Por que o governo revogou a concessão de hidrovias na Amazônia

Ministros durante anúncio de revogação de decreto federal

Ministros durante anúncio de revogação de decreto federal

O governo federal revogou nesta terça-feira (24) o decreto que previa a inclusão de três hidrovias da Amazônia no PND (Programa Nacional de Desestatização). A decisão ocorreu após reunião entre ministros e lideranças de povos do Tapajós, Tocantins e Madeira na segunda-feira (23). 

A medida foi anunciada um dia depois de o Planalto suspender uma licitação para a dragagem do rio Tapajós, após protestos de indígenas na sede da Cargill em Santarém (PA). Para lideranças, a concessão de trechos do corpo d’água para a passagem de embarcações do agronegócio pode afetar seu curso e pôr em risco comunidades e a biodiversidade da região. 

Neste texto, o Nexo explica qual o histórico do caso e por que o governo decidiu revogar a concessão de hidrovias na Amazônia. 

O que dizia o decreto 

O decreto revogado pelo governo nesta terça (24) foi publicado em agosto de 2025, com o objetivo de conceder à iniciativa privada a manutenção de hidrovias dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira – trechos vistos como estratégicos para o transporte de grãos e minérios do Mato Grosso. A medida incluiria licenças a empresas para dragar (escavar) os cursos d’água e aumentar sua capacidade de navegação. 

O governo disse à imprensa que o documento não autorizava obras ou representava a privatização de hidrovias, mas tratava “exclusivamente da realização de estudos técnicos sobre uma possível concessão dos serviços de navegabilidade”. 

A privatização é um tipo de desestatização que ocorre quando há venda total ou parcial de um ativo. Já a concessão ocorre quando o governo cede a uma empresa o direito de explorar determinada atividade por um prazo preestabelecido — como previa o decreto de 2025 para as hidrovias na Amazônia. 

Guilherme Boulos durante fala na COP30, sediada no Brasil

Guilherme Boulos durante fala na COP30, sediada no Brasil

Lideranças reclamaram de que não houve consulta prévia aos povos indígenas antes da proposta — como prevê a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil —, embora essa tenha sido uma promessa de Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, durante a COP30, em 2025

Em janeiro, indígenas do Baixo Tapajós foram à sede da Cargill, multinacional de processamento de alimentos, em Santarém (PA), para protestar contra o decreto. A empresa é uma das principais operadoras nas rotas para o transporte de grãos. 

O grupo também protestou contra um edital do governo federal para a dragagem do rio Tapajós — medida prevista por um plano anual de manutenção aquaviária do trecho. Engenheiros e pesquisadores já haviam indicado uma série de problemas no documento, dentre eles a ausência de licença ambiental, como apurou o site G1. 

“Esse rio é nossa rua, nossa fonte de alimento, é morada de nossos peixes é essencial para o equilíbrio da floresta e do clima. Como transformar essa riqueza em corredor para soja? E pior, sem ouvir os povos que vivem nele e dele?” 

Auricélia Arapiuns

liderança do Baixo Tapajós, em declaração a jornalistas

A Cargill acionou a Justiça no sábado (21) para retirar manifestantes de suas instalações. Além de Santarém, grupos se mobilizaram em Brasília e em São Paulo. 

O que o governo decidiu

Apesar de inicialmente defender o decreto, o governo mudou de ideia à medida que os protestos se intensificaram e geraram impasses internos — especialmente entre aliados da base petista. Parlamentares como as deputadas federais Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) passaram a apoiar mobilizações e cobrar respostas. 

Outro ponto de tensão surgiu com uma nota técnica da Gerência Regional do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em Santarém, emitida no sábado (21). Para o órgão, qualquer iniciativa de dragagem deveria ser suspensa até que houvesse estudo ambiental com a participação de populações possivelmente afetadas. 

No domingo (22), o Ministério de Portos e Aeroportos suspendeu o processo de licitação da dragagem do rio Tapajós — medida considerada insuficiente pelos manifestantes, já que o decreto de 2025 ainda continuaria vigente. A pasta também convocou uma reunião interministerial para o dia seguinte. 

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Na ocasião, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, disse ao jornal O Globo que a revogação do decreto era “um pedido justo”, que seria reavaliado. 

Ela e Boulos receberam lideranças indígenas no Palácio do Planalto para discutir o documento e, com o aval de Lula, suspenderam a norma. De acordo com os ministros, a existência de sítios arqueológicos na região do Tapajós foi um dos pontos críticos para a derrubada do texto. 

“O presidente Lula nos escutou mesmo em viagem [à Ásia], para que a gente pudesse rever essa decisão. Os indígenas estão aqui pela segunda vez em 33 dias de ocupação, com as mulheres e crianças que conseguem ir lá acampadas em condições precárias. Então foi muito importante a gente também considerar essa questão humanitária em que se encontra o movimento”, disse Guajajara a jornalistas. 

Quais as expectativas sem o decreto

A revogação do decreto era a principal pauta de lideranças indígenas durante os protestos.

Com a decisão do Planalto, grupos comemoraram a medida. A previsão é que os acampamentos feitos em torno da Cargill sejam desmontados nos próximos dias. 

Antes da reunião de segunda (23), o governo disse que reuniria diferentes pastas para discutir o caso, mas não confirmou seu desfecho nem quais são os próximos passos do Executivo em relação a novas propostas de hidrovias. 

Indígenas Munduruku carregam pedras em rio Tapajós

Indígenas Munduruku carregam pedras em rio Tapajós

José Heder Benatti, doutor em doutor em ciência e desenvolvimento socioambiental e professor do curso de direito da UFPA (Universidade Federal do Pará), avaliou ao Nexo que é difícil que haja uma solução de meio-termo. “Há duas visões muito fortes no tabuleiro. Uma vê o lucro e considera que tudo é mercadoria. Outra alerta que é preciso rever tudo, porque estão perdendo vidas”, disse.

“O Executivo vai tentar cumprir a legislação ambiental, vai fazer as consultas às comunidades, acreditando que, no fim, terão um produto que vai amenizar os impactos ambientais e todo mundo será feliz. Mas essa não é a visão do povo indígena. A lógica é diferente”

José Heder Benatti

doutor em doutor em ciência e desenvolvimento socioambiental e professor do curso de direito da UFPA (Universidade Federal do Pará), em entrevista ao Nexo

Algumas reações críticas à suspensão do decreto — especialmente de setores do agronegócio — são esperadas, segundo Benatti. “Eles vão reclamar, vão dizer que há prejuízo [financeiro] e que esse tipo de transporte é menos poluente, mas isso não é verdade.”

De acordo com o Ministério Público Federal, que tenta barrar a dragagem do leito do rio Tapajós na Justiça desde 2025, laudos do Ibama e do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) já apontaram riscos ambientais associados a esse tipo de obra — como a liberação de mercúrio e outros metais pesados, que podem afetar cardumes e prejudicar a pesca artesanal.