pejorativo associado à figura feminina, “cunt” percorreu um longo caminho: foi excluído dos dicionários de língua inglesa no século 18, tornou-se gíria nas últimas décadas e hoje circula nos meios digital e cultural, seja nas apresentações de Beyoncé na Renaissance World Tour, em novelas como “Três graças” ou em hits do Carnaval, como “Sequência de cunt”, de Pedro Sampaio.

O ponto de virada ocorreu quando a cultura ballroom e a comunidade LGBTI+ ressignificaram a palavra, transformando-a em expressão de empoderamento, confiança e ousadia. Apesar desse novo uso, ela ainda é cercada por tabus e considerada ofensiva em alguns casos.

Neste texto, o Nexo apresenta a trajetória do termo “cunt”, explica como a cultura drag o converteu em forma de afirmação e discute os possíveis conflitos entre seu sentido histórico e o uso contemporâneo.

Da origem ao termo misógino

A origem de “cunt” é incerta. Parte dos dicionários aponta que o termo seja herdeiro do nórdico antigo e do holandês médio. Outros sugerem raízes no latim ou em línguas germânicas, como registra o Dicionário Oxford de Inglês.

Apesar das divergências etimológicas, a definição de “cunt” é quase a mesma nos principais dicionários. Segundo o Oxford, que descreveu a palavra pela primeira vez em 1230, três dos seis significados atribuídos a ela são considerados ofensivos e depreciativos. A maioria refere-se ao órgão genital feminino. 

Ainda que esses sentidos apareçam nos verbetes atuais, os primeiros usos da palavra não seguiam essa lógica. Originalmente, “cunt” era associado à mulher, mas no contexto médico, utilizado de forma literal para designar a genitália feminina, sem um sentido ofensivo. 

No tratado medieval “Lanfrank’s Science of Chirurgie”, por exemplo, o autor emprega “cunt” ao explicar o funcionamento da bexiga, com “Wymmen the necke of the bladdre is schort, & is maad fast to the cunte” (“Nas mulheres, o colo da bexiga é curto e fixo à vagina”, em tradução livre). No rodapé da mesma página, ele acrescenta “Hec vulva, cunte”, explicitando o uso do termo como sinônimo de “vulva”. 

À medida que partes do corpo, especialmente as femininas, foram estigmatizadas e transformadas em palavrões a partir do século 18, a palavra passou a ser usada como ofensa. O Dicionário da Linguagem Vulgar, publicado em 1785 e considerado atípico por se dedicar a gírias e vocábulos tratados como tabus pela sociedade, definiu “cunt” como “uma palavra desagradável para uma coisa desagradável”. 

Nesse contexto, muitos dicionários passaram a vetar o registro do termo em suas páginas, e ele foi desaparecendo gradualmente dos discursos literários e espaços públicos — até a década de 1960, quando as leis de obscenidade foram relaxadas. A partir de então, “cunt” voltou a aparecer nos verbetes, embora identificado como vulgar ou ofensivo. 

A transformação em expressão de empoderamento

A ressignificação de “cunt” ganhou força dentro da comunidade LGBTI+, especialmente na cultura ballroom. Nos bailes organizados por comunidades negras e latinas queer em Nova York — espaços que articulavam estética, performance e moda, e que deram origem ao voguing —, o termo passou a circular na forma derivada “cunty”. 

A palavra, nesse contexto, deixou de ser uma ofensa, passando a expressar uma feminilidade marcada por superioridade, confiança e ousadia. Reapropriada, ela foi incorporada ao vocabulário da comunidade LGBTI+ e, com o tempo, ultrapassou esses espaços, ganhando projeção no mainstream. 

Em 1995, a música “Cunty (This Feeling)”, interpretada pelo drag queen americano Kevin Aviance, por exemplo, utilizou “cunty” não apenas como elemento central das estrofes, mas como símbolo de empoderamento — não apenas para mulheres, mas para qualquer pessoa. “She’s cunty, he’s cunty, they’re cunty” (“Ela é ‘cunty’, ele é ‘cunty’, eles são ‘cunty’”, em tradução livre), diz a letra. 

Anos mais tarde, RuPaul, drag queen americano e apresentador do reality RuPaul’s Drag Race, lançou a música “Charisma, Uniqueness, Nerve & Talent” (“Carisma, Singularidade, Coragem e Talento”, em tradução livre). Além de as iniciais da canção formarem a sigla “Cunt”, a letra transmite uma mensagem de poder pessoal, autenticidade e ousadia. 

O sucesso da faixa entre os espectadores do reality, que já conta com 18 temporadas e aproximadamente 4 milhões de seguidores em sua conta oficial no Instagram, ajudou a impulsionar o termo nas redes sociais, expandindo seu uso.

Com isso, novas variações surgiram. “Entregar/servir cunt”, por exemplo, passou a designar um estilo de vida, roupas e até álbuns musicais. Não é difícil encontrar postagens nas redes se referindo ao último disco de Charli XCX, “Brat”, como “cunt”, ou ainda dizendo que Bad Bunny “entregou cunt” no tapete vermelho do Met Gala.

Os conflitos de compreensão

Por causa do histórico do termo, alguns estudiosos apontam que podem haver conflitos de compreensão. Isso acontece principalmente pelo desconhecimento da mudança no significado da palavra — principalmente entre as gerações mais velhas — e pelo desentendimento do contexto em que ocorreu sua ressignificação. 

Em entrevista ao Rolling Stone, a professora de linguística da Universidade de Oxford Deborah Cameron, ressignificar insultos é um processo longo, que muitas vezes pode não dar certo. Para ela, essa tentativa pode polarizar opiniões dentro da comunidade à qual o insulto se refere — neste caso, mulheres. 

O professor de inglês da Universidade de Indiana Michael Adams também afirmou ao portal que, mesmo que o ambiente digital contribua para a consolidação e disseminação de novos significados, há palavras — como “cunt” — cujo sentido já está enraizado na sociedade, e, independentemente do uso, podem sempre carregar sentido pejorativo.