
Flávio Bolsonaro em reunião da Comissão de Segurança Pública do Senado
As revelações sobre a relação entre Flávio Bolsonaro (PL) e Daniel Vorcaro pelo site The Intercept Brasil geraram uma série de danos políticos ao senador, que busca disputar a Presidência contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de outubro de 2026.
Desde que as primeiras mensagens entre os dois vieram à tona – relativas a cobranças de Flávio para que o dono do Banco Master financiasse o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro –, em 13 de maio, o pré-candidato do PL caiu nas pesquisas de intenção de voto, sofreu baixas na equipe da pré-campanha e foi alvo de críticas de adversários da direita.
R$ 134 milhões
foi o valor negociado entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para bancar ‘Dark Horse’. O banqueiro pagou cerca de R$ 61 milhões, segundo o Intercept
Neste texto, o Nexo elenca os impactos que a ligação entre Flávio e Vorcaro gerou para a pré-campanha do PL até agora.
A pré-campanha de Flávio teve a primeira baixa uma semana depois das revelações do Intercept, quando o publicitário Marcello Lopes, conhecido como Marcellão, deixou a chefia de comunicação da equipe.
Em nota à imprensa na quarta-feira (20), Lopes disse que não iria mais liderar a pré-campanha do senador para “focar na própria empresa e priorizar seus negócios”.
Dono da agência Cálix, que tem contratos com diferentes governos, o publicitário é ex-policial civil do Distrito Federal e amigo pessoal de Flávio. A coordenação da comunicação da pré-campanha foi acertada com a cúpula do PL no início de maio, mas as tratativas já eram anteriores.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante sessão conjunta do Congresso Nacional
Pesou na queda de Lopes o fato de que o entorno da campanha de Flávio não sabia das conversas entre o senador e Vorcaro. A equipe foi pega de surpresa com o vazamento dos áudios.
A mudança de versões por parte do senador foi outro fator de desgaste. Antes da publicação das reportagens do Intercept, Flávio havia dito que não conhecia o dono do Master. Depois, divulgou um vídeo admitindo que havia falado com o banqueiro para pedir recursos para o filme do pai. Mais tarde, em entrevista à GloboNews, afirmou que omitiu a relação porque tinha um contrato de confidencialidade em “Dark Horse”.
Mesmo antes da crise causada pelas revelações do Intercept, Lopes vinha sofrendo pressão para deixar o comando da pré-campanha, segundo o jornal Folha de S. Paulo.
Em 12 de maio, uma reportagem do jornal revelou que o nome do publicitário consta num documento como um dos estrategistas dos ataques virtuais orquestrados contra o Banco Central após a instituição decretar a liquidação extrajudicial do Master. Segundo investigações, Vorcaro contratou influenciadores para divulgar conteúdos com o objetivo de descredibilizar a autarquia e defender seu banco.
Segundo a Folha, Lopes recebeu R$ 650 mil no dia 13 de dezembro de 2025, período em que os ataques estavam em curso. Em resposta ao jornal, o marqueteiro negou ter participado da ação.
Com a saída do publicitário, quem assume a chefia de comunicação da campanha é Eduardo Fischer, que foi marqueteiro da campanha à Presidência em 2018 de Álvaro Dias (MDB). Na época, o ex-senador e ex-governador do Paraná teve 0,8% dos votos no primeiro turno.
Após o lançamento da pré-candidatura de Flávio à Presidência, seu potencial como substituto de Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe de Estado, se mostrou rapidamente viável.
Pesquisa Datafolha divulgada em dezembro de 2025 mostrou que, na época, o senador tinha 18% das intenções de voto no segundo turno contra Lula, então com 41%. Já em maio de 2026, antes das revelações do Intercept, os dois pré-candidatos apareceram empatados, com 45% das intenções de voto cada.
Após as revelações sobre Flávio e Vorcaro, no entanto, a preferência pelo pré-candidato do PL diminuiu. Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na quarta-feira (20) e realizada com 5.032 eleitores via recrutamento digital mostrou queda de seis pontos percentuais nas intenções de voto no senador em relação ao levantamento realizado pelo instituto em abril.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista
Segundo a Atlas, Lula tinha 47,5% das intenções de voto no segundo turno em abril, e o senador, 47,8%. Ou seja, Flávio estava numericamente à frente do atual presidente (sem considerar a margem de erro da pesquisa, de um ponto percentual para mais ou para menos). Já em maio, o petista voltou a ultrapassar o pré-candidato do PL.
48,9%
foi a porcentagem de intenção de voto em Lula no segundo turno contra Flávio, de acordo com pesquisa Atlas/Bloomberg realizada após a divulgação dos áudios entre o senador e Daniel Vorcaro
41,8%
foi a porcentagem de intenção de voto em Flávio no segundo turno contra Lula, de acordo com pesquisa Atlas/Bloomberg realizada após a divulgação dos áudios entre o senador e Daniel Vorcaro
Após a publicação do levantamento, a pré-campanha de Flávio acionou o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para suspender sua divulgação, sob o argumento de que o questionário apresentado aos entrevistados foi estruturado para gerar uma percepção negativa sobre o senador.
A Atlas apresentou aos entrevistados um áudio de Flávio a Vorcaro, pedindo que arrastassem a seta à direita quando a avaliação fosse positiva e à esquerda quando fosse negativa. O instituto disse que está tranquilo com os questionamentos e vai colaborar com o TSE.
Presidenciáveis que disputam o campo de direita e da extrema direita nas eleições de 2026 criticaram Flávio após as revelações do Intercept.
Ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) disse nas redes sociais que os áudios trocados entre o senador e Vorcaro eram “imperdoáveis”.
“Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil”
Romeu Zema
pré-candidato à Presidência da República pelo Novo, em vídeo divulgado nas redes sociais
Dias depois, Zema recuou, dizendo que a crítica era “página virada” e que votaria em Flávio ou em qualquer outro candidato contra o PT no segundo turno, mesmo que fosse “muito ruim”.
5,2%
são as intenções de voto em Romeu Zema (Novo) no primeiro turno, de acordo com pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na terça-feira (19)
Ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) publicou um vídeo e uma nota num tom mais ameno que o de Zema, dizendo que Flávio precisava “se explicar”, mas que não era “oportunista”. Para ele, a centro-direita brasileira não deve “romper a unidade” para “derrotar o PT e Lula nas urnas”.
2,7%
são as intenções de voto em Ronaldo Caiado (PSD) no primeiro turno, de acordo com pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na terça-feira (19)
Já Renan Santos, pré-candidato pelo Missão, fundado por membros do MBL (Movimento Brasil Livre), disse que a legenda vai pedir a cassação do mandato de Flávio no Conselho de Ética do Senado e solicitar ao Ministério Público Eleitoral que apure sobre os recursos utilizados para financiar “Dark Horse”.
“Flávio Bolsonaro acabou. Se o Brasil for um país sério, Flávio Bolsonaro, assim como todos os envolvidos no escândalo do Banco Master, incluindo o Xandão [ministro do STF, Alexandre de Moraes], devem ir para a cadeia”
Renan Santos
pré-candidato à Presidência da República pelo Missão, em vídeo divulgado nas redes sociais
6,9%
são as intenções de voto em Renan Santos (Missão) no primeiro turno, de acordo com pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na terça-feira (19)
Também houve críticas de ex-aliados da família Bolsonaro, como o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP), ministro do Meio Ambiente no governo de Jair. Em entrevista à BBC Brasil publicada na quarta-feira (20), o pré-candidato ao Senado em São Paulo disse que a proximidade entre Flávio e Vorcaro é “no mínimo imoral” e defendeu sua substituição pela ex-primeira dama Michelle Bolsonaro.
“Uma composição com Michelle como cabeça de chapa ganharia muita adesão”
Ricardo Salles
deputado federal e candidato ao Senado em São Paulo pelo Novo, em entrevista à BBC Brasil
A falta de transparência de Flávio e a mudança de versões sobre a relação com Vorcaro também geraram desgaste no PL.
Após as revelações do Intercept, parlamentares da legenda pressionaram o dirigente Valdemar da Costa Neto a convencer o senador a se explicar. Ele se reuniu com a bancada na terça-feira (19).
Na saída do encontro, em pronunciamento a jornalistas, Flávio admitiu que visitou Vorcaro após o banqueiro ser liberado de sua primeira prisão, em novembro de 2025 — história que o site Metrópoles havia revelado poucas horas antes. O senador afirmou que foi ao encontro para dar um “ponto final nessa história”.
“Se ele tivesse me dito que a situação era tão grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito tempo”
Flávio Bolsonaro
senador e pré-candidato à Presidência da República pelo PL, em declaração na terça-feira (19)
As mensagens do Intercept mostram que Flávio conversou com Vorcaro pela última vez em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão do banqueiro, quando as suspeitas em torno do Master já eram publicamente conhecidas.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”
Flávio Bolsonaro
senador e pré-candidato à Presidência da República pelo PL, em mensagem a Daniel Vorcaro em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro
Publicamente, o PL tenta minimizar o desgaste, mas, internamente, considera as declarações de Flávio pouco convincentes, segundo informações de bastidores. Reportagem do jornal O Globo publicada na quarta (20) afirma que a cúpula do partido deve decidir num prazo de 15 dias se o senador seguirá ou não na corrida presidencial.