Os pontos fracos da candidatura de Flávio, em 2 análises

Flávio Bolsonaro em sessão da Comissão de Segurança Pública do Senado

Flávio Bolsonaro em sessão da Comissão de Segurança Pública do Senado

As conversas entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do caso Master, mexeram com o campo da direita e da extrema direita para as eleições de outubro. 

Reveladas pelo site The Intercept Brasil na quarta-feira (13), as mensagens mostram o filho mais velho de Jair Bolsonaro pedindo quantias vultosas de dinheiro ao banqueiro para financiar “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente com previsão de lançamento para setembro. 

As mensagens obtidas pela imprensa incluem o período de dezembro de 2024 a novembro de 2025. Inicialmente, as negociações sobre o dinheiro para o filme ocorriam por intermediários, mas, a partir de setembro de 2025, Flávio passou a cobrar Vorcaro diretamente. 

Na época, as suspeitas sobre as operações do Master já eram de conhecimento público, e o Banco Central havia rejeitado a venda da instituição financeira para o BRB (Banco Regional de Brasília) por dúvidas sobre a viabilidade econômico-financeira da empresa. 

R$ 61 milhões

foi o valor desembolsado por Daniel Vorcaro para a cinebiografia sobre Jair Bolsonaro 

R$ 134 milhões

foi o valor prometido pelo banqueiro para o filme, segundo as mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil 

O montante transferido por Vorcaro para “Dark Horse” ultrapassa o orçamento de dois sucessos recentes do cinema brasileiro, como “O agente secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho, cujo orçamento foi de R$ 28 milhões, e o premiado no Oscar “Ainda estou aqui” (2024), de Walter Salles, que custou R$ 45 milhões. 

Questionado presencialmente pelo The Intercept Brasil pouco antes de as mensagens serem publicadas, Flávio negou ter pedido dinheiro a Vorcaro para o filme sobre o pai. Ainda antes, em março, quando veio à tona que o número de celular do senador estava na agenda do banqueiro, ele disse que nunca havia tido contato com o dono do Master.

“De onde você tirou essa informação? É mentira. [gargalha]. Pelo amor de Deus. Jornalistas, bom trabalho. Militante, aí não dá, cara”

Flávio Bolsonaro

senador e pré-candidato à Presidência, ao ser questionado pelo The Intercept Brasil pouco antes da publicação da reportagem, na quarta-feira (13)

Pouco depois da veiculação da reportagem, Flávio divulgou um vídeo admitindo que conhecia Vorcaro, mas justificando que suas mensagens mostram apenas “um filho buscando financiamento privado para o filme do pai”. Ele defendeu a abertura de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar o caso Master no Congresso. 

Um dia depois, na quinta-feira (14), a Goup Entertainment, produtora de “Dark Horse”, disse que não recebeu dinheiro de Vorcaro ou de qualquer empresa ligada ao banqueiro — o que indica mais uma contradição do parlamentar. 

Até agora, Flávio vinha tentando se desvencilhar de qualquer conexão com o Master, mesmo com o envolvimento de nomes do campo da direita, como o do senador Ciro Nogueira (PP-PI), no caso. Ciro foi ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro e era aventado como possível vice do filho do ex-presidente em 2026. 

A revelação das mensagens antecipa questionamentos que ocorreriam a Flávio mais adiante na campanha eleitoral, tratando de temas como o caso das rachadinhas — de quando o senador era deputado estadual no Rio de Janeiro —, as investigações de lavagem de dinheiro numa loja de chocolates de que Flávio era sócio e o empréstimo de R$ 3,1 milhões via BRB para uma mansão de R$ 5,9 milhões comprada em 2021. 

Para analisar como as mensagens entre Vorcaro e Flávio afetam a campanha presidencial, o Nexo conversou com os pesquisadores: 

O que as contradições de Flávio e as versões desencontradas apresentadas por ele e aliados para o caso dizem da sua campanha?

Marcos Marinho Ao que tudo indica, esse vazamento da relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro caiu como uma bomba dentro do seu próprio núcleo. A reação dos apoiadores de primeira hora e a desconexão do seu bunker de campanha deixam claro que ninguém sabia dessa história ou, pelo menos, não sabia a fundo como ela tinha acontecido. Ficou muito ruim quando Flávio foi questionado e primeiramente negou. A tentativa de emendar o fato não colou. A base bolsonarista atua geralmente em uníssono, e, quando não há uma narrativa previamente acertada, cada um tende a reagir de acordo com a sua própria cabeça. O que vimos foi uma série de posicionamentos desencontrados. 

Isso balançou a estrutura de campanha de Flávio, pois não se trata só de pegar dinheiro de um algum bilionário para fazer um filme sobre o pai — é estar associado com alguém que hoje é o principal criminoso de colarinho branco do Brasil, envolvido numa fraude de bilhões. 

Por vários momentos, Flávio tentou se distanciar de Vorcaro e ligar o escândalo do Banco Master ao PT e ao Lula. Foi de uma infantilidade brutal não ter preparado o núcleo central de campanha para um possível risco. É isso que a gente faz em campanha: tenta mensurar os pontos críticos que podem gerar danos de imagem ao candidato e prepara vacinas para isso. Flávio não fez isso. Agora, o grupo dele tenta encontrar uma linha que seja menos pior, porque sair completamente ileso desse fato não vai acontecer. 

Tathiana Chicarino A campanha ainda não chegou à vida cotidiana das pessoas, ou seja, àqueles que mais importam, que são o contingente eleitoral. Neste caso, estamos falando mais de campanha permanente, de permanecer no debate público. Hoje, o principal opositor de Flávio Bolsonaro — o incumbente, o presidente Lula, que provavelmente vai concorrer à reeleição — ainda não começou a fazer um embate direto, que está acontecendo entre apoiadores e influenciadores de cada um dos lados. 

Considerando o histórico de Flávio, sabíamos que questões de corrupção viriam à tona. Só que, quando falamos de coisas que aconteceram no passado — como o gabinete do ódio, a rachadinha e o Fabrício Queiroz [ex-assessor de Flávio] —, as campanhas conseguem traçar estratégias de resposta. Flávio já estava municiado e treinado para responder sobre esses temas. Para o que está acontecendo agora, ele não tem respostas prontas. 

O escândalo político tem uma base material e concreta, mas nem todo ato de corrupção vira um escândalo político. O escândalo tem muito de dramatização e algumas características, como quem são os atores envolvidos, o que eles fizeram, o enquadramento de corrupto/não corrupto, bom/mau. Há esse enredo. As pessoas não estão acompanhando mais o que foi a rachadinha, mas estão acompanhando o Banco Master e o envolvimento de figuras da direita, como Flávio e Ciro Nogueira. Isso faz com que as pessoas fiquem mais atentas sobre o desenrolar dos fatos. 

Que tipo de eleitor deve ser mais impactado pelo envolvimento de Flávio e Vorcaro? O quanto as suspeitas de agora e do passado fragilizam sua candidatura?

Marcos Marinho Entendo a eleição deste ano além de Flávio. De um lado, existe Lula e, do outro, todo mundo que está contra Lula. A base radical bolsonarista vai continuar com Flávio. Para eles, o que importa é que Lula não exista. Eles vão continuar defendendo [o senador], num processo de negação, pois não vão permitir que o nome do filho do “mito” [Jair] seja manchado. 

Mas há um perfil de eleitor que percebe que não dá para ser Flávio Bolsonaro, porque é provável que mais coisas sobre ele venham à tona. Não vai dar para sustentar esse eleitor, que tenta atribuir toda a corrupção do Brasil ao Lula e ao PT, mas não é o fiel bolsonarista. Esse eleitor vai ser mais sensibilizado, e a tendência é que ele migre para outro player da direita. Entendo que as intenções de voto em Flávio vão, sim, derreter um pouco. 

Tathiana Chicarino A meu ver, isso impacta dois tipos de eleitores. O eleitor indeciso, que de fato não sabe em quem vai votar, e o eleitor mais volátil, que não está concentrado nesses dois campos em que a política nacional está dividida hoje — o campo mais à esquerda, mobilizado por Lula e PT, e o campo da direita/extrema direita, mobilizado por Bolsonaro. O eleitor volátil pode ter votado em Jair Bolsonaro em 2018 e em Lula em 2022, porque não tem exatamente uma adesão e filiação afetiva ou ideológica a algum desses pontos. O que o motiva a votar pode variar: pode ser corrupção ou economia. Esse eleitor é diferente do eleitor independente, que não quer nenhum dos dois. O volátil pendula entre os dois campos. Esses eleitores, indecisos e voláteis, serão fundamentais na próxima eleição. 

O bolsonarismo não me parece um bloco tão sólido. Uma coisa são os militantes e apoiadores, e outra são as lideranças — eleitas ou não —, como as lideranças evangélicas. Os eleitores bolsonaristas são pouco voláteis e têm uma intenção de voto muito consolidada, mas esse percentual é pequeno e insuficiente para ganhar uma eleição. Por isso, esse bolsonarista, que não é o radical, é fundamental para uma candidatura efetiva. Tem, sim, um núcleo muito fiel ao bolsonarismo, que está nas redes bolsonaristas e só consome esse conteúdo, mas essas pessoas não são a maioria entre os que se posicionam à direita no espectro ideológico. 

Já entre as lideranças e políticos profissionais do bolsonarismo, há fissuras e disputa por hegemonia. Em alguns momentos, esse bloco fica mais articulado em torno de alguns temas; em outros, não. Desde o processo que culminou na prisão de Bolsonaro, essas fissuras apareceram de forma mais intensa. O bolsonarismo, nos dois sentidos, é avesso ao dissenso, justamente para manter a adesão completa, mas isso não é fácil de acontecer. Veja agora: [os presidenciáveis] Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), e o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ), que foi apoiador de Bolsonaro, se posicionam contra Flávio. Do lado dos eleitores, também pode haver esse movimento.

A quais sinais e movimentações prestar atenção agora?

Marcos Marinho É o momento ideal para candidatos como Romeu Zema e Ronaldo Caiado fazerem alguma movimentação. Renan Santos [presidenciável pelo partido Missão] foi para a briga, assim como Zema. Já Caiado fez uma postagem muito ruim, com um certo receio de pegar a ira bolsonarista contra ele. O fato é que vai começar a haver uma dissidência dentro das direitas. Nunca foi consolidado que Flávio era o candidato das direitas: ele foi uma imposição de Jair Bolsonaro. É uma candidatura frágil desde o começo, porque ela é só uma candidatura de CPF. Ninguém do cenário político que realmente tem peso para mexer no tabuleiro concorda com Flávio candidato, que não tem competência e cabedal para ocupar a Presidência. 

Precisamos observar a chance que Zema, Caiado e Renan têm para crescer nesse contexto, pegando algumas pautas e batendo de forma que dê para trazer o eleitor conservador de direita que não é o bolsonarista radical. No campo bolsonarista, imagino que vão tentar manter Flávio, porque não tem outra opção. Michelle [Bolsonaro, esposa de Jair] seria outra opção, mas que é inaceitável dentro da família. Tentar empurrar Michelle agora — algo que Valdemar da Costa Neto [presidente do PL] sempre tentou fazer — não apaga o problema de Flávio. É mais fácil dobrar a aposta do que tirar Flávio, porque seria uma admissão de culpa. 

Tathiana Chicarino É importante observar os temas da agenda pública e do noticiário. Tivemos semanas com assuntos negativos para Lula. Agora, o cenário se reverteu, e a percepção é negativa em relação a Flávio Bolsonaro. Por que digo isso? Porque isso pode influenciar a rejeição aos candidatos. Esta é uma eleição com a tendência de poucos votos para quem não está no campo bolsonarista ou no campo do PT, por isso, a rejeição é muito importante. Essa ligação de Flávio com o Master pode ajudar a reduzir a rejeição a Lula. 

Considerando como o clã Bolsonaro se comporta, é improvável que Michelle seja considerada — inclusive, ela diz que sua atuação política está subordinada ao marido. Mas, dependendo do que mais aparecer, pode ser que a candidatura de Flávio não vingue e ele seja substituído por alguém que venha estancar a sangria. 

Embora tenhamos a percepção de que Jair Bolsonaro foi eleito por ele mesmo em 2018, isso não é verdade. Sua eleição foi fruto de uma reestruturação da direita que começou em 2010. Não dá para dizer que, isoladamente, vá ocorrer uma migração direta de votos de Flávio para Ronaldo Caiado ou Romeu Zema. Mas os grupos apoiadores, partidos políticos, sociedade civil organizada, mercado financeiro, vão migrar? Essa é a pergunta. Para Renan Santos, é diferente, porque ele vem de um movimento político, o MBL [Movimento Brasil Livre], institucionalizado num partido, o Missão, com apelo muito forte num estrato específico, o dos homens jovens. Vai ser importante observar a atuação dele e do Missão nestas eleições, mas hoje é difícil dizer sobre absorver esses votos. Vai depender do desenrolar do escândalo e do reposicionamento dos candidatos e dos partidos da direita.