
A filósofa Gilda de Mello e Souza
O guarda-roupa feminino refletiu uma série de mudanças sociais, políticas e econômicas que ocorreram ao longo do século 19. Enquanto os homens que trabalhavam nas cidades exigiam vestimentas práticas, as mulheres eram relegadas à esfera privada, com roupas que por vezes também restringiam suas atividades.
Essas e outras mudanças, segundo a filósofa Gilda de Mello e Souza, foram narradas na literatura daquele século. Ela defende sua visão na tese de doutorado “A moda no século 19: ensaio de sociologia estética” (1950), depois publicada pela editora Companhia das Letras com o título “O espírito das roupas: a moda no século 19” (1987).
Neste texto, o Nexo explica quem foi Gilda de Mello e Souza, de que maneira sua tese foi inédita para os estudos da época e por que ela continua a reverberar hoje.
Gilda de Mello e Souza nasceu em Araraquara, no interior de São Paulo, em 1919. Ingressou no curso de filosofia da USP (Universidade de São Paulo) em 1937, graduando-se em 1940.
Em 1950, tornou-se doutora em ciências sociais após defender a tese “A moda no século 19”. Foi a primeira professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, lecionando a inédita disciplina de estética no Departamento de Filosofia a partir de 1954. Ela também chefiou o departamento entre 1969 e 1972.
Sua tese foi a quarta defendida por uma mulher na universidade. Na época, o trabalho foi considerado fútil e menos importante por tratar de moda, segundo a professora do Departamento de Filosofia da USP Silvana Ramos, que pesquisa a obra de Mello e Souza.
“Por ter abordado temas como estética e assuntos menores do cotidiano, ainda há uma resistência em chamá-la de filósofa, ou em dizer que os textos dela eram filosóficos. Mas ela inaugurou uma reflexão filosófica sobre a moda, e precisamos reconhecer esses autores que saem da curva”, disse Ramos ao Nexo.
Além de professora e filósofa, Mello e Souza foi ensaísta e crítica de arte. Publicou livros como “O tupi e o alaúde: uma interpretação de Macunaíma” (1979) — que fez com que “Macunaíma”, de seu primo, Mário de Andrade, ganhasse centralidade entre suas obras — e a coletânea de ensaios “Exercícios de leitura” (1980).
Ela era casada desde 1943 com o também professor e crítico Antonio Candido. Morreu em 2005, aos 86 anos, vítima de embolia pulmonar.
Silvana Ramos afirmou que a decisão de Mello e Souza de analisar a moda como um fenômeno estético social pode ser explicada pelo contexto de sua época, quando as roupas serviam para inserir e dar visibilidade a um indivíduo na sociedade.
“Isso ganha importância à medida que São Paulo começa a se tornar uma metrópole e a moda, as festas, tudo isso tem um valor e uma importância sociológica”, disse.
Em “A moda no século 19”, Gilda de Mello e Souza explicou como a moda organiza formas de sociabilidade. Ela também mostrou de que maneira a burguesia, que havia ascendido durante aquele período, organizou a divisão sexual do trabalho e os papéis sociais por meio das vestimentas.
“Ela poderia simplesmente ter analisado moda e consumo, ou a moda vinculada ao modo de produção econômico, mas ela vai além, abordando a moda como uma linguagem do advento da modernidade”, disse ao Nexo Brunno Almeida Maia, pesquisador em teoria de moda pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
Para entender a moda como um sistema, a ensaísta recorre à literatura do século 19 e às descrições de autores como o brasileiro Machado de Assis e o francês Marcel Proust.
“Tinha agora vestidos mais leves, ou pelo menos mais claros, e descia a rua, onde, como se já fosse primavera, diante das estreitas lojas intercaladas entre as vastas fachadas dos velhos casarões aristocráticos, na platibanda da vendedora de manteiga, de frutas, de legumes, estavam pendurados toldos contra o sol”
Marcel Proust
autor francês, em trecho do livro “O caminho de Guermantes”, citado por Mello e Souza
“Durante esse século, os homens passaram para o espaço público e as mulheres se voltaram para a atividade do lar, confinadas. As vestimentas acompanharam isso. A moda masculina ficava mais prática, enquanto a feminina passava a restringir fisicamente os movimentos das mulheres”, disse Maia.

Crinolina, armação usada sob as saias para lhes conferir volume, restringindo movimentos
A filósofa também comparou a moda com outras artes, como a pintura — já que o costureiro tem preocupação com as cores — e a arquitetura — já que, ao criar formas no corpo, os modistas transformam a relação das pessoas com o espaço ao redor.
Para Mello e Souza, a especificidade da moda como linguagem artística está no fato de ela ser uma arte do movimento, que precisa do corpo vestido para se consumar.
Para Maia, Mello e Souza é uma das precursoras da teoria de moda no Brasil, e seus textos oferecem reflexões ainda atuais sobre a luta de classes e as relações de gênero.
“Desconheço um teórico de moda que tenha definido a moda como arte com tamanho rigor e sensibilidade como Mello e Souza”, disse.
Ramos acredita que a escrita da ensaísta ajuda a pensar o mundo contemporâneo. “Ela conversa conosco muito mais do que outros autores e é pertinente para nosso mundo atual”, afirmou.
Ramos e Maia irão ministrar o curso “O espírito das roupas: a moda em Gilda de Mello e Souza” entre os meses de abril e junho no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros da USP).
As bases são os livros da filósofa, a literatura de escritores como Virginia Woolf, Proust e José de Alencar e manuscritos inéditos de Mello e Souza, encontrados em 2017 no arquivo dedicado a ela no IEB.