Como pescadores do Pacífico se preparam para o El Niño

Como os preços do diesel dobraram nas Filipinas, mais de metade dos pescadores da província de Palawan pararam de trabalhar e alguns até venderam seus barcos

Os pescadores do Oceano Pacífico estão se preparando para a chegada de um novo El Niño, pressionando ainda mais uma atividade que já enfrenta dificuldades com a alta nos preços dos combustíveis devido ao conflito no Golfo Pérsico.

O El Niño é um padrão climático que interfere no fenômeno da ressurgência (ascensão de águas mais profundas e ricas em nutrientes), afetando severamente a vida marinha e a pesca local, já que os animais marinhos se deslocam para outras regiões em busca de alimento.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA afirmou que há 82% de chance de um novo El Niño até julho. Outros cientistas dizem que o El Niño deste ano pode ser um dos mais fortes das últimas décadas.

A secretária-geral da Sociedade Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, alertou este mês que um El Niño mais forte “agravaria a seca e as chuvas intensas, aumentando o risco de ondas de calor tanto em terra firme quanto no oceano”.

Como se as oscilações climáticas não bastassem, os preços do petróleo subiram mais de 25% desde o bloqueio no Estreito de Ormuz, rota marítima vital para o comércio internacional, após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. Isso tem sido particularmente prejudicial para pescadores que dependem de grandes quantidades de combustível para abastecer suas embarcações.

No Peru e nas Filipinas, o Dialogue Earth viu de perto como esses problemas afetam uma das populações economicamente mais vulneráveis do mundo.

Peru: crise de combustível

Em Tumbes, perto da fronteira do Peru com o Equador, Miguel Martínez mantém seu barco atracado na praia há um ano. “Não é lucrativo sair para pescar”, disse o presidente da Federação Regional de Organizações de Pesca Artesanal Seletiva.

Quando os pescadores locais se lançam no mar, explicou ele, muitas vezes voltam com suas redes cheias de caranguejos da espécie Euphylax dovii, animais sem valor comercial atraídos pelo aquecimento das águas. Ele contou que costumava pescar de cem a 150 quilos de peixe por jornada, mas agora só pesca metade disso.

“Não sabemos a quem recorrer”, afirmou. “Com a escassez de espécies em nossa costa, não queremos gastar em combustível, porque mal conseguimos cobrir os custos”.

A guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos provocou um aumento abrupto nos preços dos combustíveis no Peru. Para os quase 96 mil pescadores artesanais peruanos, o impacto foi ainda pior, pois eles não compram em postos de gasolina com valores subsidiados pelo governo; eles dependem de chatas (barcaças informais de abastecimento).

O combustível costumava custar 14 soles (R$ 21) por galão, explicou Elsa Vega, pescadora, armadora e presidente da Sociedade Nacional de Pesca Artesanal. Agora, ela disse que o preço está entre 21 e 25 soles (R$ 32 a R$ 38). “Ninguém controla as chatas”, disse ela.

De acordo com Vega, uma embarcação que vai a mar aberto em busca de peixes mahi-mahi pode consumir entre 1 mil e 1,5 mil galões de combustível, sem que haja aumento nos preços do peixe para compensar os custos crescentes do combustível. Muitos pescadores viram seus lucros caírem em 40%, disse ela.

Em fevereiro, a Comissão Multissetorial para o Estudo Nacional do Fenômeno El Niño alertou que o El Niño deste ano pode se estender até fevereiro de 2027, atingindo uma intensidade moderada entre maio e agosto deste ano.

Luis Vásquez Espinoza, porta-voz do estudo e especialista em oceanografia e mudanças climáticas no Instituto do Mar do Peru, afirmou que, quando o mar se aquece, peixes comercialmente importantes, como as anchovas, buscam áreas menos quentes do oceano, seja mais perto da costa ou em águas mais profundas. A legislação peruana proíbe a pesca em águas rasas, e as águas mais profundas são muito mais desafiadoras e caras para a pesca, o que muitas vezes inviabiliza a atividade.

Apesar dessas dificuldades, o número de embarcações artesanais no Peru cresceu de quase 18 mil em 2015 para mais de 23 mil em 2023 – aumento de 29% em uma década, de acordo com a organização Oceana.

“Temos um problema sério com o tamanho da frota”, alertou Juan Carlos Sueiro, diretor de pesca da Oceana Peru. “Com cada vez mais embarcações, a renda média é menor”.

Filipinas: ‘Era melhor na pandemia’

Do outro lado do Pacífico, mais de 50% dos pescadores filipinos pararam de trabalhar desde o conflito no Golfo Pérsico, pois os preços do diesel dobraram, disse Fernando Hicap, presidente da Federação Nacional de Organizações de Pequenos Pescadores Pamalakaya, nas Filipinas.

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“Era melhor durante a pandemia de Covid-19, porque pelo menos naquela época podíamos sair para o mar. O problema era que os consumidores não podiam comprar peixe por causa da quarentena, mas pelo menos pescávamos”, disse Hicap.

De acordo com ele, alguns pescadores venderam seus barcos para saldar dívidas. Já os demais estão se preparando para a chegada do El Niño.

Nas Filipinas, o El Niño pode enfraquecer a monção do nordeste. Esse vento promove a ressurgência, estimulando a proliferação do plâncton.

A ressurgência também reduz a oferta de alimento para pequenos peixes como sardinhas e anchovas, explicou Charina Lyn Amedo-Repollo, pesquisadora do Instituto de Ciências Marinhas da Universidade das Filipinas. Isso pode significar menos peixe para os pescadores, jornadas mais longas e custos mais altos de combustível.

Dados da Autoridade de Estatística das Filipinas mostram que a produção pesqueira entre abril e junho de 2024, durante o El Niño anterior, diminuiu 6,2% em relação ao mesmo período de 2023. Já a produção de algas marinhas, parte importante da economia azul nas Filipinas, caiu 26%.

“A questão central é quantos pescadores perderam renda”, disse a conservacionista Candeze Mongaya, que já trabalhou com as organizações Rare e Oceana Filipinas. “Temos dados objetivos sobre quanto os pescadores perderam, mas também há perdas indiretas no contexto de suas despesas diárias”.

Os pescadores de pequena escala receberam um auxílio de 3 mil pesos filipinos (R$ 254) após o aumento recente nos preços dos combustíveis. Porém, vários deles disseram ao Dialogue Earth que precisam de soluções de longo prazo, e não de tapa-buracos de curto prazo.

Isso poderia incluir auxílio do governo para que os pescadores diversifiquem seu trabalho, de modo que tenham outras fontes de renda, disse Mongaya.

Já Hicap defende esforços mais amplos para restaurar os ecossistemas marinhos e impedir a destruição de habitats, como manguezais e recifes, a fim de apoiar a pesca no futuro.

Manter os ecossistemas mais saudáveis os torna mais resilientes às mudanças climáticas e a eventos extremos, e uma boa gestão pode aumentar a pesca, dizem os cientistas. Além disso, segundo eles, isso ajudaria a mitigar o impacto de fenômenos como o El Niño.

“Não deveríamos construir mais estradas costeiras; elas destroem manguezais e recifes de corais e causam erosão”, disse Hicap. “Enquanto esses projetos continuarem, os pequenos pescadores sofrerão os efeitos do El Niño”.

No Peru, também há a sensação de que essas últimas crises mostram a importância de construir mais resiliência no setor.

“Falamos em sustentabilidade, mas essa atividade também precisa ser sustentável para nós que dependemos dela. O mar não pode se transformar em um cemitério de navios”, afirmou Vega.

O porta-voz do Departamento de Pesca e Recursos Aquáticos das Filipinas, Nazario Briguera, disse que a agência ativou uma força-tarefa especial para trabalhar na proteção da produção de alimentos durante o El Niño.

O Ministério da Produção do Peru não respondeu aos questionamentos da reportagem.