
Policiais federais durante ação em Brasília
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou na quarta-feira (22) que retirou as credenciais de trabalho de um agente de imigração dos Estados Unidos que atua na sede do órgão, em Brasília.
A ação foi tomada dois dias depois de o governo Donald Trump pedir que o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava junto ao ICE, a agência americana de Imigração e Controle de Alfândega, voltasse ao Brasil, com a justificativa de que ele teria “manipulado” o sistema imigratório americano. O agente atuou na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem, foragido desde 2025, após a condenação pela trama golpista.
Neste texto, o Nexo apresenta o caso, explica como ele gera um impasse diplomático entre Brasil e EUA e mostra como funciona a atuação de membros da Polícia Federal dentro do sistema legal de outros países.
Marcelo Ivo de Carvalho ingressou na Polícia Federal em 2003, ocupando cargos como de superintendente na Paraíba e delegado regional de investigação e combate ao crime organizado em São Paulo.
Em 2023, a corporação o designou para uma missão internacional nos EUA, fruto de um acordo de cooperação entre os dois países para a investigação de crimes transnacionais no continente americano. A duração dessa missão, em geral, é de dois anos, o que significa que a de Carvalho terminaria em 2025. Em março daquele ano, no entanto, uma portaria prorrogou a permanência do delegado na função até agosto de 2026.
Carvalho era o único brasileiro que trabalhava nas dependências do ICE. Uma de suas atribuições era identificar foragidos da Justiça brasileira nos EUA e informar à polícia, que realiza as prisões.
O ICE é um órgão central na política migratória autoritária de Trump, marcada por perseguições e deportações em massa de estrangeiros. Em 2026, agentes do órgão em Minneapolis mataram dois cidadãos americanos que filmavam suas ações. Os casos geraram uma onda de protestos contra o governo federal dos EUA.
Em entrevista ao canal GloboNews na quarta-feira (22), Andrei Rodrigues explicou a atuação de Carvalho na prisão de Alexandre Ramagem.

Segundo ele, o ex-deputado cometeu uma infração de trânsito em Orlando, na Flórida, e foi parado por um agente de trânsito local no dia 13 de abril. Ao verificar a documentação, o servidor notou que o ICE havia cancelado o visto de turista do brasileiro. Ramagem então foi detido e enviado a um centro de detenção no Condado de Orange.
Rodrigues afirmou que a informação que permitiu a prisão, enviada ao agente de trânsito e ao ICE, partiu da Polícia Federal, e só ocorreu por causa da cooperação internacional.
Ramagem foi solto dois dias depois de ser detido. O ex-deputado divulgou um vídeo nas redes sociais agradecendo ao governo Trump. O ICE informou à Polícia Federal que ele pode ficar em liberdade até a conclusão do pedido de asilo que fez aos EUA, sob a alegação de perseguição política.
Após a soltura de Ramagem, o Gabinete de Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo dos EUA disse na segunda-feira (20), em publicação no X, que “nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”.
Sem citar nominalmente Marcelo Ivo de Carvalho, o texto acrescenta: “hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe nosso país por tentar fazer isso”.
Em entrevista à GloboNews, Rodrigues disse que a ação de Carvalho foi alicerçada na cooperação internacional dos EUA com o Brasil e está dentro da legalidade. O diretor-geral da Polícia Federal afirmou ainda que Carvalho é um servidor “exemplar”, responsável por localizar 49 foragidos da Justiça brasileira e contribuir para 56 deportações ao longo da missão no território americano.
Ainda segundo ele, Carvalho não foi expulso dos EUA. “Ele voltou por determinação minha, em razão desse episódio, para que nós consigamos esclarecer se há um processo formal no Departamento de Estado, no próprio ICE, seja onde for”, disse à GloboNews.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues
Carvalho ficaria no cargo até agosto, quando seria substituído pela delegada Tatiana Alves Torres. A policial, que já havia sido superintendente da PF em Minas Gerais, está realizando os trâmites para mudar de país.
Na terça-feira (21), o Itamaraty se reuniu com a encarregada de Negócios da Embaixada dos EUA, Kimberly Kelly, para tratar do caso, dizendo que poderia expulsar agentes americanos do Brasil.
Na quarta (22), Rodrigues disse que retirou “com pesar” as credenciais de um servidor dos EUA que trabalha na sede da Polícia Federal em Brasília – o que significa que o policial não pode mais acessar a unidade em que trabalha nem a base de dados usada na colaboração entre os dois países –, como ocorreu com Carvalho.
O diretor-geral da PF utilizou o princípio da reciprocidade, que é quando um país adota uma medida semelhante em relação a outro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia mencionado a medida em entrevista a jornalistas durante um encontro em Hannover, na Alemanha.
“Se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, vamos fazer a reciprocidade com o deles no Brasil. Não podemos aceitar essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas personalidades americanas querem ter com relação ao Brasil”
Luiz Inácio Lula da Silva
presidente da República, ao comentar o caso em entrevista a jornalistas brasileiros na terça-feira (21), durante encontro em Hannover
A Polícia Federal utiliza acordos de cooperação internacional com instituições estrangeiras para combater a criminalidade organizada transnacional e preservar a segurança interna.
A colaboração é feita com mais de 30 países, nos cinco continentes, balizada por acordos bilaterais de cooperação policial e tratados internacionais de assistência jurídica, segundo a corporação.
O órgão faz parte de organismos como Meripol (Comunidade de Polícias das Américas), Europol (Agência da União Europeia para a Cooperação Policial) e Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal).
A presença de oficiais de ligação (que atuam como elo entre duas ou mais organizações) nesses órgãos, como delegados e policiais federais, é estratégica para reduzir a latência na cooperação policial, segundo o ex-policial federal Roberto Uchôa, membro do conselho Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador na Universidade de Coimbra.
“Eles atuam como pontos focais que viabilizam o intercâmbio imediato de inteligência, superando a morosidade dos canais diplomáticos tradicionais em situações que exigem resposta célere, como o tráfico de drogas, de pessoas e lavagem de dinheiro”, disse ao Nexo.

Agentes da Polícia Federal
Ainda segundo ele, a cooperação policial internacional se fundamenta na construção de redes de confiança, o que torna as missões de delegados e agentes da Polícia Federal indispensáveis.
Uchôa explicou que os representantes da corporação no exterior não têm poder de polícia judiciária, ou seja, não realizam prisões e buscas de forma autônoma. “Eles atuam na facilitação técnica, articulando investigações, acompanhando pedidos de extradição e servindo como ‘tradutores’ dos procedimentos legais entre o Brasil e o país anfitrião”, afirmou.
A cooperação bilateral no enfrentamento ao crime organizado transnacional entre o Brasil e os EUA ocorre pelo menos desde a década de 1990, quando a Polícia Federal já colaborava com agências americanas, como a DEA (Administração de Repressão às Drogas), em apurações específicas.
Em 2003, quando, após os atentados de 11 de Setembro, os americanos fundaram o Departamento de Investigações de Segurança Interna, o governo firmou uma cooperação com a PF para aprofundar investigações sobre crime transnacional.
Mais recentemente, foram firmados outros acordos que formalizam a colaboração Brasil-EUA, como:
As regras de atuação dos agentes estão previstas nos acordos e num decreto de 2024 que dispõe sobre as adidâncias (missões) da Polícia Federal junto às representações diplomáticas brasileiras no exterior.
A base dos acordos é o interesse mútuo e a reciprocidade – motivo pelo qual o Brasil retirou as credenciais do agente de imigração dos EUA que trabalhava na PF em Brasília.
Segundo Uchôa, tanto o Brasil como os EUA têm a prerrogativa de retirar as credenciais dos policiais, mesmo sem conversa prévia entre Polícia Federal, ICE ou Ministério das Relações Exteriores.
“A permanência de qualquer oficial estrangeiro em outro país é condicionada à anuência do Estado anfitrião. A revogação de visto ou credenciamento é um ato administrativo soberano, que não exige consulta prévia, consentimento ou motivação jurídica perante o país de origem. É o exercício pleno da autotutela do Estado anfitrião sobre o seu território e suas relações diplomáticas”, disse.
Em nota publicada na quarta-feira (22), no entanto, o Itamaraty afirmou que os EUA descumpriram um trecho do acordo de cooperação entre os dois países ao retirar as credenciais de Carvalho. Segundo a pasta, o governo adotou a medida contra o delegado brasileiro sem ter pedido esclarecimento sobre sua atuação nem ter tentado um diálogo com o governo.