
Militante segura cartaz com imagem de Iván Cepeda em ato de campanha
O segundo turno da eleição presidencial da Colômbia ocorre neste domingo (21), opondo o advogado Abelardo de la Espriella, do partido de extrema direita Movimento de Salvação Nacional, e o senador Iván Cepeda, do partido de esquerda Pacto Histórico. O pleito ganhou um espectro de desconfiança após o presidente colombiano, Gustavo Petro, questionar o resultado eleitoral do primeiro turno.
A contagem de votos do segundo turno da eleição do Peru também ocorre em meio a contestações. O candidato Roberto Sánchez, do partido de esquerda Juntos pelo Perú, já indicou que não aceitará o resultado. Até a noite de sábado (20), a deputada Keiko Fujimori, do partido de extrema direita Força Popular, liderava a apuração.
Neste texto, o Nexo mostra os questionamentos aos processos eleitorais dos dois países e analisa, com ajuda de cientistas políticos, os comportamentos dos candidatos.
A eleição colombiana vem ocorrendo em meio a um cenário de alta polarização e crise de segurança. Nos últimos meses, candidatos de diferentes campos ideológicos foram ameaçados ou alvos de atentados. Um deles causou a morte do senador e pré-candidato Miguel Uribe Turbay em agosto de 2025.
Apesar disso, a votação do primeiro turno ocorreu sem graves incidentes. De la Espriella obteve 43,7% dos votos ante 40,9% de Cepeda, divergindo das pesquisas de intenções de voto durante a campanha.
Petro rechaçou o resultado. “Como presidente, não aceito os resultados da contagem preliminar da empresa privada dos irmãos Bautista”, afirmou no X (ex-Twitter) em 31 de maio, pouco depois da divulgação dos números preliminares.
Em 2 de junho, o presidente fez uma série de publicações no X com informações que, em tese, serviriam de prova para a acusação de que havia 800 mil cédulas de votação a mais do que o censo oficial do país na contagem da empresa dona do software utilizado na pré-contagem.
A empresa é a Thomas Greg & Sons, uma das maiores prestadoras de serviço para o Estado colombiano, comandada pelos irmãos Felipe, Camilo e Fernando Bautista. A companhia era responsável pela impressão dos passaportes colombianos de 2007 até abril de 2026. Ela não é responsável pela pré-apuração das eleições, mas é dona do software em que os dados eleitorais são inseridos.
A lei colombiana estabelece que, na noite da eleição, o Registro Civil Nacional, órgão responsável pelo processo eleitoral, realiza uma contagem preliminar para fins de divulgação — sem efeito legal, mas normalmente aceita pelos atores políticos.
No dia seguinte ao pleito, uma comissão eleitoral, formada por juízes e funcionários eleitorais, revisa todo processo e, dias depois, divulga o resultado oficial — que, historicamente, tem divergência pequena do preliminar. Essa diferença, porém, se torna relevante se as eleições forem decididas por poucos votos.
Quatro dias depois do pleito, o CNE (Conselho Nacional Eleitoral) colombiano divulgou o resultado oficial, que confirmou o percentual do resultado preliminar, com uma diferença de 0,2 ponto percentual dos votos recebidos pelos dois candidatos. Petro não se manifestou sobre o resultado final.
De acordo com o site de jornalismo independente colombiano La Silla Vacía, o montante referido por Petro é de cédulas disponibilizadas para os colombianos que votam no exterior. São contabilizadas como votos apenas aquelas preenchidas, atestadas pelos mesários e registradas em ata de votação. Os softwares contabilizam apenas as atas, não as cédulas.
Segundo o Silla Vacía, a operação de votação no exterior é alvo de campanhas de desinformação há anos, mas nenhum dos órgãos observadores das eleições registrou qualquer anormalidade no processo.
Assim como Petro, Cepeda disse em 31 de maio que houve um “padrão de votação atípico” no primeiro turno, sem dar detalhes. Após repercussão negativa, ele recuou no dia seguinte. “Até o momento, devo afirmar categoricamente que não encontramos nenhuma evidência ou indício de irregularidades flagrantes”, afirmou a jornalistas. “Não há irregularidades de dimensões suficientes para falar de fraude.”
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O cientista político Andrés Londoño Niño, professor da Esap (Escola Superior de Administração Pública) na Colômbia, afirmou ao Nexo que a contestação de Petro no primeiro turno foi precisamente contra uma empresa privada, com a qual o governo já tinha problemas.
Londoño, no entanto, ponderou que “essa contestação, que Petro fez muito impulsivamente após os resultados do primeiro turno, faz com que persistam questionamentos às instituições”.
A eleição peruana é marcada por desorganização e lentidão, com margem estreita entre os candidatos e autoridades demitidas e investigadas por sua atuação. A votação do primeiro turno ocorreu em 12 de abril, mas problemas logísticos afetaram o processo, e o resultado só saiu em 15 de maio.
O segundo turno ocorreu em 7 de junho, mas não havia resultado até a noite de sábado (20), quando o Onpe (Escritório Nacional de Processos Eleitorais) havia apurado 99,681% das urnas. A contagem mostrava Keiko Fujimori à frente de Sánchez por uma diferença de 0,2 ponto percentual.
41 mil
era a diferença de votos entre Roberto Sánchez e Keiko Fujimori até a noite de sábado (20), segundo a Onpe
Sánchez afirmou na sexta-feira (19) que não reconhece os votos dos eleitores no exterior, alegando irregularidades no processo. “Houve uma grave violação do processo eleitoral devido às alterações feitas nas regras do segundo turno”, disse. “Questionamos o devido processo legal.”
O partido dele, Juntos pelo Perú, disse que não reconhecerá o resultado das eleições presidenciais por “falta de transparência”. A legenda vem tentando anular as atas eleitorais no exterior, sob o argumento de que uma resolução do órgão eleitoral de 29 de maio anulou a digitalização desses papéis.

Roberto Sánchez após votar no segundo turno da eleição peruana
Em nota, o Onpe afirmou que não havia modificado as regras do processo. O órgão disse que o pedido do Ministério das Relações Exteriores de digitalização das atas de votação nos consulados não foi levado adiante e, após uma avaliação técnica, optou por retornar ao método tradicional de transferência física de documentos para evitar qualquer tipo de manipulação.
“No fundo, esse comportamento tem relação com o fato de que as eleições peruanas não são obrigatórias e o registro do voto ainda é feito com cédulas, o que torna a contagem vulnerável a erros e a acusações de fraude”, afirmou ao Nexo o cientista político Eduardo Heleno, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF (Universidade Federal Fluminense).
Heleno disse que outro fator é que, independentemente de quem ganhar, o cenário do Congresso peruano tem sido desafiador, com uma relação tensa e desgastada entre o Executivo e o Legislativo, que se traduz na quantidade de presidentes que o país teve nos últimos anos.
O Peru teve nove presidentes em 10 anos. Isso ocorre por causa da cláusula de “incapacidade moral permanente”, que consta na Constituição do país, promulgada em 1993. O texto permite ao Congresso destituir o chefe do Executivo com flexibilidade.
“Nesse ambiente de polarização, a estratégia dos perdedores acaba se voltando para deslegitimar o próprio processo e, uma vez derrotados, tensionar o governo estabelecido”, afirmou Heleno. “Trata-se, além de esquerda e direita, da continuidade de uma grave crise institucional.”