
Armazém na Fordlândia
A Justiça Federal determinou em 29 de maio que autoridades adotem medidas imediatas para recuperar e preservar o conjunto urbano, arquitetônico e paisagístico da Fordlândia, no Pará. O plano deverá ser levado a cargo conjuntamente pela União, pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), pelo governo do Pará e pela prefeitura de Aveiro, município em que se localiza a vila.
A Fordlândia foi construída em 1927 pela companhia do empresário Henry Ford, como forma de obter acesso direto ao látex vegetal das seringueiras da região. Mas a investida não deu certo, e o projeto foi abandonado nos anos 1940. Desde a década de 1990, a preservação do patrimônio histórico e cultural do local é alvo de embates.
Neste texto, o Nexo apresenta a Fordlândia, os patrimônios históricos da região e as discussões sobre preservação das estruturas locais.
A construção da Fordlândia começou com o desejo de Henry Ford de que sua empresa automobilística, a Ford Motor Company, fosse independente de fornecedores externos.
No caso da borracha, a solução encontrada foi começar a cultivar seringueiras para a extração do látex vegetal (usado na produção de pneus) na região do Baixo Amazonas. A CFIB (Companhia Ford Industrial do Brasil) foi fundada em outubro de 1927 e obteve a concessão de quase 1,5 milhão de hectares do governo do Pará, mais incentivos fiscais e isenção de impostos de exportação.
Para sediar esse empreendimento – que abrigaria trabalhadores e fábricas –, foi fundada a Fordlândia, um distrito que se instalou no município de Aveiro, no sudoeste do Pará, às margens do rio Tapajós. No seu apogeu, a vila criada por Ford chegou a abrigar mais de 3.000 trabalhadores.
O empreendimento começou a declinar no fim dos anos 1930, quando o cultivo de seringueiras foi destruído por pragas agrícolas, o que inviabilizou a meta de produção de borracha em larga escala. Ao mesmo tempo, a competição internacional com o látex da Ásia prejudicou as produções brasileiras.
As dificuldades fizeram com que a Ford abandonasse a cidade em 1945, indenizando o Brasil e devolvendo o controle da área e da infraestrutura local para a União. Nos anos seguintes, a cidade funcionou como sede de instalações do Ministério da Agricultura e de fazendas de criação de gado, mas, aos poucos, foi abandonada.
Hoje, a Fordlândia tem cerca de 2.000 moradores e é habitada por ribeirinhos e descendentes dos antigos trabalhadores.
A maioria das estruturas do distrito segue os padrões das residências americanas do século 20. As casas da vila americana (que abrigava os executivos da empresa) e das vilas operárias (onde viviam os trabalhadores das fábricas), por exemplo, foram construídas originalmente em madeira, com jardins em frente.
Muitas das residências podem ser associadas às casas de estilo “Cape Cod”, habitação americana típica entre os anos 1930 e 1950, caracterizada por casas no formato retangular e pela simplicidade de adornos.
Outras construções feitas durante a administração de Ford evocam palafitas, casas elevadas do chão próximas aos rios.
O Hospital Henry Ford foi projetado pelo arquiteto Albert Khan, que também desenhou as fábricas da Ford nos Estados Unidos. O edifício era uma referência regional e contava com 100 leitos, mas foi desativado após o fim do projeto. Hoje, encontra-se em ruínas.

Hospital Henry Ford em fotografia de 1933
Há resquícios do passado produtivo da cidade, como galpões industriais, o Armazém do Porto – ponto de entrada e saída de mercadorias da região – e uma antiga fábrica de beneficiamento do látex. Também integram o conjunto arquitetônico da região um convento e a escola Henry Ford.
Essas estruturas sofreram com o desgaste do tempo, a falta de preservação governamental e alterações feitas pelos próprios moradores. A madeira de algumas casas, por exemplo, foi trocada por alvenaria, já que o material anterior apodrece mais facilmente em regiões de clima quente e úmido, como a Amazônia.
Os debates sobre a preservação da Fordlândia tiveram início em 1990, quando uma petição de tombamento federal da região entrou em análise pelo Iphan.
Em 2010, foi firmado um acordo de preservação entre o governo do Pará e a prefeitura de Aveiro, mas a iniciativa não gerou ações concretas de conservação do patrimônio.
Depois, em 2015, o Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública pedindo que a Justiça obrigasse o Iphan a dar prioridade ao processo de tombamento. A prefeitura de Aveiro também precisaria tomar medidas de proteção do patrimônio.
Em maio de 2024, o Conselho Consultivo do instituto decidiu negar o tombamento federal da área. Um dos motivos apontados pelo Iphan foi a inviabilidade financeira do projeto. A Fordlândia fica numa região de difícil acesso, o que dificulta a atração de turistas, e sem arrecadação própria.
Apesar disso, a decisão da Justiça Federal em maio de 2026 determinou que o Iphan atue em conjunto com os órgãos federais e estaduais para recuperar e preservar o complexo arquitetônico, sob pena de multas diárias, independentemente da formalização do tombamento.
A Justiça também determinou um prazo de 90 dias para a apresentação de um diagnóstico atualizado do estado de conservação dos imóveis e 180 dias para a elaboração de um Plano de Recuperação e Conservação com medidas emergenciais.
Zâmara Elaíne Anunciata Lima, arquiteta pesquisadora da Fordlândia, disse em entrevista ao Jornal Beira do Rio em 2022 que o tombamento dos patrimônios não é consenso entre os moradores da cidade.
“Com o tombamento, cada morador continuará responsável pela manutenção e conservação do imóvel, mas a regularização se faz importante para possíveis responsabilizações e financiamentos, por exemplo”, afirmou a arquiteta.
Com a saída da Ford, a Fordlândia voltou a pertencer à União e não foi repassada oficialmente ao município de Aveiro, do qual é distrito. Já as residências foram ocupadas por empossamento e transferidas de morador para morador.
“Falta informação e há muitas controvérsias. Nem sempre há esforços por parte dos administradores públicos, e a própria população se divide. No entanto, a resposta que mais busquei foi o porquê da demora do parecer, favorável ou não. Com o desenvolvimento da pesquisa, fui me deparando com vários aspectos que justificam a demora”, disse Lima.
Entre os motivos apontados pela arquiteta para a demora do parecer estão a falta de regularização fundiária, que dificulta possíveis responsabilizações e financiamentos aos moradores, e a localização da Fordlândia, acessível apenas por vias fluviais e distante quatro horas da cidade de Santarém (PA).