Como o conflito EUA-Israel-Irã se espalha pelo Oriente Médio

Bombardeio israelense em Beirute, capital do Líbano, após ataque do Hezbollah

Bombardeio israelense em Beirute, capital do Líbano, após ataque do Hezbollah

Os Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã no sábado (28), deixando o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, e diversos membros do alto escalão do regime iraniano mortos. O governo persa respondeu com ataques contra o território israelense e bases militares americanas em diversos países do Oriente Médio.

Aliada iraniana, a organização libanesa Hezbollah passou a atacar o norte de Israel em retaliação pela morte de Khamenei. As Forças de Defesa israelenses responderam bombardeando o sul do Líbano e a capital, Beirute.

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é a quantidade de mortos iranianos até a segunda-feira (2), segundo o Crescente Vermelho 

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é a quantidade de mortos israelenses até a segunda-feira (2), segundo as Forças de Defesa de Israel

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é a quantidade de mortos americanos até a segunda-feira (2), segundo o Comando Central dos EUA

Neste texto, o Nexo mostra como o conflito direto entre EUA, Israel e Irã se tornou um combate regionalizado.

O espraiamento do conflito

Drones iranianos atingiram nesta segunda-feira (2) a refinaria petrolífera Ras Tanura, na Arábia Saudita, provocando um incêndio. As atividades foram interrompidas por precaução. Três caças americanos F-15 foram interceptados pelo Kuwait, por engano. Os pilotos sobreviveram.

Também nesta segunda (2), dois drones iranianos foram abatidos em direção à base aérea britânica no Chipre. Não houve danos.

Entre sábado (28) e domingo (1º), três pessoas morreram nos Emirados Árabes Unidos, onde um edifício, um hotel de luxo e os aeroportos internacionais de Dubai e de Zayed, em Abu Dhabi, foram atingidos ao longo do final de semana. Destroços de mísseis e drones abatidos também causaram danos, inclusive no porto de Jebel Ali. Pelo menos 58 pessoas ficaram feridas no país.

A base militar americana no Kuwait também foi alvo de ataque, mas os mísseis balísticos foram interceptados. O Aeroporto Internacional do Kuwait foi atingido por drones, assim como o Aeroporto Internacional de Erbil, na região do Curdistão iraquiano. As bases militares de Jurf al-Nasr e de Erbil, ambas no Iraque, também foram alvos, mas os drones foram abatidos.

O Irã também atacou uma base militar americana no Bahrein, o que causou danos em edifícios na capital, Manama. Dois drones atingiram o porto de Duqm, no Omã — o país mediava as negociações de um novo acordo nuclear entre americanos e iranianos. Apesar das conversas, Donald Trump decidiu executar a operação.

As defesas do Qatar, da Jordânia e da Arábia Saudita interceptaram drones direcionados aos seus territórios, evitando a destruição de infraestruturas. Pelo menos 32 pessoas ficaram feridas no Kuwait, 16 no Qatar, cinco em Omã e quatro no Bahrein.

Os países do Oriente Médio fecharam seus espaços aéreos. O Estreito de Ormuz foi fechado pela Guarda Revolucionária Iraniana. Três navios petroleiros foram bombardeados. A situação do estreito levanta preocupação quanto ao escoamento da produção de petróleo dos países do Golfo Pérsico.

Cerca de 20% do consumo mundial total de petróleo passa pelo corredor — ou seja, cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto, condensado e combustíveis são transportados diariamente pelo local, segundo a EIA, agência americana de energia. Por ali passa também 20% de toda a produção de GNL (gás natural liquefeito) consumido no mundo — cerca de 11 bilhões de pés cúbicos por dia.

Numa declaração conjunta, Qatar, Arábia Saudita, Bahrein, Jordânia, Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e os EUA condenaram veementemente os ataques iranianos e reafirmaram o direito à autodefesa.

Os países destacaram que “esses ataques injustificados visaram território soberano, colocaram em risco populações civis e danificaram a infraestrutura civil”.

“As ações da República Islâmica representam uma escalada perigosa que viola a soberania de múltiplos Estados e ameaça a estabilidade regional. Atacar civis e países que não estão envolvidos em hostilidades é um comportamento imprudente e desestabilizador”, segundo a nota.

O aliado iraniano

Dois dias depois da agressão americana e israelense ao Irã, o Hezbollah, um dos principais aliados do regime persa, lançou foguetes na madrugada desta segunda-feira (2) no norte do território de Israel, em retaliação pela morte de Khamenei.

As Forças de Defesa israelenses responderam atacando o sul do Líbano e a capital, Beirute. Pelo menos 31 pessoas morreram, segundo o Ministério da Saúde libanês.

Nawaf Salam, primeiro-ministro libanês, condenou na segunda-feira (2) a atitude “ilegal” do Hezbollah de atacar Israel. Em reação, ele anunciou o banimento das atividades militares do braço armado da organização libanesa. “Anunciamos a proibição das atividades militares do Hezbollah e restringimos seu papel à esfera política”, disse.

O Hezbollah é um dos grupos que integram uma aliança informal conhecida como Eixo da Resistência, liderada e financiada pelo Irã. Hamas, Houtis, Jihad Islâmica e milícias do Iraque e Afeganistão também compõem o grupo. A Síria, quando estava sob o governo Bashar al-Assad, também fazia parte.

O conflito de dois anos entre Israel e Hamas deixou essas organizações enfraquecidas, com perdas de lideranças militares e armamentos. Ainda assim, elas seguem ativas.

Augusto Teixeira Junior, professor de relações internacionais da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), afirmou ao Nexo que, apesar de enfraquecido, o Hezbollah ainda é um ator que incomoda Israel na região.

Ele acrescentou que a entrada no grupo era esperada e tende a aumentar o custo de Israel dentro dessa ofensiva, além de incendiar os demais aliados do Eixo da Resistência.

A regionalização do conflito

O conflito conta com ataques diretos dos EUA, de Israel e do Irã, além do Hezbollah. Contudo, a participação indireta de múltiplos atores faz desse um conflito regional.

Isso ocorre em grande medida por causa da estratégia de resposta iraniana. Antes de reagir à agressão, o Irã afirmou que qualquer instalação americana ou israelense seria um alvo legítimo. O país persa lançou drones e mísseis balísticos contra bases militares americanas nos países do Golfo, mas atingiu também áreas residenciais. 

Luíza Cerioli, pesquisadora sênior na Universidade de Kassel, na Alemanha, afirmou ao Nexo que há entre países do Oriente Médio a percepção de que o Irã é uma fonte de instabilidade regional. A especialista em Oriente Médio e geopolítica acrescentou que o país persa tem alta capacidade de projeção de pressão na região. 

Teixeira, que é especialista em estudos militares e geopolítica, afirmou que a ideia iraniana é atacar as fontes de poder militar americano na região e aumentar os custos da guerra para aliados regionais dos EUA.

“A estratégia parece ser aumentar o custo para os atores da região no sentido de pressionar os EUA a refrear o conflito e voltar à mesa de negociação, tal como degradar as condições logísticas de ataque contra o próprio Irã. E causar danos econômicos, financeiros e comerciais a todos esses países, os quais têm como parte importante da renda o turismo e o fluxo de petróleo e outras commodities ligadas à energia”

Augusto Teixeira Junior

professor de relações internacionais da UFPB em entrevista ao Nexo

Autoridades americanas e israelenses afirmaram que o conflito vai durar o necessário para alcançar seu objetivo — que é a mudança de regime. Eles têm estimulado a população iraniana a tomar o poder.

Cerioli avaliou que a possibilidade de mudança de regime a partir de bombardeios aéreos é pouco plausível. “Não vejo hoje uma saída clara que não seja pelo próprio regime”, disse. Ela acrescentou que uma possibilidade factível seria por meio da fragmentação e de conflitos internos por poder. 

“Se o objetivo é fragmentar o Irã, transformando-o em algo semelhante à Líbia ou ao Iraque, o conflito regional vai ser dominante, e é difícil que se mantenha apenas nas fronteiras do Irã. O regime vai cair atirando e ativando sua rede de aliança. Com isso, o conflito seria relativamente longo e as consequências seriam sentidas em toda a região”, afirmou a pesquisadora.