
Destruição após bombardeio paquistanês no Afeganistão
O ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, declarou “guerra aberta” ao Afeganistão na sexta-feira (27) após uma série de ataques mútuos na fronteira dos dois países. O governo paquistanês bombardeou a capital afegã, Cabul, e outras cidades.
Horas antes do anúncio paquistanês, o Taleban afegão havia anunciado uma grande ofensiva perto da fronteira com o vizinho. Essas hostilidades representam um recrudescimento das relações entre eles desde o estabelecimento de um frágil cessar-fogo em outubro de 2025.
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é a estimativa de mortos nos ataques fronteiriços entre os dois países até a sexta-feira (27), sendo 297 afegãos e 55 paquistaneses
Neste texto, o Nexo explica as relações e as tensões entre o Paquistão e o Afeganistão.
A Força Aérea paquistanesa bombardeou as cidades de Cabul, de Kandahar — a segunda maior cidade do país, localizada no sul — e de Paktika, no sudeste, como retaliação a ataques do Afeganistão na fronteira entre os dois na quinta-feira (26).
O governo afegão, liderado pelo Taleban, disse na quinta-feira (26) que o ataque na fronteira foi uma resposta a bombardeios paquistaneses contra áreas fronteiriças no domingo (22). O Afeganistão também alegou ter capturado mais de 10 postos do exército do Paquistão ao longo da Linha Durand.

A Linha Durand é a demarcação da fronteira, de cerca de 2.600 km de extensão, entre os países, imposta pelo Império Britânico em 1893. O Afeganistão não a reconhece formalmente.
O Paquistão afirmou que o Afeganistão realizou um ataque não provocado pelos paquistaneses e negou a captura dos postos militares.
O governo paquistanês também disse que o ataque de domingo (22) foi uma operação contra alvos do TTP (Tehreek-e-Taliban Pakistan), conhecido como Taleban Paquistanês. O Paquistão acusou a organização de ter executado um atentado terrorista em 6 de fevereiro numa mesquita em Islamabad, capital paquistanesa, que deixou mais de 30 mortos.
O Paquistão tem armas nucleares, e suas capacidades militares são amplamente superiores às do Afeganistão. Contudo, o Taleban tem experiência em guerra de guerrilha — estratégia militar que utiliza táticas não convencionais contra forças superiores.
O governo paquistanês tem acusado o Taleban de apoiar o TTP.
O Afeganistão contesta essa alegação. Porém, um relatório do Conselho de Segurança das Nações Unidas divulgado em fevereiro apontou que o Taleban forneceu armas, incluindo fuzis e drones, ao Talibã Paquistanês.
Os recentes ataques ocorrem após meses de hostilidades entre Paquistão e Afeganistão. Em outubro de 2025, houve intensos bombardeios que deixaram cerca de 70 mortos dos dois lados. Sob mediação da Turquia e do Qatar, os países chegaram a um cessar-fogo, que foi rompido de fato agora.
Pearl Pandya, analista de Sul da Ásia do Acled (Armed Conflict Location & Event Data), avaliou num relatório no site da organização que monitora conflitos globais que o TTP representou um grande desafio ao Paquistão, tendo realizado cerca de 700 ataques contra suas forças de segurança de janeiro a novembro de 2025.
“Na ausência de uma repressão ao TTP, uma escalada ainda maior parece inevitável”, disse.
Criado em 2007, o Tehrik-e Taliban Pakistan é uma organização terrorista islâmica de orientação sunita que atua na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão. Atualmente, ele é liderado por Noor Wali Mehsud, também conhecido como Abu Mansur Asim.
O objetivo do TTP é controlar a província paquistanesa de Khyber Pakhtunkwa, na fronteira com o Afeganistão, e posteriormente estabelecer um califado islâmico no país, implementando a sharia, a lei islâmica.
O grupo é distinto do Taleban no Afeganistão, mas compartilha laços ideológicos, sociais e linguísticos com a organização terrorista e com a Al Qaeda.
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Desde sua criação, o Taleban Paquistanês realizou diversos atentados terroristas contra mesquistas, mercados e bases militares. Um de seus ataques mais conhecidos foi a tentativa de assassinato da ativista pelos direitos à educação Malala Yousafzai em 2012 — ela foi laureada com o prêmio Nobel da Paz dois anos depois.
O TTP também lutou ao lado do Taleban durante o período da ocupação americana no Afeganistão e abrigou combatentes afegãos em suas bases no Paquistão.
Ministro da Defesa paquistanês, Asif disse na quinta-feira (26) no X que esperava que o Taleban, ao retornar ao poder em 2021, se concentrasse nos interesses do povo afegão e na estabilidade regional. “No entanto, o Taleban transformou o Afeganistão em uma colônia da Índia”, escreveu.
O Paquistão e a Índia são duas potências nucleares e militares, além de grandes adversários regionais. Os dois países lidam com tensões fronteiriças intermitentes.
Enquanto a Rússia, a China, o Reino Unido e outros países pediram o fim das hostilidades no sul asiático, a Índia condenou os ataques do Paquistão e permaneceu em silêncio sobre a ofensiva afegã que os precedeu.
O ministro das Relações Exteriores afegão, Amir Khan Muttaqi, foi à Índia em outubro de 2025 — a primeira viagem de um membro do alto escalão do Taleban desde que o grupo retornou ao poder, em 2021. A Índia reabriu sua embaixada em Cabul no mesmo período.
Além disso, o governo indiano foi um dos primeiros países a enviar ajuda após o terremoto de magnitude 6,3 que atingiu a cidade afegã de Mazar-i-Sharif, no norte, em novembro.
Esse fortalecimento das relações levanta preocupações securitárias no Paquistão, que está localizado entre os dois países.
O Paquistão e o Afeganistão mantiveram relações cordiais por muitos anos, mesmo sob o governo Taleban (1996-2001).
Enquanto os poucos aliados de Cabul se afastaram após o atentado de 11 de setembro de 2001 aos EUA, realizado pela Al Qaeda — que tinha estreita conexão com o grupo afegão —, Islamabad se manteve próxima.
O atentado desencadeou a ocupação americana do Afeganistão por 20 anos. Nesse período, muitos líderes do Taleban se esconderam no território paquistanês. Autoridades dos EUA chegaram a pressionar o Paquistão a reprimir militantes afegãos dentro de suas fronteiras.
O governo paquistanês saudou o retorno do Taleban ao poder no Afeganistão em 2021. Mas, desde então, a relação se deteriorou por causa da ligação do governo afegão com o Taleban Paquistanês.