
Cena do anime “Devil May Cry” (2026)
A segunda temporada de “Devil May Cry”, adaptação em anime da franquia de games homônima, estreia na Netflix na terça-feira (12). A primeira temporada teve um alto número de visualizações — 5,3 milhões na semana de lançamento — e boa avaliação entre os críticos, embora fãs tenham feito questionamentos sobre o distanciamento entre o programa e a trama original do jogo.
A Netflix tornou-se a principal plataforma de animes fora do Japão e China, apesar de preocupações de fãs com uma possível “netflixzação” – alta quantidade de produções em detrimento da qualidade. O relatório “Anime Global White Paper 2026”, da empresa de consultoria de mídia Interpret, colocou a empresa na liderança do setor em países como EUA, Índia e Brasil.
15 mil
pessoas participaram da pesquisa que deu origem ao relatório da Interpret
Neste texto, o Nexo mostra o interesse da Netflix em animes, explica como a “netflixzação” do conteúdo afeta as produções e apresenta o mercado das animações japonesas.
A Netflix começou a lançar animes originais em 2014, no ano seguinte ao início das produções próprias, como “House of Cards” (2013-2018). A adaptação do mangá “Knights of Sidonia”, primeira a estrear, acompanha a última nave humana sobrevivente de um ataque extraterrestre. A série animada teve duas temporadas.
O marco dos animes originais da Netflix veio com “Castlevania” (2017-2021). Também adaptada de uma franquia de videogames, a animação acompanha um grupo de caçadores de monstros atrás de vampiros. O principal vilão é o Drácula, personagem tradicional de obras de terror.
94%
é a porcentagem de avaliações positivas de “Castlevania” no Rotten Tomatoes
Desde então, a produção de animes originais da Netflix se intensificou. Títulos como “Blame!” (2017), “Devilman Crybaby” (2018) e “Cyberpunk: Mercenários” (2022) são exemplos de séries do estilo. Também há remakes de sagas famosas, como “Cavaleiros do Zodíaco” (2019-2022), e diversas obras licenciadas no catálogo.
“A Netflix fez um trabalho forte em cima [dos animes], abriu escritório em Tóquio, investiu em formatos novos, como o live-action de ‘One Piece’ [2023-2026], entendendo que existe um potencial mercado ali”, afirmou Nelson Sato, fundador e presidente da Sato Company, ao Nexo. A empresa trabalha com o licenciamento de obras japonesas para o mercado brasileiro, trazendo, por exemplo, animações do Studio Ghibli.
O interesse do público também cresceu no período. De acordo com comunicado da Netflix de julho de 2025, 50% dos assinantes haviam assistido a algum anime na plataforma. Outro número mostra que as animações japonesas foram vistas mais de 1 bilhão de vezes no serviço de streaming, triplicando sua audiência em cinco anos.
Para Sato, a grande base de assinantes da Netflix – acima de 325 milhões – explica a dominância do serviço de streaming nos animes: “O consumidor não assina todas as plataformas que existem no mercado. Como são assinantes da Netflix e as animações já estão embutidas no custo, o acesso se torna maior”.
Apesar de não serem japonesas, produções originais como a série “Arcane” (2021-2025) e o filme “Guerreiras do k-pop” (2025) – vencedor do Oscar de Melhor Animação em 2026 – têm estética visual semelhante à dos animes e fizeram grande sucesso na Netflix.
De acordo com o relatório “Panorama do mercado de vídeo por demanda no Brasil de 2025”, feito pela Ancine (Agência Nacional de Cinema), a Netflix é o serviço de streaming com o maior catálogo disponível no Brasil.
7.790
era a quantidade de títulos disponíveis na Netflix Brasil em agosto de 2025
Apesar de não haver dados sobre o número exato de animes na Netflix, centenas de títulos já passaram pelo catálogo, entre originais e obras licenciadas. Mas a grande quantidade não se traduz, necessariamente, em boa qualidade.
No caso dos animes, uma das principais críticas envolve o lançamento de temporadas inteiras de uma só vez. Tradicionalmente, essas animações seguem a dinâmica de publicações semanais, como os mangás. O modelo da Netflix faz com que o engajamento e as discussões sobre os capítulos diminuam muito rápido.
Fãs das animações também criticam o que consideram uma dificuldade dos executivos e produtores da Netflix de compreender a cultura japonesa, por tenderem para um formato narrativo comum a produções ocidentais. “O anime tem um poder de trazer valores culturais e familiares, enquanto, às vezes, o conteúdo americano é mais para entretenimento, sem agregar tanta informação”, disse Sato.
Também recebem críticas escolhas técnicas de animes da Netflix, como a predominância da técnica de animação 3D em detrimento da 2D e a baixa qualidade dos efeitos visuais. Outro ponto levantado é a dessincronização das legendas das animações japonesas no serviço de streaming.
Em janeiro, a Netflix anunciou um acordo de exclusividade com o estúdio Mappa para a criação e exibição de animes. A empresa é responsável por séries animadas de sucesso, como “Attack on Titan” (2013-2023) e “Jujutsu Kaizen” (2020-presente). Além de novos projetos, a parceria irá se dedicar ao merchandising das produções.
“Ao combinar a abordagem única do Mappa com o alcance global da Netflix – e a coragem de assumir riscos, que é essencial para criar conteúdo envolvente –, esperamos expandir ainda mais as possibilidades do anime”
Kaata Sakamoto
vice-presidente de conteúdo da Netflix Japão, em comunicado no site oficial do serviço de streaming
O acordo de exclusividade faz parte de uma mudança na estratégia de produção e distribuição de conteúdo da Netflix. Em entrevista publicada na segunda-feira (4) no site japonês Anime! Anime!, Hirofumi Yamano, diretor de conteúdo da Netflix Japão, disse que a plataforma irá apostar em mais cocriações e menos conteúdos originais.
Segundo Yamano, a estratégia flexível facilita a integração entre mídias: “Seria mais fácil se pudéssemos cuidar de tudo isso sozinhos e repassar o lucro aos criadores, mas, neste momento, decidimos que fazer parcerias com profissionais de outras mídias, em vez de deter todos os direitos, é uma das opções para expandir o alcance do anime”.
Sato afirmou ao Nexo que a Netflix percebeu que a adaptação dos mangás é complexa. “Ela viu que talvez seja melhor investir numa produtora tradicional japonesa e nos IPs [sigla em inglês para “propriedades intelectuais”] criados pelos estúdios. Acho que a tendência de acerto é muito maior”, disse.
Segundo pesquisa de março de 2025 da agência de publicidade Dentsu, três em cada dez pessoas assistem semanalmente a animes ao redor do mundo. A equipe entrevistou 8.600 pessoas em 10 países e identificou que a geração Z (1995 a 2010) são os que mais consomem esse estilo de animação, com 50% dos respondentes.
Dentre os motivos levantados para a preferência por animes, estão a fadiga com conteúdos de Hollywood, o interesse na cultura japonesa e a busca por variedade de gêneros. Além da Netflix, plataformas como o YouTube, o Disney+ e a Crunchyroll – especializada nesse tipo de animação – são consumidas.
Sato afirmou que existe outro motivo para o aumento do interesse em animes, especialmente no Brasil: a imigração japonesa. “O Brasil é um país que aceita, cultua e aprecia a cultura japonesa”, disse. O país tem a maior comunidade de descendentes japoneses fora do Japão, com cerca de 2,7 milhões de pessoas.